Todos os dias, Godofredo Werner sai de casa bem cedo para trabalhar. Ao invés de pegar as chaves do carro, o mecânico pega o remo, a batera e segue em direção ao trabalho pelas águas do rio Itajaí Açú.
O morador do bairro Lagoa faz o mesmo trajeto há 31 anos e poucas vezes trocou o transporte aquático pelo terrestre. ?Quando vou de carro me estresso muito com o trânsito e com as longas filas que se formam todos os dias nas estradas de Gaspar. De carro demoro muito mais para chegar em casa do que de batera?, conta o mecânico.
Quando começou a trabalhar, em junho de 1979, a embarcação era o único meio de transporte viável para levar este gasparense até a empresa situada na margem direita do rio. ?Minha família não tinha carro e os ônibus tinham horários escassos. Hoje tenho as duas opções, mas ainda prefiro ir pelo rio, pois o contato com a natureza é revigorante depois de um dia de trabalho?, relata.
Além de Godofredo, outros sete funcionários da empresa onde ele trabalha fazem a travessia do rio Itajaí Açú diariamente. Todos passaram por instruções da empresa e só podem fazer a travessia com o uso de proteção adequada, como o colete salva-vidas, que pode evitar afogamentos em caso de acidentes.
Os acidentes de percurso foram poucos nestes 31 anos de travessia feita pelo seu Godofredo. Diferente do trânsito pelas estradas, que a diariamente registra pequenas batidas e colisões, principalmente envolvendo motos e carros, no rio o único problema é a falta de atenção e a velocidade das águas. As quatro vezes em que Godofredo caiu nas águas foram em períodos de cheias, quando a maré estava alta. ?Por duas vezes caí durante a ida ao trabalho, daí tive que voltar para casa e trocar de roupa para poder ir trabalhar?, lembra o gasparense.
Nem mesmo a chuva impede Godofredo de fazer seu trajeto todos os dias. ?Quando está chovendo não adianta escolher o carro, pois nestes dias é que o trânsito fica ainda pior. Eu ponho minha capa de chuva, às vezes pego um guarda chuva, e vou até a empresa?, relata.
Porto
Na margem direita do rio, Godofredo tem seu próprio porto, onde deixa a embarcação guardada durante o período em que está no trabalho. Por quatro vezes a batera chegou a ser roubada, e agora, para evitar os roubos, o mecânico deixa sua embarcação presa a uma corrente com cadeado.
Além das novas bateras adquiridas após os roubos, a cada quatro anos Godofredo também precisa trocar de embarcação, pois o tempo de vida útil é curto. ?O investimento é de R$500, mas vale pela economia que tenho, pois não gasto com gasolina e nem com passagem de ônibus, além de estar fazendo um exercício físico enquanto vou ao trabalho?, comenta o gasparense, que nos próximos anos irá se aposentar do trabalho, mas não planeja aposentar o remo tão cedo.
O único trajeto terrestre que Godofredo pode fazer para chegar ao trabalho é seguir pela Estrada Geral da Lagoa em direção ao centro da cidade, onde a única ponte, a Hercílio Deeke, faz a travessia de milhares de pessoas todos os dias por cima das águas do rio Itajaí Açú. Da ponte, Godofredo teria que seguir pela Avenida das Comunidades e pela rodovia Jorge Lacerda até chegar á empresa onde trabalha.
O trajeto é de cerca de dez quilômetros e em dias sem muito congestionamento demora cerca de meia hora. De batera ele leva doze minutos para fazer a travessia dos 500 metros do rio. ?De carro é ruim, de bicicleta é perigoso, por isso escolho a batera?, justifica o morador do bairro Lagoa.
Uma das alternativas para aproximar a distância da casa de Godofredo até a empresa, e para acabar com os congestionamentos na área central de Gaspar, é a construção de uma segunda ponte na cidade. O projeto começou a ser planejado na gestão anterior do prefeito Pedro Celso Zuchi, teve a adesão do ex-prefeito Adilson Schmitt, e continua sendo uma luta da atual administração, porém, até hoje, não conseguiu sair do papel.
Ponte
Denominada Ponte do Vale, a segunda ponte que fará a ligação das duas margens do rio Itajaí Açú em Gaspar está orçada em R$51 milhões. Segundo informações repassadas pela equipe da Secretaria de Planejamento do município, o projeto está em análise técnica pela Caixa Econômica Federal. Há ainda uma carta consulta no Ministério das Cidades para verificar se o município pode licitar a obra toda.
Apesar de já ter garantido o repasse de R$24,6 milhões, ainda não há previsão para o início das obras. A abertura da licitação, conforme explica a equipe de Planejamento, ainda depende da análise da Caixa e da resposta da Carta Consulta pelo Ministério das Cidades.
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