Acidentes destróem vidas e deixam marcas profundas nas famílias - Jornal Cruzeiro do Vale

Acidentes destróem vidas e deixam marcas profundas nas famílias

26/09/2010

fotopg12abreMD.jpgPor Júlia Schäfer Dourado

?Perdi o meu filho e tudo perdeu o sentido para mim?. A frase é de dona Francisca Romilda de Souza, de 49 anos, que no dia 26 de dezembro do ano passado perdeu o filho, Paulo Roberto de Souza, devido às consequências de um acidente que ele sofreu no dia 3 de setembro de 2008.

O acidente que tirou a vida de Paulo aconteceu em frente à sede da Auto Viação do Vale, bairro Coloninha. Ele pilotava uma moto que foi de encontro a um ônibus. No momento do acidente, ele sofreu um derrame cerebral que danificou metade do cérebro. A mãe lembra com detalhes os momentos do último dia de vida do filho, que após o acidente passou cerca de dois meses no hospital, sendo um mês inteiro na UTI.

Após o período que ficou no hospital, Paulo voltou para casa, ficando sob os cuidados da mãe e voltando apenas para consultas. No dia 8 de dezembro do ano passado, ele sofreu mais um derrame, desta vez menor. ?Os médicos nunca me deram esperança, mas eu sempre acreditava que ele fosse ficar melhor. Foi triste cuidar do meu filho, mas cuidei dele com o maior amor, o pior mesmo foi perder ele?. Com lágrimas nos olhos, ela conta que no natal daquele ano, seu filho estava inquieto, chorava, parecia que ele queria se comunicar, falar algo para sua mãe, mas não conseguia.Francisca diz que sempre pedia para que seu filho fosse cuidadoso, mas ele apenas respondia que era piloto e sabia o que fazia. ?Esta é uma solidão que não tem volta. Hoje estou doente por causa de tudo o que passei e lutei, mas preferia meu filho vivo do jeito que estava, acamado, sem poder andar e conversar?.


Conscientização

A história de Francisca não é um caso isolado no município. Várias mortes ocorreram neste ano tanto no perímetro urbano quanto nas rodovias que cortam a cidade. A morte nem sempre é o que vem em decorrência de um acidente. Muitas vezes a vítima passa a ter alguma deficiência física ou outro tipo de sequela, tendo que mudar o seu estilo de vida, adaptar sua casa, local de trabalho e aprender um jeito completamente novo de viver.

Como uma forma de conscientizar o motorista para a importância de dirigir com responsabilidade e cuidado, a Diretoria de Trânsito realiza diversas campanhas ao longo do ano. Entre os dias 18 e 25 de setembro acontece a Semana Nacional do Trânsito, na qual todas as diretorias e departamentos de trânsito do país participam fazendo campanha para um tema específico. O tema deste ano é o uso do cinto de segurança e da cadeirinha, cujo uso correto é eficiente e contribui na diminuição de vítimas fatais e lesões em acidentes.

O trabalho é realizado em conformidade com o Programa de Redução de Morbimortalidade por Acidente de Trânsito, em que Ditran e Secretaria de Saúde desenvolvem ações para ações que visam reduzir o número de acidentes.

Praças, escolas municipais e estaduais e outras vias abertas de circulação pública serão palco da campanha, que envolve palestras e comandos educativos, em parceria com Polícia Militar Polícia Militar Rodoviária que tem como objetivo levar informação ao maior público possível.


Acidentes em números

SC 411 em 2009/2010
No ano passado houve, apenas na área de Gaspar, 40 acidentes com vítimas, 26 sem vítimas, duas vítimas fatais e 56 feridos em um total de 66 acidentes na SC-411. Os números deste ano são ainda maiores. Até o dia 21 de agosto ocorreram 75 acidentes, que feriram 55 pessoas, e fizeram duas vítimas fatais, sendo que desta totalidade, 39 acidentes tiveram vítimas e 36 foram sem vítimas.


