Dono de madeireira constrói caixões para sepultar moradores do Baú - Jornal Cruzeiro do Vale

Dono de madeireira constrói caixões para sepultar moradores do Baú

23/11/2018

A região Braço do Baú, em Ilhota, foi uma das tantas afetadas pela catástrofe. Em meio ao caos, os moradores que sobreviveram, mesmo que prejudicados psicologicamente, se dedicaram a ajudar como podiam. A melhor forma de devolver a alegria que já habitou aquela comunidade era encontrar os desaparecidos ainda com vida. Na prática, o resultado foi oposto. Vivenciando o luto de perto, a perda de bens materiais se tornou mínima e deu vez à sensação de impotência.

Uns perderam familiares. Outros, amigos. E, aqueles que não perderam pessoas com quem dividiam o mesmo sangue ou sentimento, perderam vizinhos ou conhecidos. Ninguém escapou. Mas, o clima de desespero não intimidou o ilhotense Ilário Pelz, dono da Madeireira Pelz. Ele tomou frente de uma iniciativa nobre: construir caixões para sepultar os falecidos que, diante dos acontecimentos, não teriam condições de ser enterrados com dignidade. O trabalho era realizado aos poucos, na medida em que os corpos eram localizados.

Dez anos se passaram e o empresário fala da ação com tristeza. “Não tinha muito o que fazer. Moramos em um bairro mais afastado e nunca tínhamos vivenciado nada parecido. Nos restava ajudar nas buscas. Só que eu não me conformava que esses seres humanos, mortos de forma tão brutal, fossem simplesmente devolvidos para debaixo da terra”, relembra, emocionado. Ilário, então, usou o seu trabalho para cortar, pregar e produzir as urnas em que os corpos foram sepultados. “Eles possuem uma história, devemos respeito. Recebi a ajuda de muitas pessoas, e isso me deixou feliz”.

O empresário faz questão de descrever também as circunstâncias impostas na época. “Fomos pegos de surpresa com os desbarrancamentos. Tudo virou de cabeça pra baixo. Me lembro muito bem do que eu pensava sobre aqueles dias. Eu queria fazer com que a minha comunidade retornasse ao que era antes. Eu queria ver esse povo trabalhador de volta à ativa, com seus parentes a salvo. Eu queria, mais do que tudo, que aquilo fosse apenas um pesadelo”.

Um dos fatos mais marcantes para ele foi ver um de seus funcionários sofrendo com a perda de familiares. “Imagina só: num dia, você está almoçando com a família completa e saudável. No outro, sua mulher, dois filhos, mãe e sobrinha morrem brutalmente. A tristeza tomou conta desse querido colaborador da madeireira. A gente fica sem entender como algo tão horrível pode surgir de repente nas nossas vidas”, conta.

Depois de uma década da tragédia, a atitude de Ilário Pelz continua sendo lembrada com muita gratidão pelos ilhotenses. Quando pode, ele faz questão de ir até o cemitério, situado atrás da Igreja Nossa Senhora da Glória, onde as vítimas fatais da localidade foram sepultados, para fazer uma visita.

 

Edição 1878

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