O dia 1° de janeiro de 2007 ficará guardado para sempre na memória da família de Antônio Schafer Filho. Depois de festejar a passagem de mais um ano, o empresário gasparense teve um mau súbito, precisou ser hospitalizado e descobriu que estava com alto índice de açúcar no sangue.
?Nos estávamos na praia e precisei ir para a clínica mais próxima. Ao chegar no local os médicos já detectaram a hiperglicemia e fizeram o teste em um aparelho que mede até 700mg. Meu nível de açúcar estava tão alto que o aparelho nem conseguiu medir. Recebi doses de insulina a cada hora e fui trazido para Gaspar de ambulância. Quando cheguei na cidade o nível já estava em 500mg. Mas foi um grande susto?, relembra o empresário de 55 anos. A Sociedade Brasileira de Diabetes considera que valores acima de 126 mg, em jejum, são suspeitos de diabetes.
O incidente mudou para sempre a vida de Antônio e de seus familiares, que há três anos convivem com os cuidados diários exigidos para os pacientes com diabetes.
Conforme explica o clínico geral Fabiano Nunes, o diabetes é um grupo de doenças metabólicas, caracterizadas por hiperglicemia gerada em decorrência de defeitos na secreção e/ou ação da insulina, que é um hormônio produzido pelo pâncreas, órgão responsável pelo controle da glicemia no corpo humano.
Os tipos mais frequentes de diabetes são o tipo I, que compreende cerca de 10% dos casos, e o diabetes tipo II, responsável por cerca de 90 % do casos; além do diabetes gestacional, detectado no rastreamento pré-natal.
O diabetes detectado em Antônio é do tipo II e pode ser tratado com medicação ou aplicação de insulina. Antônio escolheu a medicação, e todos os dias precisa ingerir dois comprimidos para garantir a produção da insulina em seu organismo e assim controlar o nível de açúcar no sangue. ?Minha vida mudou muito, principalmente meus hábitos alimentares. Desde que descobri a doença já perdi 30 quilos. Mas acho que apesar dos cuidados, consigo viver uma vida normal?, relata o empresário.
? Sede excessiva
? Aumento do volume da urina
? Surgimento do hábito de urinar à noite
? Fadiga, fraqueza, tonturas
? Visão borrada
? Aumento de apetite
? Perda de peso
? Dificuldade na cicatrização de feridas
? Formigamento, dormências e dores nas mãos, pernas e pés.
Estes sintomas tendem a se agravar progressivamente e podem levar a complicações severas que são a cetoacidose diabética, no diabetes tipo I, e o coma hiperosmolar, no diabetes tipo II.
Os sintomas das complicações envolvem queixas visuais, cardíacas, circulatórias, digestivas, renais, urinárias, neurológicas, dermatológicas e ortopédicas, entre outras.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde revelam que 4,6 milhões de brasileiros tinham a doença no ano 2000, data em que foram realizadas as últimas pesquisas, e a previsão é de que até 2030 este número salte para 11,3 milhões. De acordo com o Vigitel 2007, Sistema de Monitoramento de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas Não Transmissíveis, a ocorrência média de diabetes na população brasileira adulta é de 5,2%, o que representa 6.399.187 de pessoas que confirmaram ser portadoras da doença. A prevalência aumenta com a idade: o diabetes atinge 18, 6% da população com idade superior a 65 anos.
Em todo o mundo, o número de diabéticos deve subir de 176,5 milhões em 2000, para 370 milhões em 2030. ?Pelo menos um quarto dos pacientes não sabem que são diabéticos, e sem tratamento, evoluirão inexoravelmente para complicações graves e irreversíveis da doença. Por isso é muito importante falar sobre o diabetes e orientar a população sobre seus sintomas?, aponta o médico Fabiano Nunes.
Mesmo sabendo que a mãe era diabética, Alcioneide Machado nunca se preocupou em mudar seus hábitos alimentares para evitar o aparecimento da doença. Hoje, aos 41 anos, a auxiliar de limpeza precisa de cuidados diários para manter o nível de açúcar no sangue e recorre à rede pública de saúde para obter os medicamentos necessários para controlar a doença.
