A dor da mãe que perdeu a filha e a neta no Baú durante a grande tragédia - Jornal Cruzeiro do Vale

A dor da mãe que perdeu a filha e a neta no Baú durante a grande tragédia

23/11/2018
A dor da mãe que perdeu a filha e a neta no Baú durante a grande tragédia

Colhendo feijões, em meio às plantações da família, Braz Martendal observava a equipe de reportagem do Cruzeiro do Vale se aproximar do portão de sua casa. Caminhando devagar, vai ao encontro dos jornalistas e, calado, acena. Ainda sem pronunciar qualquer palavra, abre um sorriso tímido e mostra os baldes que leva nos braços. A grande quantidade de feijões colhidos indica algumas horas de dedicação ao cultivo do alimento. Estava cansado, pois fez da lavoura um refúgio para amenizar o turbilhão de sentimentos que essa época do ano carrega.

Na medida em que Braz, ainda tímido, mostrava os grãos de feijão nos baldes, sua esposa Luzia Martendal abria a porta do lar com lágrimas nos olhos. Não eram de tristeza, mas de conforto. Assim que viu a câmera fotográfica, os blocos de anotações e os crachás com a logo do jornal, disse: “O Cruzeiro veio. Eu tinha certeza que o Gilberto Schmitt ia passar aqui”. Ela também sabia muito bem o que levava o veículo de comunicação impressa mais antigo de Gaspar e Ilhota até o bairro Minas, local escolhido para recomeçar a vida após a catástrofe de 2008.

O tema da matéria não traz boas recordações. Mas, apesar do peso do assunto, ele precisa ser lembrado por conta da garra daqueles que não se deixaram abalar e seguem até hoje buscando forças para vencer o luto. Braz e Luzia perderam uma filha e uma neta nos desbarrancamentos do bairro Alto Baú, em Ilhota. A história da família se tornou conhecida pela brutalidade com que tudo aconteceu. “Quando nossa Marinéia faleceu, no auge da sua juventude e em meio a tantas realizações pessoais, como o casamento e a plena saúde da pequena Larissa , foi um baque. O fato da nossa netinha também ter sido vítima dessa fatalidade e ter sido dada como morta, mas continuar desaparecida até hoje, torna tudo ainda mais dolorido”, contam. Luzia diz estar protegida por anjos. “Seja lá onde eu estiver, elas estão sempre comigo. Carrego a foto delas para todo canto. Sei que elas olham por mim e por nossa família. Depois daquele episódio, só a fé em Deus e o amor poderiam nos fortalecer”.

Marinéia faleceu de forma brutal aos 23 anos e a pequena Larissa, aos 11 meses. “Tinham tanta coisa pela frente... Meu sonho era poder tê-las nos almoços em família, perguntar como estão as notas da menina na escola, ver as duas conquistando suas coisinhas. A dor é tão grande, mas tão grande, que parece que a gente fica anestesiado. É difícil acreditar que não tem volta, que não dá mais para salvá-las”, descreve Luzia, enquanto acaricia uma fotografia.

“O bem-te-vi salvou o restante da minha família” 

Além de perder a filha e a neta, Braz e Luzia Martendal também se despediram da sede da empresa, construída com tanto esforço durante uma vida inteira de trabalho e dedicação. “Minha nora estava em casa e ouviu o cantar de um bem-te-vi. Quando olhou para o lado, viu que o som vinha do passarinho que estava pousado na janela. Ao se aproximar, viu, aos poucos, uma avalanche de terra descendo em direção a casa dela e à empresa. Ela conseguiu correr e avisar todo mundo. Só deu tempo de saírem e foi tudo abaixo. Deus mandou aquele passarinho para salvá-los. O bem-te-vi salvou o restante da minha família. Nunca matem um passarinho.”, conta Braz.

A avalanche de terra que caiu do morro destruiu a empresa e a casa de um dos filhos do casal. A residência dos patriarcas da família ficou intacta. Porém, desde a tragédia, Luzia não tem forças para voltar a sua antiga moradia. “Vivo assim, com esse aperto no peito. Amenizo minha tristeza levando flores para o túmulo delas, pois minha filha amava as cores e o cheiro das plantas”, desabafa Luzia, enquanto Braz desvia do assunto e evita demonstrar seus sentimentos. “Demoramos uma vida inteira para chegar aonde estávamos e, num piscar de olhos, perdemos tudo. Mas, eu sei que sou o alicerce da família. Não posso fraquejar. Mesmo estando despedaçado por dentro, ajudei meus filhos e funcionários a reconstruírem suas casas”, lembra Braz.

Mesmo diante de tamanha dor, Braz fez questão de manter sua palavra. “A minha equipe é grande, tenho bastante colaboradores. Assim como eu perdi boa parte das minhas coisas, eles também sofreram perdas irreparáveis. Então, paguei todos eles, normalmente. Se trabalharam, precisam receber. Honestidade sempre vai ser o meu norte. E eles foram muito parceiros, ajudaram a levantar as casas comigo e meus filhos”. O empenho de toda a turma foi válido e a empresa Conservas Martendal segue firme e forte até os dias de hoje. 

 

Edição 1878

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