
Aos 68 anos de idade, Daniel Manoel da Silva já não possui mais a mesma saúde da juventude, mas carrega consigo a força de um trabalhador e a garra de quem vivenciou momentos que jamais serão apagados de sua memória. Em 2008, o serralheiro aposentado foi um dos atingidos pela tragédia. Sua casa foi completamente soterrada no bairro Alto Baú, em Ilhota, onde ele perdeu cinco membros de sua família: dois netos, duas netas e um irmão.
Daniel lembra que, naquela ocasião, toda a família foi para a sua casa, pois acreditavam ser o local mais seguro naquele momento. “Era uma casa de dois andares e estava cheia de gente. Pelo que lembro, chegamos a abrigar 18 pessoas. Por volta das 21h do dia 23 de novembro, um domingo, uma parte do morro desbarrancou. Com isso, ficamos sem energia elétrica e começamos a rezar e pedir que nada de ruim acontecesse”.
O senhor acredita que o morro veio abaixo por conta da explosão do gasoduto. “Achávamos que era o fim do mundo. E, pra alguns, foi mesmo. Não demorou muito para que o restante da montanha viesse abaixo. Eu fiquei preso nos destroços, sem me mexer. Aos poucos, enquanto ouvia meus parentes gritando, rastejei até que consegui levantar e buscar socorro”, relembra.
A ajuda chegou só no dia seguinte. Ele se recorda com exatidão do momento. “Um helicóptero desceu em frente ao local onde um dia havia casas. Naquele instante, era um amontoado de terra e restos de construção civil. Parecia cena de filme, mas o terror era muito maior. As pessoas que eu tanto amo estavam desaparecidas em meio ao caos”, conta, com lágrimas nos olhos, lembrando que, naquele momento, se agarrou na esperança de encontrar a família com vida.
Após perder a casa e tantos familiares que estarão para sempre em seu coração, Daniel, a esposa e os demais sobreviventes foram morar no casarão da família Schmitt, no bairro Poço Grande, em Gaspar. A família havia perdido tudo e passou a receber donativos para recomeçar a vida. Foi aí que a história de Daniel ganhou ainda mais repercussão. “Minha netinha, Daniele, com cinco anos na época, brincava com um casaco de pele italiano que veio nas caixas doados. Ela então encontrou, amarrado na manga, dois pacotes de dinheiro. Eram muitas cédulas de R$100 e R$50. Tudo somava R$20 mil”, conta.
Daniel e sua família haviam perdido a casa, documentos, pertences pessoais e tudo mais o que haviam conquistado durante a vida inteira. Apesar disso, a honestidade falou mais alto e ele devolveu o dinheiro aos verdadeiros donos. “A honestidade sempre foi uma virtude priorizada na minha casa. Mesmo passando pela maior dificuldade da vida, fui atrás do dono para devolver tudo”. Com o apoio do Jornal Cruzeiro do Vale, através do seu diretor, Gilberto Schmitt, Daniel encontrou o dono do dinheiro, que ficou eternamente agradecido pela devolução.
No final de 2008, a atenção do país inteiro se voltou à região do Vale do Itajaí. Inclusive, grandes veículos de comunicação vieram fazer a cobertura da tragédia. Exemplo disso foi a equipe do Globo Repórter, que gravou exatamente no local onde Daniel vivia com a família. Em meio aos entulhos, um dos maiores jornalistas do Brasil, Caco Barcelos, encontrou o book fotográfico de uma das filhas do serralheiro ilhotense.
Com as fotos em mãos, o repórter da rede Globo teve a ideia de procurar a jovem Isabel Cristina da Silva e, quem sabe, alavancar sua carreira de modelo. “Ela é muito bonita. Sempre foi comunicativa, se expressa bem e tinha o sonho de ser modelo. Com o reconhecimento em rede nacional, algumas portas se abriam. Apesar disso, Isabel resolveu estudar contabilidade e hoje trabalha no ramo”, conta o pai, orgulho. Além de Isabel, Daniel tem mais três filhas que moram em outras cidades e dois filhos que continuam em Ilhota.
Determinado tempo após a tragédia, Daniel e a esposa decidiram dar um novo rumo para suas vidas. “Quando vi que meus filhos estavam encaminhados, fui morar em outro município para me desligar da fatalidade. Fui para Rodeio, onde abri uma nova serralheria. Mesmo longe, continuava perto. Impossível esquecer. Há mais ou menos um ano, voltei para Ilhota. De cabeça erguida, reconstruí minha casa, refiz minha vida. Deus fecha uma porta, mas sempre abre outra”, diz Daniel enquanto aponta para o seu novo lar.
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