Neide, como é chamada pelos amigos, conta que demorou para diagnosticar o diabetes. ?Eu tinha muita sede, e acordava muitas vezes à noite para ir ao banheiro. Além disso, queria emagrecer e tinha muita dificuldade. Apesar dos sintomas, nunca imaginei que tinha o diabetes?, revela a moradora do bairro Figueira.
Rede pública
Assim como Neide, outros 1007 moradores de Gaspar tratam o diabetes através da rede pública de saúde, que oferece consultas médicas, exames laboratoriais, distribuição de medicamentos, insulinas, e aparelhos de glicemia capilar e seus insumos para pacientes que necessitam fazer o controle de glicemia várias vezes ao dia.
Todo o tratamento é gratuito e pode ser encontrado nas unidades de saúde do município, que possuem equipe técnica capacitada para a intervenção médica, equipe de enfermagem e equipe de Agentes Comunitários de Saúde, que fazem trabalhos de orientação e coleta de dados.
Além disso, o município também promove grupos de apoio aos diabéticos. Segundo a coordenadora das unidades de saúde, enfermeira Elisangela Urbano, as reuniões acontecem mensalmente. ?Agendamos uma data para os pacientes virem buscar a medicação. Neste dia pesamos o paciente, verificamos a pressão arterial, e medimos a circunferência abdominal e altura. Os dados são repassados para o programa Hiperdia, do Ministério da Saúde. Também oferecemos palestras sobre os cuidados necessários para manter uma vida saudável, com dicas para evitar que familiares dos pacientes também desenvolvam o diabetes?, explica a enfermeira.
? Diabetes tipo I
Pode ocorrer de forma rapidamente progressiva, principalmente em crianças e adolescentes, com pico de incidência entre 10 e 14 anos; com lesão auto-imune das ilhotas pancreáticas levando a uma deficiência de insulina.
Principais sintomas: o paciente urina muito, tem muita sede, emagrece muito rápido e de forma inexplicável, o paciente acorda para urinar a noite várias vezes, desidratação, fraqueza, aumento do apetite, tonturas, náuseas e vômitos, câimbras musculares, turvação visual e dor abdominal.
? Diabetes tipo II
Ocorre de forma lentamente progressiva, geralmente em adultos após os 40 anos. Na maioria dos casos cursa com hiperglicemia assintomática ou com poucos sintomas inespecíficos, como dificuldade de cicatrização de feridas, disfunção erétil, vulvovaginites, obesidade, visão turva ou piora da visão, neuropatia periférica ? que é uma disfunção que pode levar desde a perda da sensação de toque até a sensibilidade excessiva, ou prurido generalizado - formigamento peculiar ou irritação incômoda da pele que provoca o desejo de coçar a parte afetada. Piora aguda pode cursar com muita sede, muita vontade de urinar e perda de peso.
? Diabetes gestacional
O diabetes durante a gravidez ocorre devido a certos hormônios produzidos durante a gestação, como o GH - hormônio do crescimento, que fazem com que o corpo fique resistente aos efeitos da insulina. Estes hormônios são essenciais a uma gravidez saudável e ao feto, mas eles podem bloquear parcialmente a ação de insulina. Na maioria das mulheres, o pâncreas reage a esta situação produzindo insulina adicional o bastante para superar a resistência à insulina. Em mulheres com diabetes gestacional, a insulina extra não é produzida o suficiente e o açúcar não pode ser processado corretamente pelo corpo. Dessa forma a glicose se acumula na circulação sangüínea.
As gestantes que apresentam fatores de risco devem ser rastreadas para se acompanhar de perto o comportamento da glicemia durante a gravidez. Entre os fatores de risco mais comuns estão: mulheres com mais de 25 anos; obesidade ou ganho excessivo de peso na gestação; disposição central da gordura corporal; baixa estatura, história familiar de diabetes em parentes de 1º grau, hipertensão, pré-eclâmpsia, polidrâminio e crescimento fetal excessivo na gravidez; antecedentes obstétricos de macrossomia, morte fetal ou neonatal e diabetes gestacional.
