Chuvas assustam catarinenses e geram alerta para o caos no clima - Jornal Cruzeiro do Vale

Chuvas assustam catarinenses e geram alerta para o caos no clima

22/05/2010

 

p3260180MD.jpgFalar sobre o clima é algo completamente comum em qualquer lugar. Tanto que sempre que se fala com alguém desconhecido, um dos primeiros assuntos é o tempo. A diferença é que em Santa Catarina, a preocupação não é mais com a roupa do varal que irá molhar ou o guarda-chuva que foi esquecido em casa, mas sim com não conseguir chegar em casa ou sair do local devido aos constantes alagamentos ou deslizamentos de terra.  A população está sempre alerta para as chuvas, uma vez que a tragédia de 2008 não foi e nem será esquecida.


Ruas que alagam fazem com que a lembrança desta data retorne à mente dos habitantes do Vale do Itajaí. Deslizamentos, por sua vez, os fazem lembrar de casas que foram destruídas e pessoas que morreram soterradas. O problema é que não são apenas estas pessoas que estão sendo atingidas pelas contínuas chuvas fortes que se precipitam no estado. Santa Catarina está, definitivamente, sendo relacionada automaticamente com as chuvas, uma vez que um grande número de municípios de diferentes regiões do estado está sendo atingido por elas.

 

A chuva em fatos e números


Em apenas 30 dias, o Departamento Estadual de Defesa Civil (DEDC) registrou 101 municípios com decretos de Situação de Emergência, sendo que 73 deles foram no mês de abril e 29 em maio, até esta terça-feira, 18. Em Santa Catarina, maio é sempre um mês marcado por chuvas, porém neste ano, abril foi igualmente castigado pelas precipitações. Somente em maio, 42 cidades foram atingidas, 3745 pessoas desalojadas 415 desabrigadas. Destas 42 cidades, 28 decretaram situação de emergência.

A chuva da última terça-feira registrou estragos na Grande Florianópolis, com deslizamento de terra no Morro do 25 e na José Mendes, além de ter árvores arrancadas e muros derrubados pelos ventos que acompanharam a chuva. A capital sofreu devido a grande quantidade de chuva, a segunda maior de sua história: 257 milímetros. Em Palhoça 100 mil pessoas foram afetadas, 500 precisaram deixar seus lares e passar a noite em alojamentos públicos, uma casa foi destruída por um deslizamento de terra, outra parcialmente atingida e 15 interditadas.
A situação do Vale do Itajaí e litoral não estava muito melhor do que a da capital. Em Itapema, a cidade mais atingida desta região, a água invadiu as casas, mais de mil pessoas tiveram de sair de suas casas e buscar ajuda em abrigos e casas de familiares e amigos. Itajaí teve oito casas interditadas e 1,2 mil pessoas afetadas. Na cidade de Balneário Camboriú vários pontos ficaram alagados, no bairro da Barra uma árvore caiu deixando ruas sem energia, e no bairro Nações água e lama desceram das encostas, invadindo duas casas. Ainda neste município, houve queda de barreira na em uma das 3 pistas do Km 141 da BR-101, que logo foi liberada. Deslizamentos ocorreram também em Brusque, nos bairros 1º de Maio, Águas Claras e São Pedro, além da interdição de uma casa e a outra ter a cozinha destruída pela lama. Foram atingidas por quedas de barreiras 60 casas em Camboriú, 100 famílias ficaram desalojadas e tiveram que se abrigar num ginásio, sendo liberadas aos poucos pela Defesa Civil.


O funcionamento do Porto de Itajaí e do Aeroporto de Navegantes foram influenciadas pelas chuvas. O porto trabalhou com restrições, apenas com a saída de navios, devido à forte correnteza. Já o aeroporto teve as operações afetadas na noite de terça-feira, mas n o outro dia voltou a funcionar normalmente. De acordo com o boletim do Ciram/Epagri, os totais de chuva deste mês de maio já estão acima da média climatológica na maior parte das regiões catarinenses, o que acabou por causar todos estes estragos e transtornos.

 

Fenômeno é alteração na temperatura

O El Niño é uma alteração na distribuição da temperatura da superfície da água do Oceano Pacífico. Ele causa grandes efeitos no clima de diversas regiões do mundo.  Durante os anos em que exite a ocorrência deste fenômeno, os ventos sopram com menos força em todo o centro deste oceano, o que resulta a acumulação de água mais quente que o normal na costa oeste da América do Sul. As massas de ar quentes e úmidas acompanham a água mais quente, provocando chuvas excepcionais na costa oeste da América do Sul e secas na Idonésia e Austrália. No Brasil, mais precisamente na região Sul, acontece o aumento da temperatura média e também das precipitações.


Especialista fala sobre mudanças climáticas provocadas pelo El Niño

Em busca de respostas para a grande quantidade de precipitações no estado, a equipe do Cruzeiro do Vale procurou um especialista para falar sobre o assunto. Marcelo Martins trabalha na área de previsão do tempo da EPAGRI, Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina, e esclareceu diversos pontos sobre o assunto.

Cruzeiro do Vale: Desde a catástrofe de 2008, a população passou a observar muito mais o nível de chuvas e todos perceberam que há um grande aumento. Por que este aumento aconteceu?
Marcelo Martins: Todos os eventos recentes ocorreram em anos de manifestação do fenômeno El Niño. Ele tem três níveis: fraco, moderado e intenso. No ano de 2008, quando aconteceu a tragédia, o El Niño estava se manifestando no nível intenso, por isto os danos causados foram tão grandes. Ele é um dos principais fatores para as precipitações que neste ano o fenômeno ocorre de forma moderada. Ele ocorre esporadicamente e é possível prevê-lo. Espera-se ele acabe no segundo semestre deste ano.

CV: A localização geográfica de qualquer lugar é diretamente ligada ao clima, e, neste caso, às chuvas? Que outros fatores influenciam no aumento das chuvas?
Marcelo: O clima de Santa Catarina é do tipo temperado e recebe influência das massas de ar quente e úmido vindas do norte do país e de ar frio e seco polar. Estas massas estão sempre se chocando e neste choque criam temporais. Outro fator é a orografia, as nuances do relevo, ou seja, as cadeias de montanhas e serras. Quando as massas de ar que vem do oceano encontram as encostas elas causam precipitação, isto acontece no litoral e nos vales.

CV: Qual é o papel desempenhado pela EPAGRI quando há riscos de fortes chuvas como estas?
Marcelo: É de monitoramento. Temos material humano com muita experiência para casos extremos como os que estão ocorrendo. Possuímos uma rede integrada de monitoramento, que conta com bons equipamentos. É possível prever todos estes eventos extremos com antecipação e repassar alertas para Bombeiros, Defesa Civil e imprensa.

CV: Com que órgãos há uma parceria para que, caso a previsão seja de muita chuva, fique-se em alerta para desastres que podem acontecer?
Marcelo: Além dos já citados, temos parceria com os outros institutos do estado e o INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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