Por Thiago Moraes
Ozília Rosa Giacomoni, 58 anos, não ficou refém aos porquês do passado por não ter sido alfabetizada. Mesmo durante sua vida dura na roça na cidade de Xanxerê, no Oeste do Estado, sempre almejou a chance de um dia poder assinar o próprio nome ou pegar o ônibus sem pedir ajuda de ninguém para ler o itinerário. Ozília tem realizado seu sonho na modalidade da Educação Básica de Educação de Jovens e Adultos, a EJA.
Saber ler e escrever pode parecer um tanto comum e habitual para muitas pessoas, mas reconhecer as palavras pode significar a realização de um antigo sonho. Ozília, moradora do bairro Coloninha, iniciou as aulas de alfabetização em junho de 2013. ?Perdi um tempo que eu até então pensava não poder resgatar mais. Hoje estou me desenvolvendo na leitura e na escrita?, comemora a mãe de quatro filhos, residente em Gaspar há 20 anos.
Através deste programa, e com uma equipe de 25 profissionais da rede municipal de educação, a EJA tem alunos de diferentes perfis, desde jovens até a terceira idade, passando pela faixa etária de 30 e 40 anos. É o caso de Marinês de Souza, 42 anos, que não vê a hora de finalizar o processo de alfabetização. ?A vontade de aprender faz a diferença em nossa idade, pois só assim temos energia suficiente para vencer todas as dificuldades durante nossa caminhada?, afirma Marinês, moradora do bairro Bela Vista, e que retornou aos estudos no início de abril.
Incluindo aulas que vão além de escrita e leitura, como lições de Matemática, História, Geografia, Informática e Conhecimentos Gerais, os alunos têm superado os próprios limites ao conciliar a rotina do trabalho com a metodologia aplicada em sala de aula. ?Nosso método pedagógico oportuniza aos alunos realizar o sonho de ler, interpretar e entender um texto, além de outros conhecimentos transmitidos. Há muito companheirismo e descontração nas aulas, e isto ajuda no processo de aprendizagem?, explica a professora Salete de Jesus, que leciona para 23 estudantes.
Alunos se desdobram para participar das aulas
Conciliar a vida na Educação de Jovens e Adultos no seio familiar e no âmbito profissional não é para qualquer um. Edmar da Silva Nogueira, 33 anos, morador do bairro Sete de Setembro, está há três meses na EJA e se supera a cada aula aplicada. A jornada de trabalho de Edmar é no terceiro turno, das 21h30 às 5h, em uma empresa de Gaspar. ?A minha vontade de estudar me faz perseverar. Não vou desistir, mesmo trabalhando em um horário complicado. Recuperando o tempo perdido vou poder crescer profissionalmente e em outras áreas da minha vida?, conta Edmar.
De acordo com a diretora da EJA, Débora Fernandes, Edmar é um dos muitos que têm se desdobrado para acompanhar as aulas no Centro de Gaspar. Segundo Débora, há uma boa porcentagem de alunos que decide retornar aos estudos para conseguir uma recolocação no mercado de trabalho, além de inúmeras mulheres que depois de serem avós voltam a estudar até para estimular os netos na vida escolar.
Ela relata que há casos de viúvas e mães que depois de os filhos crescerem, acabam decidindo ingressar nos estudos. ?É exemplar o empenho dos alunos em conciliar vários aspectos de suas vidas com a vontade de retornar às aulas depois de um intervalo de tempo. Houve um caso de um senhor que era compositor musical. Ele gravava suas músicas e dava para a esposa escrever. Entrou na EJA para escrever as próprias músicas e não depender mais da esposa. A vontade de voltar a estudar faz a diferença. Temos experiências de membros da mesma família, como mães e filhos, que estudaram na EJA?, testemunha a diretora Débora Fernandes.
Programa inclui aulas para deficientes auditivos e visuais
A EJA também tem acolhido e ensinado a alfabetização a deficientes auditivos e visuais. A professora de Libras (língua gestual) Patrícia Karen Rebelo Samavilla, 26 anos, tem uma surdez parcial e formação em libras, além de saber pronunciar várias palavras em português. Lecionando pela manhã na EJA e à tarde na Apae, Patrícia considera um privilégio poder ensinar seus alunos a comunicação em libras. ?Eles estão de parabéns pela determinação e pelo esforço que têm demonstrado. O trabalho desenvolvido é de muito valor, e estou muito feliz por poder contribuir com a importância da EJA na vida das pessoas, em especial de meus alunos?, destaca Patrícia, moradora do bairro Sete de Setembro.
A diretora Débora Fernandes observa que o trabalho desenvolvido com os alunos com necessidades visuais e auditivas estimula a continuidade de toda a comunidade da EJA, devido ao clima de superação que estes alunos despertam em todos os envolvidos no processo de aprendizagem. ?De fato está havendo uma sensibilização da direção e dos professores com o esforço de todos os alunos com problemas visuais e auditivos. Somos motivados por estes alunos a continuar o trabalho desenvolvido há 14 anos na cidade?, pontua Débora.
Estrutura atende 13 turmas divididas nos três períodos do dia
Com endereços no Centro, Margem Esquerda, Sete de Setembro e Santa Terezinha, a EJA está disponível para pessoas com idade a partir de 15 anos e tem atualmente 300 estudantes, sendo 80 deles engajados na alfabetização adulta.
Com 13 turmas no total, e com aulas de segunda a sexta-feira, distribuídas em três turnos conforme disponibilidade de tempo de cada estudante, a EJA iniciou em 2001. A partir de 2003, foi elaborado um projeto de política própria para a EJA, onde foi assumida uma proposta pedagógica, bem como a formação dos educadores e a produção de material pedagógico. ?O currículo e a metodologia dialogam com o mundo do trabalho e as vivências dos jovens e adultos, valorizando os saberes construídos ao longo da vida. ?As pessoas procuram a EJA com objetivos bem pessoais. Temos alunos que permanecem conosco seis anos, assim como seis meses, devido à rotina de trabalho, entre outros fatores?, ilustra a diretora Débora Fernandes.
A EJA é atualmente composta por 25 profissionais que lecionam os anos iniciais e os finais. As matrículas para a alfabetização estão abertas permanentemente e para as demais turmas ocorrem nos meses de maio, agosto e dezembro. O próximo período de matrículas inicia na segunda-feira, dia 5, e vai até o dia 9 de maio. Para ingressar na EJA é necessário ter idade mínima de 15 anos (menores de 18 anos com a presença dos pais) e apresentar os seguintes documentos: RG e CPF (cópia) e comprovante de residência. De acordo com a frequência de cada aluno é liberado um certificado de frequência.
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