SC 470 em 2009/2010
Ocorreram, em todo o ano de 2009, 367 acidentes no perímetro da SC 470 que abrange Gaspar. Destes, 164 tiveram vítimas e 203 não as tiveram. Foram a óbito, 10 pessoas envolvidas nos acidentes e 219 ficaram feridas. No ano de 2010, até o dia 21 de agosto, foram 117 acidentes com vítimas, 132 sem vítimas, 4 mortes e 167 feridos em 249 acidentes.


BR-470
Até o dia 31 de agosto de 2010, o trecho da BR 470 que passa pelo município foi o palco de 5 mortes, e 137 acidentes, que fizeram 107 vítimas, sendo 76 delas com ferimentos leves e 31 com ferimentos graves.


Atendimentos feitos pelo Corpo de Bombeiros Militar de Gaspar

Até o final de julho deste ano, o número de atendimentos chegava próximo a 450, cerca de 100 a mais do que no ano passado. De acordo com Jair Roberto de Souza, bombeiro, os trechos com mais acidentes foram a Avenida Francisco Mastela, a trecho de acesso à rua Águas Negras e a Rodovia Ivo Silveira.


Para diretor, falta de atenção dos condutores é a principal responsável pelos acidentes ocorridos nas ruas e rodovias

A preocupação com o trânsito está no cotidiano das pessoas. Congestionamentos, acidentes, tudo isso já faz parte da vida contemporânea. O departamento responsável por cuidar das condições das estradas e por persuadir e fiscalizar os motoristas a dirigir dentro das leis é o Ditran, que faz seu trabalho através de campanhas, trabalhando com diversos assuntos relacionados ao trânsito. Em entrevista ao Cruzeiro do Vale, Emerson Andrade, diretor do Ditran, fala um pouco sobre o trabalho do departamento, acidentes de trânsito e as ações feitas para evitá-los.

Cruzeiro do Vale: O número de acidentes que ocorre em Gaspar é causado por estradas em más condições ou pela imprudência dos motoristas?
Emerson Andrade: De acordo com estatísticas feitas a nível nacional, apenas 10% do acidentes são causados por problemas no veículo ou na estrada, os outros 90% acontecem por falha humana. A maior parte dos acidentes que ocorre em Gaspar é devido à imprudência dos motoristas, porém as más condições das estradas também são um fator que influencia.

CV: Grande parte destes acidentes acontece em trevos de acesso, como na entrada da rua Águas Negras, no bairro Figueira, e no acesso à BR470. O senhor acredita que construindo um novo acesso com um modelo de trevo diferente ou rotatória, o problema diminuiria ou a maior parcela de culpa está na falta de atenção e imprudência dos motoristas?
Andrade: Acredito que o triângulo do trânsito se resume em engenharia, educação e fiscalização. Cabe à fiscalização corrigir o comportamento, porém todos os três tem papel importante no trânsito, pois só fiscalizar não acaba com problemas de trânsito. No caso da BR470, poderia haver investimento em engenharia, uma grande rótula ou em um elevado, mas é um trevo em que o motorista consegue ter visão ampla na hora de entrar na rodovia. Se ele não ficasse tão pressionado a entrar rápido no trânsito, muitos acidentes poderiam ser evitados.

CV: De que forma a conscientização da responsabilidade do motorista na direção é executada?
Andrade: A meus olhos, a obrigatoriedade da renovação da carteira de habilitação para quem fez este documento antes de 1997 é de grande valia. Muitos estão sem todas as informações necessárias, pois naquela época era mais fácil retirar habilitação. É preciso fazer um curso nas autoescolas, que estão fazendo um bom trabalho, ou uma prova do Detran.

CV: Que ações podem ser feitas pelo Ditran para tentar diminuir os índices de acidentes de trânsito?
Andrade: Logo após a Semana Nacional do Trânsito pretendemos iniciar uma campanha voltada aos motociclistas, pois dos 513 acidentes que ocorreram neste ano em perímetro urbano, 218 envolviam motocicletas e fizeram 255 vítimas. Formamos agora em um programa de redução de acidentes um grupo de 96 agentes de saúde que são capacitados para serem multiplicadores de segurança, falando sobre este assunto quando forem visitar as pessoas em casa. A educação no trânsito faz parte das ações, agentes do Ditran vão às escolas para falar sobre a segurança, programa que, dependendo da demanda, pode virar permanente. Também queremos que a campanha sobre o cinto de segurança e a cadeirinha se torne permanente.


