
Se tudo correr dentro do prazo estipulado, na próxima segunda-feira, dia 6 de agosto, os corredores da Casa Lar Sementes do Amanhã serão tomados pelas seis crianças que tem o local como lar. Isso porque o Prefeito de Gaspar, Kleber Wan-Dall, acaba de anunciar que a ONG Ação Social e Cidadã vai assumir a administração da casa e cuidar do bem estar desses menores, que foram retirados do âmbito familiar.
O próximo passo é, agora, cuidar das questões legais que envolvem todo o processo de transição para que a nova ONG assuma a responsabilidade pela Casa Lar. “A Ação Social e Cidadã administra outros dois abrigos em Gaspar e tem muita credibilidade e experiência na área. Tivemos algumas conversas no decorrer dos últimos dias e agora partimos para a fase de transição. Precisamos respeitar os prazos trabalhistas que envolvem a saída da outra ONG para, então, a nova assumir a Casa Lar”, explica o prefeito.
Teresinha Lanznaster Spengler é a responsável pelo Lar das Meninas e também será a coordenadora da Casa Lar. Ela garante que a Ação Social e Cidadã tem experiência em administração de abrigos e conta que, antes de assumir o lar das crianças, a ONG realizou alguns encontros com representantes da prefeitura para debater assuntos importantes. “No dia em que buscamos as crianças [para realocá-las em outros lares], algumas estavam aos prantos, sem saber o que ia acontecer. Vimos também como elas são apegadas aos profissionais que estão com elas no dia a dia. Então, um dos principais pontos firmados entre nós e a prefeitura foi que mantivéssemos os bons profissionais na casa. Eles serão demitidos de uma ONG e contratados por outra por questões trabalhistas, mas vão continuar cuidando das crianças. Das 14 pessoas que vão trabalhar na casa, apenas três são novas. Nossa intenção é fazer com que as crianças se sintam seguras e amparadas”.
Sob a administração de outra ONG, a estrutura organizacional da Casa Lar também tende a mudar. “Com certeza faremos algumas mudanças para o bem das crianças. Teremos alterações na gestão e também diminuição de seis funcionários. Durante visitas, percebemos que a Casa Lar recebe muitas doações de roupas, alimentos e brinquedos. Com toda essa estrutura, vamos conseguir fazer um bom trabalho”, garante Teresinha.
A Casa Lar Sementes do Amanhã, localizada no bairro Figueira, em Gaspar, era administrada pelo Grupo de Apoio à Infância e Adolescência Abrigada, o Gaiaa. No dia 6 de junho, a ONG enviou à Prefeitura de Gaspar um oficio informando que deixaria a coordenação do local no dia 25 de julho. O motivo seria as dificuldades financeiras encontradas para gerir o local.
Conforme estipulado no documento, o Gaiaa atendeu as crianças até o dia 25 de julho. Naquele dia, as crianças participaram das últimas atividades programadas pela ONG e, à noite, um novo grupo assumiu o local para cuidar dos menores. No dia 26 de julho pela manhã, as seis crianças abrigadas na Casa Lar foram realocadas para outros abrigos na cidade: o Lar dos Meninos e o Lar das Meninas.
Uma única palavra define os transtornos causados pela desocupação da Casa Lar: dinheiro. Ao Gaiaa, que cuidava da administração do local, deixou a função alegando dificuldades financeiras para gerir o abrigo.
Hoje, a Casa Lar possui capacidade para 20 crianças. Destas vagas, 15 pertencem a Gaspar e cinco a Ilhota. Mesmo não utilizando todas as vagas, os municípios são obrigados a pagar pelas vagas que lhes pertencem. Até o final de 2017, Gaspar repassava, mensalmente, R$3 mil por vaga. O valor foi reajustado e passou para R$3.091,00, totalizando um repasse de R$46.365,00 por mês para manter o abrigo em funcionamento.
De acordo com o prefeito Kleber Wan-Dall, a Ação Social e Cidadã assume a Casa Lar ciente de que o repasse vai se manter o mesmo. “Nossa conversa é de que se mantenha o mesmo valor. Existe a possibilidade de trazermos crianças de outras cidades para ocupar nossa estrutura, que é bastante grande. Mas isso, é claro, vai estar firmado em contrato”.
Criada em Gaspar em junho de 2005, a Ação Social e Cidadã é a responsável por administrar o Lar dos Meninos e o Lar das Meninas. Hoje, a cidade possui 10 meninas e oito meninos morando em abrigos, além da Casa Lar, que abriga seis crianças.
Saber que quase 100% das crianças e jovens abrigados em Gaspar seguem pelo bom caminho ao completar a maioridade deixa Teresinha com a sensação de dever cumprido. “Fazemos parte da história dessas pessoas e a maioria tem o abrigo como referência. Essas são histórias que comprovam que a comunidade e o poder público podem, sim, mudar o destino das pessoas”.
Quando tiradas do seio familiar, as crianças são levadas para a Casa Lar. Lá, meninos e meninas recebem toda a estrutura necessária para seu dia a dia. Ao atingirem determinada idade, essas crianças são divididas em dois lares: o Lar dos Meninos e o Lar das Meninas. Depois, quando completam 18 anos, elas são livres para fazerem suas próprias escolhas.
Cumprindo seu papel social, o Cruzeiro do Vale acompanhou a criação dos três abrigos em Gaspar também já coordenou a construção de seis casas para famílias carentes da cidade. Em 2010, a pedido da então juíza da Vara da Infância e da Juventude de Gaspar, Ana Paula Amaro da Silveira, o jornal ajudou a erguer o lar de Rafael Pereira, que havia acabado de sair do Lar dos Meninos.
Rafael foi criado por seus pais em um ambiente familiar saudável. Com a morte dos dois, porém, ele ficou órfão e sem o apoio que necessitava. Passou por dificuldades e caiu nas mãos de pessoas erradas. Contudo, ele teve força de vontade e procurou, por conta própria, o Conselho Tutelar para pedir ajuda.
Passados quase nove anos desde a entrega do lar para Rafael, o jovem continua morando na casa com a esposa, o filho e o enteado. Ele é um profissional autônomo, trabalha no ramo de elétrica de automóveis, e é feliz por sua história de luta e superação.
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