Informar, elucidar conceitos e investir em pesquisas. Na terça-feira, 12 de junho, foi dia de celebrar o Dia Nacional de Conscientização da Cardiopatia Congênita. A data, instituída para reforçar a importância do diagnóstico precoce e correto do problema cardíaco, também tem como objetivo aumentar o acesso à saúde. Além disso, serve como uma maneira de homenagear pessoas que enfrentam a doença, seus familiares e profissionais que ajudam nessa batalha.
Isadora da Costa Vergutz, de um ano e quatro meses, expressa no rosto o sorriso de uma criança que ainda não entende a dimensão daquilo que carrega dentro do peito. Ela é tão especial, que leva consigo algo que vai além de muito amor: a vontade de viver! Portadora de Cardiopatia Congênita, a pequena gasparense enfrenta uma luta de gente grande e passa pelos obstáculos com o apoio da mãe, Ana Paula da Costa; e do pai, Odirlei Vergutz.
Carinhosamente chamada de Isa, a menina veio ao mundo como um presente enviado por Deus. Uma verdadeira dádiva, conforme afirma a família. “É imensurável o sentimento que temos por ela. É nossa princesa. Mudou a nossa vida com seu jeito tão meigo, sua luz e garra. A gente nasceu de novo, junto com ela. Em pouco tempo, aprendemos lições que vamos levar pro resto da vida”, resume a mãe, emocionada.
Ana Paula conta que descobriu que estava grávida aos seis meses de gestação. “Tenho lúpus, o que altera meu ciclo menstrual. A gravidez não foi algo que eu planejei. Mas estava nos planos de Deus e eu sou completamente grata pela oportunidade de ter a Isa”. Desde o nascimento da pequena, a família se dedica a dar o melhor para a criança, que chegou para alegrar a todos. Entre os valores ensinados dentro de casa estão o respeito, a humildade e a empatia.
Descobrindo a doença
A doença de Isa foi descoberta quando ela tinha aproximadamente seis meses. “Nós começamos a ouvir um chiado no peito dela. Assim que percebemos, levamos ela ao postinho. Infelizmente, ignoravam o que a gente dizia. Recebemos o diagnóstico apenas quando ela completou um ano e um mês, depois de muita luta”, destaca o pai Odirlei.
A esposa completa a fala do marido. “Foi um choque muito grande. Nunca imaginei que teríamos um caso assim dentro da nossa família. A gente nem conhecia esse problema cardíaco. Agora, estamos tendo outra visão de mundo. Olhando para o próximo com mais carinho e cuidado”.
Após a descoberta da doença, tudo mudou. A procura por um médico especialista, que atendesse o caso com a devida atenção, passou a prioridade dos pais. Em Gaspar, a família não encontrou o profissional que tanto procurava. Por conta disso, expandiu a busca para outras cidades. Foi em Joinville que Isadora começou seu tratamento. “Graças a Deus, o doutor Luciano Pereira Bender e sua equipe estão sendo anjos na vida da nossa filha. É perceptível que amam o que fazem e querem salvar a pequena”.
De acordo com o médico cardiologista Luciano Pereira Bender, a menina é portadora de Comunicação Interatrial, uma Cardiopatia Congênita caracterizada por apresentar um problema no septo que separa as duas cavidades do coração. “Este defeito cardíaco não produz sintomas logo ao nascimento, sendo normalmente diagnosticado tardiamente”, explica.
Ele diz que a doença tem variabilidade importante de sintomas, relacionada ao tamanho do defeito. “Crianças com comunicações interatrial pequenas podem ser assintomáticas e não necessitar de tratamento, por apresentar resolução espontânea do defeito”. Por outro lado, crianças com defeitos maiores, principalmente acima de 8 milímetros de diâmetro, apresentam mais cansaço aos esforços, toleram pouca atividade física e têm probabilidade bastante aumentada de necessidade de correção cirúrgica ou percutânea.
Em maio, Isadora foi submetida a uma cirurgia. “Foi realizada a sutura de tecido no orifício que existe entre as câmaras, determinando a separação das cavidades. Estes casos devem permanecer em acompanhamento por toda a vida com cardiologista assistente, avaliando a função e ritmos cardíacos em intervalos regulares”.