Falta de cadeirinha mudou para sempre a história de Vanessa


O ano de 1993 marcou a vida da família de Ovilso Benvenutti, hoje com 45 anos de idade. Ele voltava de uma viagem que tinha feito com sua família, seu irmão dirigia devagar sob chuva forte, quando um caminhão, ao fazer a curva, invadiu a pista em que o carro se encontrava. Sua filha, na época apenas um bebê, não usava o bebê-conforto, pois ainda não havia a obrigatoriedade. Do colo da mãe, que estava no assento do meio do banco traseiro, Vanessa Benvenutti, voou até o painel do veículo na hora da batida. Embora todos do carro tenham sofrido algum tipo de fratura, Vanessa foi a mais prejudicada na hora da batida, teve traumatismo craniano e perdeu parte da massa encefálica.

As consequências daquele dia foram muitas, pois toda a vida quee Ovilso e sua esposa levavam teve de ser adaptada para cuidar da filha. ?O acidente não mudou apenas a vida de minha filha, mas de toda a família. Não podemos sair muito de casa, vivemos em função da Vanessa. Ela não fala, apenas grita, não anda e usa fralda?, conta o pai. Após a batida, a menina chegou até mesmo a perder a voz. A voz ela recuperou, mas as primeiras palavras, que já conseguia falar antes do acidente, jamais foram recuperadas.

Ovilso acredita que se a segurança da criança estivesse garantida, conforme manda de lei que entrou em vigor neste ano, que torna obrigatório o uso da cadeirinha, a história teria sido diferente. ?Com certeza ela não estaria nesta situação se usasse a cadeirinha. Sempre temos a esperança de que ela se recupere, de que ela melhore. O médico acredita que um dia ela possa voltar a andar, mas não sabemos quando?.

Vanessa utiliza cadeira de rodas para se locomover e frequenta a APAE. Ovilso e a família foram à três encontros da Associação Blumenauense de Deficientes Físicos, entidade que atende pessoas portadoras de deficiência física de Blumenau e região, e pretendem continuar indo ao local. ?É gostoso porque aqui a gente se reúne, conversa, faz brincadeiras, é uma terapia?.


Apoio

Para dar apoio às pessoas que possuem algum tipo de deficiência física, causada por acidente ou não, existe a Associação Blumenauense de Deficientes Físicos, Abludef. ?A Abludef é importante na vida dos associados porque faz um resgate do deficiente físico para a sociedade, para o mercado de trabalho, faz com que a pessoa tenha vontade de viver novamente?, afirma a presidente da associação, Maria Helena Mabba.

A entidade conta com 214 membros que ficaram com sequelas após sofrer acidentes de trânsito. O número de pessoas que procuram a associação depois de se tornarem vítimas dos acidentes varia muito de ano para ano. No ano de 2009, 12 pessoas procuraram a entidade, enquanto neste ano, um número igual a buscou até o mês de agosto. Mesmo que o número possa aumentar até o mês de dezembro, Maria Helena destaca que isto não significa que haja sempre aumento em relação de um ano para o outro. Já houve anos em que mais de vinte pessoas foram até a entidade, o que quer dizer que o número cresce e decresce, e não aumenta de forma linear. Estes números envolvem pessoas que ficaram deficientes após sofrer em acidentes de trânsito e que procuram a Abludef, há muitas ainda que sofreram acidentes e ficaram com sequelas, porém não fazem parte da associação.

?A partir do momento da deficiência, muitas pessoas passam a não querer mais sair de casa, trabalhar e ficam com vergonha da situação em que estão e alguns chegam até mesmo a tentar suicídio. Nosso trabalho é inserir o deficiente em tudo o que acontece na sociedade. Os principais pontos que trabalhamos são a autoestima do deficiente e a integração?, comenta Maria Helena.


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