Deslizamento faz sete vítimas da mesma família no Braço do Baú na catástrofe de 2008 - Jornal Cruzeiro do Vale

Deslizamento faz sete vítimas da mesma família no Braço do Baú na catástrofe de 2008

23/11/2018

O relógio marcou meia noite e deu início ao dia 24 de novembro. A madrugada seguia o ritmo das anteriores, com a chuva forte indicando novos transtornos. Na região do Braço do Baú, em Ilhota, muitos desbarrancamentos já haviam sido registrados. Alguns chegaram a levar residências e deixar pessoas feridas. Sabendo também das enxurradas, o coração de cada morador daquele bairro carregava a sensação de que o fim de 2008 não seria positivo.

A comprovação de que a tragédia estava só começando veio rápido. A casa de José Altino Richartz foi atingida em cheio por um deslizamento de terra. Na época, ele cedeu uma reportagem ao Jornal Cruzeiro do Vale e falou com detalhes sobre a pior experiência de sua vida. “Era domingo à noite. Não tinha energia elétrica e, antes de ir me deitar, passei algumas horas observando o nível do rio. Nos primeiros minutos da segunda-feira, começou o terror”.

Um forte estouro, seguido de um grito, foi ouvido pelo ilhotense. O gemido era de sua esposa, Augusta da Rocha Richartz, que proferia seu último som após perder a vida ao ter seu lar completamente soterrado. De longe, José Altino escutava outros berros. Com a ajuda da lanterna de um celular, saiu a procura da pessoa que emitia os ruídos. “Cheguei perto da voz e perguntei: quem é que pede socorro?”. Quem respondeu foi a filha, Giane.

Trancada da cintura para baixo, a moça de 27 anos respondeu, já sem forças. Presenciar a cena deixou o pai atordoado. “Fui pedir ajuda ao meu irmão, que morava ao lado. Na rua, eu não conseguia avistar mais sua residência, nem a de meu sobrinho. Então, me dei conta de que a lama tinha levado tudo”, relembra. Vizinhos que conseguiram sobreviver prestaram auxilio ao homem desesperado.

Porém, os momentos de terror estavam longe de ter um fim. Os morros que restaram em pé, em volta da localidade atingida, começaram a tremer novamente. Com medo, os moradores decidiram sair de lá. Mas José Altino não abandonou Giane. Eles passaram a madrugada juntos, na escuridão e embaixo de chuva. “Nos sobrou o amor de pai e filha. Fora isso, tínhamos apenas uma jarra de água limpa e uma vela”.

Com o passar do tempo, a dor da filha foi aumentando e tornando a situação ainda mais triste. “No começo, ela falava pra eu virar um pouco as costas dela, para aliviar dor. Depois, passou a implorar que eu cortasse as pernas dela. Até que, já entregue, pediu que eu a matasse e acabasse com aquele sofrimento”.

Ao amanhecer, os vizinhos retornaram e, finalmente, depois de dez horas, foi possível retirar a jovem dos escombros. “Não tinha sinal de celular. Fomos para todos os cantos do Baú tentando conseguir fazer ligações. Muitas tentativas se foram para que conseguíssemos acionar um helicóptero. Mas ela começou a ficar roxa, gelada, e virou os olhinhos. A Giane aguentou até às 14h30. O socorro chegou duas horas depois”, disse José Altino, em 2008, ao Cruzeiro do Vale.

A angústia da perda da esposa e filha, o patriarca da família carrega até hoje. Quem compartilha do mesmo sentimento de luto é Tatiana Richartz Reichert, irmã de Giane e também filha de José Altino e Augusta. Ela, que não morava com os pais e não teve a sua casa afetada, lutou bravamente para conseguir recomeçar. “Perdi a área plantada, a colheita dos meses seguintes e parte do galpão de armazenamento. Junto com a tragédia se foi o meu sustento”, revela.

Apesar disso, o que realmente marca a mulher é a saudade de parte da família que se foi. “Junto com a minha mãe e irmã, se foram tantos outros... se foram histórias, vidas, sonhos, futuro. Tudo acabou em um estalar de dedos. Tentei transformar meu luto em luta”, diz Tatiana, completando que seu pai foi um herói. “Foi firme e forte, mesmo com a dor de corpo e alma”.

Para Tatiana, a tragédia se tornou uma lição de vida. “Bens materiais você conquista de novo. Mas, a alma... essa fica com cicatrizes profundas. Daquelas que doem muito, independentemente do tempo que passar”.

 

Edição 1878

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