
Era cedo quando a família Theiss começou a preparar o jantar no sábado, dia 22 de novembro de 2008. A ideia era reunir avós, padrinhos e primos para comemorar a crisma de uma das filhas. Na rua Nova Biguaçu, mais conhecida como Beco, no Belchior Alto, a chuva insistia em cair cada vez mais forte e, horas antes de receber os familiares em casa, a energia saiu, deixando a rua totalmente às escuras.
O imprevisto fez com que Rita Theiss prorrogasse o jantar para o dia seguinte. “Neste meio tempo, meu cunhado chegou e resolvemos assar uma carne para passar o tempo. Depois de comer, lá pelas 23h, nós fomos deitar. Mas eu não conseguia pegar no sono. Comecei a ouvir um barulho que vinha do vaso sanitário, como se a água estivesse voltando. Acordei meu marido e minha filhas, pois sentia que algo ia acontecer e precisávamos sair dali”, lembra.
Atrás da casa de Rita ficava o ribeirão. “Chovia muito! Eu ainda lembro do barulho que a água fazia naquele dia. A correnteza estava muito forte”. Minutos depois de acordar o marido e as filhas e pedir para que saíssem da casa, o muro nos fundos do quintal, que aguentava boa parte da água do ribeirão, estourou.
Rita lembra que a água jogou ela e as filhas para um cômodo da casa. Já o marido foi empurrado pela correnteza para a cozinha. “Saímos de toda aquela água e fomos para a casa da minha sogra, que é em frente à minha. Fomos de pijama mesmo. Fizemos uma corrente humana com nossos braços e passando em meio a tanta água. Um tronco de árvore jogado pela pressão da água quase pegou na minha filha. Isso não sai da minha cabeça”, recorda Rita, descrevendo a noite.
Pela manhã, foi mais fácil ver o tamanho do estrago. A família conseguiu salvar apenas os documentos importantes, que ficavam no alto de um armário, e poucas peças de roupa. “De restante, perdemos absolutamente tudo. Tinha lama em tudo o que dá para imaginar”.
Mas, o pior ainda estava por vir. A vizinhança do Beco se juntou no galpão de Odair, marido da Rita. Esse era o lugar mais alto da rua. Sem saída, os moradores ficaram trancados no local. “Não tinha mais ponte, não tinha mais saída. Parecia cena de terror. Estávamos em mais de 60 pessoas no galpão. O susto foi maior quando explodiu o gasoduto. No início, muitos pensaram que era o apocalipse. Mas depois, sentimos o cheiro do gás. Lembro que rezávamos muito. Todos queríamos sair de lá”.
As pessoas começaram a sair do galpão no início da semana. Rita lembra que, com jipe e motosserra, os próprios moradores abriram uma passagem. A rua esvaziou. Todos procuravam um lugar mais seguro. “Fomos para a casa do meu sobrinho. Eu nunca tinha visto algo como aquilo. Nunca vi tanta água e destruição”.
A tragédia de 2008 deixou marcas, mas a família Theiss foi uma das que puderam retornar para a casa atingida pela catástrofe. Depois de nove meses fora de casa, a Defesa Civil autorizou a volta. “Eles disseram que não havia mais riscos. Até procuramos outros lugares. Mas, pelo trabalho do meu marido ser ao lado de casa, decidimos voltar”.
Para Rita, 2008 foi um divisor de águas. Até hoje, ela não conseguiu superar os traumas daquele fim de semana. “Hoje eu ainda não consigo dormir direito. Eu tive a síndrome do pânico. Demorei para aceitar que isso aconteceu com a gente, mas percebi que tudo aqui na terra é passageiro. Minha família está toda viva. Olha quantas pessoas perderam quem amavam. Tem gente que passou por coisas bem piores”, diz, emocionada.
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