Feliz com o resultado positivo da cirurgia, a mãe da criança, Ana Paula da Costa relembra os momentos que passou junto ao marido na sala de espera. “Quando os médicos entraram no quarto, dizendo que eu teria que preparar a Isa pra cirurgia, meu mundo caiu. Eu e meu marido desabamos em choro. Nós, que somos os pais, ficamos completamente sem chão. O medo foi grande, mas a fé em Deus era maior ainda”.
Odirlei, pai de Isadora, também fala sobre o momento. “Foram horas de agonia. Momentos de súplica. Demorou pra cair a ficha. É obra de Deus ela estar conosco hoje, Ele guiou as mãos dos profissionais que operaram minha filha. Ela saiu do centro cirúrgico sem tubos no corpo. Pediu até o bico”. Agora, a menina precisa continuar o tratamento, com retornos ao consultório a cada 30 dias.
A luta de Isadora continua. Desde o banho, até a organização dos medicamentos, precisa de atenção redobrada. A coração da menina tem entre 6 meses e um ano para voltar ao tamanho normal. Nesse período, serão repetidos os exames de raio-x, ecocardiograma e eletrocardiograma mensalmente.
“Eu sempre presei muito pela saúde dela. Às vezes, quando não estou junto com a Isadora, mando mensagens perguntando como ela está. Quando está com uma gripezinha, já fico preocupada. Pois, sei tudo o que ela passa e já passou”. A frase, que resume a vida de madrinha, é de Patrícia Castanha, a escolhida pela família para a missão de ser a segunda mãe da criança.
Patrícia é muito apegada à Isadora e acompanha os passos da pequena. “Quando ela estava no hospital, eu sofri demais aqui. Quando a Ana Paula dizia que ela estava fazendo exames, sendo furada, e principalmente, quando entrou para a cirurgia, eu me desesperava. Mas, graças a Deus, nossa princesa está aí dando a volta por cima”.
A madrinha diz que o compadre Odirlei e comadre Ana Paula cuidam muito bem de sua afilhada. “Sempre me colocam a par da saúde da Isa. Quando me ligaram para falar da cirurgia, corri para a casa deles e nos abraçamos. Choramos juntos. Falar disso me deixa muito emocionada. Só quem carrega um amor tão grande por alguém, sabe o que é passar por esse tipo de situação”, conclui.
Incentivada a procurar sempre mais informações sobre a Cardiopatia Congênita, Ana Paula deseja criar um grupo de mães de crianças com o mesmo problema de Isadora. “Trocar ideias, contar nossas trajetórias, falar sobre os tratamentos e saber sobre os avanços da medicina nessa área. Acho que seria muito importante essa interação com outras famílias que sabem exatamente o que a minha passou”, enfatiza.
É definido como cardiopatias congênitas o grupo de doenças do coração presentes já ao nascimento da criança. Estes defeitos cardíacos apresentam grande variabilidade em sua apresentação, podendo se manifestar tanto como problemas únicos, acometendo, por exemplo, os septos cardíacos; quanto podem compor um grupo de problemas variados, com comprometimentos anatômicos e funcionais de câmaras, valvas e vasos em apenas um único caso.
Devido a uma série de adaptações da transição da circulação fetal para a circulação após o nascimento, algumas doenças cardíacas manifestaram sintomas apenas mais tarde, como cansaço desproporcional aos esforços em adolescente ou adulto. Deste modo, embora por definição a doença cardíaca já esteja presente ao nascimento, nem sempre o diagnóstico destas doenças ocorrem no período pós natal.
O médico Luciano Pereira Bender esclarece que, entre as má formações que podem acometer uma criança, as cardiopatias compõem o grupo mais comum. “Estima-se, no Brasil, que aproximadamente 9 a cada 1000 nascidos vivos apresentem alguma doença cardíaca, diagnosticada em períodos pré-natal, neonatal ou mais tardiamente”.
Copyright Jornal Cruzeiro do Vale. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Cruzeiro do Vale (contato@cruzeirodovale.com.br).