O diabetes tipo I requer aplicações diárias de insulina via subcutânea. Já o diabetes tipo II pode ser tratado com medicamentos por via oral e, em alguns casos, é necessário também o uso de insulina por via subcutânea.
Quanto ao diabetes gestacional, algumas mulheres podem persistir com a glicose no sangue em níveis saudáveis somente com dieta, porém, se a dieta não controlar, o médico irá prescrever insulina.
Em todos os casos é necessário manter acompanhamento médico permanente, com a realização contínua de exames laboratoriais. Mudanças no estilo de vida também são fundamentais no tratamento.
Conforme lembra o médico Fabiano Nunes, com os devidos cuidados, pacientes com diabetes conseguem manter uma vida normal, porém, se a doença não for devidamente tratada pode evoluir para complicações graves e irreversíveis, pois níveis elevados de glicose no sangue podem levar à perda de sensibilidade e dificuldade na circulação do sangue, principalmente nos pés. ?São consequências como a cegueira pela retinopatia diabética; a insuficiência renal crônica, pela nefropatia diabética; a neuropatia periférica; e amputações de membros e complicações cardiovasculares e cerebrovasculares?, explica o especialista.
Dona Glória Gonçalves Duarte sabe bem como são estas complicações. A senhora de 76 anos descobriu o diabetes há 32, porém, não tomou os cuidados necessários e há três anos Glória precisou amputar a perna direita e há pouco tempo perdeu a visão do olho esquerdo. ?Quando descobri o diabetes pouco se sabia sobre a doença. Eu não tinha nenhum sintoma, então não me cuidava?, lembra a senhora.
Quando já fazia dez anos que a doença havia sido diagnosticada é que começaram a aparecer os primeiros sintomas. Primeiro era o pé que doía muito, depois começou a ardência e logo a dormência. ?Aos poucos a dor foi passando para a perna. Ai eu comecei a me cuidar, mas já era tarde. Logo a dor era tão insuportável que eu precisei amputar a perna. Quando o médico tirou minha perna eu disse: muito obrigado doutor, por me arrancar essa dor terrível. Era uma dor insuportável?, relembra.
Hoje, Glória lamenta a falta de cuidado que teve com sua própria saúde. Para manter o nível de açúcar no sangue ela aplica duas doses diárias de insulina, e ainda faz medições da glicose duas vezes ao dia, além de controlar de forma rígida a alimentação.
Glória espera que sua história de vida sirva como lição para as pessoas que a conhecem. ?Conto para todos o que aconteceu comigo, para que as pessoas que diagnosticam a doença tomem os cuidados necessários que eu não tomei e assim não precisem chegar ao ponto em que cheguei, de ter que amputar um membro do corpo?, destaca.
Dieta
Segundo o doutor Fabiano Nunes, a dieta adequada é fundamental para quem tem diabetes. Entre as dicas do especialista estão a ingestão da quantidade energética adequada à atividade física, sendo fracionada em 5 a 6 refeições/lanches diárias; baixa ingestão de carboidratos; consumo de alimentos ricos em fibras como frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais; baixa ingestão de gorduras; evitar alimentos que contém sacarose; fazer uso de adoçantes não-calóricos, assim como de alimentos diet.
? Manter acompanhamento médico contínuo, realizando exames laboratoriais regularmente;
? Uso correto e contínuo da medicação quando indicada;
? Praticar atividades físicas regularmente;
? Não ingerir álcool;
? Evitar tabagismo;
? Perder peso quando indicado ? segundo o doutor Fabiano Nunes cerca de 80% dos pacientes recém-diagnosticados são obesos;
? Ter cuidados com os pés, utilizando sempre calçados;
? Em caso de qualquer ferimento procurar atendimento médico para avaliação.
Segundo o dentista Wagner Iansen Pansard, que atende na rede pública de Gaspar, o excesso de açúcar no sangue atua como um fator de risco para a doença periodontal, que é a doença da gengiva. ?O diabetes implica em baixa resistência à infecção e propensão a cicatrização demorada?, destaca.
