
Morador do bairro Lagoa, Jhonatan de Oliveira completou 16 anos no ano passado. Mesmo tendo participado dos protestos de junho de 2013 e acompanhado mais de perto temas de interesse da sociedade, preferiu ainda não fazer o título de eleitor. O motivo, ele mesmo admite, é a falta de interesse. ?A gente tem que estar de olho nas eleições, mas não me sinto muito atraído pela ideia de votar?, confessa.
O perfil de Jhonatan não é exceção no eleitorado de Gaspar. Entre 2012 e 2014, o número de eleitores de 16 e 17 anos, quando o voto ainda é facultativo, despencou em Gaspar. O número de eleitores menores de idade passou de 804 (2% do total) há dois anos para apenas 251 (0,6%).
O fenômeno também se repete em Ilhota, onde o número de eleitores de 16 e 17 anos passou de 307 para 51 entre 2012 e 2014. ?No ano que vem faço 18 anos, aí não vou poder adiar, vou ter que fazer meu título?, conta Jhonatan.
Para o mestre em Sociologia Política da Univali, Sérgio Saturnino Januário, o grande fator dessa mudança no eleitorado é a própria alteração demográfica que já ocorreu na Europa e agora se repete no Brasil. Ele argumenta que desde a década de 1970 as mulheres vêm mudando seu padrão de comportamento reprodutivo, diminuindo o número de filhos e retardando a gravidez. Com isso, priorizaram a carreira, o bem-estar e ganharam destaque no mercado de trabalho, mas protagonizaram uma diminuição da população jovem.
?Basta fazer o exercício de comparar quantos filhos sua avó teve e com que idade teve o primeiro filho e quantos os jovens de hoje planejam ter, e com que idade. Chamamos esse fenômeno de crescimento demográfico negativo, quando um casal deixa menos de duas pessoas no mundo. Estamos no momento exato de inflexão, com um déficit na quantidade de jovens, que se reflete nos números do eleitorado?, explica.
A mesma relação, segundo ele, explica o fato de a sociedade ter pessoas mais idosas, algo que também é notado nos números de eleitores gasparenses. Em 2012, eram 2.358 eleitores com mais de 70 anos (5,8% do total), enquanto em 2014 são 2.632 (6,2%). Questionado se a queda nesta fatia do eleitorado mostra um desânimo dos jovens com a política, o professor afirma que a descrença e o desinteresse do público jovem sempre fizeram parte do quadro político brasileiro. ?Esse cenário pode ter se acentuado, as manifestações das ruas no ano passado podem ter contribuído, mas essa desilusão dos jovens é parte da nossa cultura política?, pontua.
Dados divulgados na última semana pelo Tribunal Superior Eleitoral, TSE, mostram que o total de eleitores entre 16 e 17 anos sofreu redução de mais de 30% em relação ao eleitorado de 2010, últimas eleições gerais do Brasil. Em 2010, havia 2,39 milhões de eleitores dessa faixa etária. Em 2014, são 1,63 milhão. Em 2010, o número de eleitores jovens que optaram por tirar o título já havia caído em relação a 2006.
Gaspar, 2014
Faixa etária Eleitores % do total
16 anos 61 0,146
17 anos 190 0,456
18 a 20 anos 2.489 5,969
21 a 24 anos 3.832 9,190
25 a 34 anos 9.451 22,666
35 a 44 anos 8.181 19,620
45 a 59 anos 11.177 26,805
60 a 69 anos 3.684 8,835
70 a 79 anos 1.621 3,888
Sup. a 79 anos 1.011 2,425
Gaspar, 2012
Faixa etária Eleitores % do total
16 anos 352 0,873
17 anos 452 1,121
18 a 20 anos 2.529 6,270
21 a 24 anos 3.872 9,600
25 a 34 anos 9.116 22,602
35 a 44 anos 7.910 19,612
45 a 59 anos 10.517 26,076
60 a 69 anos 3.226 7,999
70 a 79 anos 1.450 3,595
Sup. a 79 anos 908 2,251
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, TSE
Edição 1611
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