A gengivite, ou sangramento da gengiva, é o primeiro sinal de que há problemas bucais. A presença de restos de comida aderida ao dente provoca irritação na gengiva, que reage com o sangramento. Nos diabéticos essa reação é exagerada e provoca uma maior repercussão como o ?amolecimento? dos dentes. Wagner revela que estudos mostram que pacientes que não fazem manutenção periódica no dentista e que possuem diabetes tem a possibilidade de estar com doença periodontal mais agressiva do que as pessoas que mantém um controle de visitas regular ao dentista. ?Por isso a recomendação é de escovar adequadamente os dentes, após cada refeição, e usar frequentemente o fio dental. Essas ações, aliadas ao controle adequado da glicemia e o retorno ao dentista a cada seis meses, são necessárias para a manutenção de um sorriso saudável?, orienta o especialista.
O diabetes faz parte da vida de Denise Van de Meene desde que ela nasceu. Durante a gestação, a mãe de Denise desenvolveu o diabetes e a enfermeira de 34 anos cresceu observando os cuidados da mãe para conviver normalmente com a doença.
Quando criança, Denise evitava comer doces, que hoje não fazem mais parte da vida da jovem. ?Na nossa casa não entra açúcar. Só comemos alimentos diet e esta realidade faz parte de toda a família, incluindo avós, tios e tias?, conta Denise, que não é diabética.
Para a enfermeira, o envolvimento da família é muito importante para o diabético, que precisa de apoio para manter uma alimentação balanceada. ?Há 20, 30 anos, este apoio era mais difícil, pois não existiam no mercado muitas opções para substituir o açúcar. Hoje temos uma infinidade de produtos sem açúcar, que são tão bons quanto o produto feito com açúcar?, destaca.
Palestras
Além de cuidar de sua própria saúde para evitar o diabetes, Denise também ensina outras pessoas a tomarem os cuidados necessários para combater a doença. A enfermeira é palestrante da Associação dos Diabéticos do Vale do Itajaí, Advali, que há 20 anos reúne diabéticos e familiares para momentos de palestras e orientações. ?Há dez anos minha família está envolvida com a Advali. Meu pai já foi presidente e eu sou palestrante. Assim apoiamos minha mãe e as demais famílias envolvidas com a entidade?, justifica.
Além das palestras, a entidade, que tem sua sede em Blumenau, também oferece apoio emocional com psicólogas, orientações alimentares com nutricionista, e a venda de alimentos dietéticos, e de aparelhos e tiras para monitoramento da glicemia.
Manter o peso adequado, praticar atividade física regularmente, manter uma dieta rica em fibras, com alimentos como frutas, verduras, legumes e cereais integrais, com baixo teor de carboidratos e gorduras. Estas são algumas dicas do clínico geral Fabiano Nunes para evitar o diabetes tipo II, que é o diabetes dianosticado geralmente em adultos após os 40 anos. Essas medidas, sendo adotadas precocemente, podem resultar no não aparecimento do diabetes em pessoa geneticamente predisposta, ou levar a um retardo importante no seu aparecimento e na severidade de suas complicações.
Na medida em que uma série de fatores de risco são bem conhecidos, pacientes que sejam portadores dessas alterações podem ser rastreados periodicamente e orientados a adotarem comportamentos e medidas que os retire do grupo de risco.
Dicas
? Manter peso normal
? Praticar atividade física regular
? Não fumar
? Controlar a pressão arterial
? Evitar medicamentos que potencialmente possam agredir o pâncreas (cortisona, diuréticos, tiazídicos, etc)
Fundada em 1990, a Associação dos Diabéticos do Vale do Itajaí, Advali, possui atualmente 150 associados. São pessoas com diabetes ou familiares de diabéticos, que se reúnem para discutir as questões ligadas à doença.
Um dos principais destaques da Associação é a loja de produtos diets, que funciona junto à sede da Advali, e oferece uma infinidade de produtos dietéticos com preços acessíveis a todos os bolsos. No local é possível encontrar desde geléias, chocolates, e bolos, até doces caseiros, como orelha de gato, feitos sem a adição de açúcar.
A Advali fica na rua Paraíba, 101, em Blumenau. Mais informações sobre a entidade podem ser obtidas através do telefone 3322-2604.

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