
Parece fácil, mas não é. Em tempos de WhatsApp e Facebook, muitos acreditam que para informar basta juntar meia dúzia de palavras e compartilhá-las com o maior número de pessoas possível. Pois bem, essa ilusão cai por terra com a mesma rapidez com que é construída. Durante mais uma produção que carrega a marca Cruzeiro do Vale, nossa equipe se deparou com um exemplo simples e claro de que o exercício do bom e velho jornalismo ainda tem muito valor.
Nesta semana, um jornalista, durante uma das milhares de coberturas já realizadas por ele, se deparou com muitas pessoas se emocionando com a sua presença. Diante da reação, surpresa. Mas, o sentimento da comunidade não é à toa, pois se baseia na construção da carreira de um profissional sério, correto e comprometido com a informação de qualidade.
O personagem descrito nesse espaço é Gilberto Schmitt, proprietário e diretor do Cruzeiro do Vale, que mais uma vez arregaçou as mangas e voltou às áreas afetadas pela catástrofe de 2008. Ele, que além de somar mais de 30 anos de experiências, ainda tem forças para ensinar sua equipe. Por sinal, que equipe! O seu legado certamente foi repassado à filha Indianara Schmitt, atual editora do jornal; e aos jornalistas Franciele Back, Raquel Bauer e Geraldo Genovez (que escreve esse editorial cheio de orgulho por finalizar mais uma edição do jornal).
Nessa edição especial de 10 anos da tragédia de 2008, demos destaque à importância da formação acadêmica na área de comunicação, justamente para que as histórias pudessem ser contadas com riqueza em detalhes, dados técnicos, fontes adequadas e, sobretudo, com exatidão ao que realmente aconteceu.
Ser jornalista exige uma apuração bem feita. Olhar nos olhos de quem sentiu na pele os efeitos das avalanches da água e barro. Sentar e ouvir, com calma, o depoimentos daqueles que carregam no peito a dor do luto. Transformar o relato das pessoas que perderam tudo em reportagem. Além das entrevistas, é preciso encontrar o gancho certo para escrever, fotografar o melhor ângulo, tratar as imagens, editar as matérias, diagramar as páginas e ainda revisar tudo com cautela.
Ainda assim, há quem diminua, zombe ou até questione a importância dos jornalistas na sociedade. Mas, o que seria do mundo sem informação? Definitivamente, o jornalismo impresso não se resume a textos.
por Juarês José Aumond - Geólogo, Mestre em Geografia e Doutor em Engenharia Civil
O desastre de 2008 foi provocado pela ocupação homem das áreas já ambientalmente suscetíveis aos escorregamentos, enxurradas e inundações. Os principais fenômenos relacionados, tais como deslizamentos de encostas, inundações e enxurradas, estão associados a eventos pluviométricos intensos e prolongados que se repetem a cada fase de chuva mais severa e estão relacionados às mudanças climáticas. Os movimentos de massa de 2008 foram um marco histórico para esse tipo de desastre no Brasil e serviu de alerta para o que aconteceria na sequência em várias regiões brasileiras.
A catástrofe foi classificada como a maior tragédia geoclimática da história catarinense. Naquele novembro, perdemos 135 vidas. Foram também cerca de um bilhão em perdas econômicas. O mundo chorou pelos catarinenses. Nunca antes tinha ocorrido fenômeno semelhante no Brasil. Naquela ocasião, não estávamos preparados para enfrentar esse tipo de desastre. A Defesa Civil, governos e instituições eram inexperientes. Tínhamos experiências com cheias, inundações e enxurradas, mas algo assim foi um marco.
Hoje, vivemos um momento de grande singularidade do clima em função das mudanças climáticas e o uso de áreas como margens de rios. Isso pode fazer com que se repita a situação de 2008 em nossa região e pelo brasil afora.
Passados 10 anos, a memória das pessoas ainda recorda aqueles tristes e cinzentos dias. Em homenagem às pessoas que nos deixaram de uma forma tão trágica, devemos assumir uma postura pró-ativa.
Para mitigar situações como essa, será importante desenvolver ações para estabelecer nas cidades processos de resiliência, com intervenções urbanas mais sustentáveis. Implementar políticas públicas para a gestão dos riscos de desastres com Planos de Contingência de curto, médio e longo prazo. Identificar as áreas de risco e melhoria da gestão urbana no esforço de construção de um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável que impeça a ocupação dessas áreas.
Prevenir e preparar a população para uma nova cultura de prevenção de riscos e desenvolver sistemas de alerta. Adotar um modelo de gestão pública sistêmico de ações e práticas para eliminar e/ou reduzir a frequência e a intensidade dos desastres. Nas Escolas e Universidades, inserir disciplinas que ensinem o que são as mudanças climáticas e seus possíveis efeitos. Preparar e organizar as associações de bairros para que os moradores se transformem em membros pró-ativos. Profissionalizar as Defesas Civis municipais e dar autonomia para que elas possam tomar decisão no sentido de evacuar as áreas ambientalmente frágeis e impedir a ocupação de novas áreas de riscos. Estas são algumas das proposições e diretrizes para eliminar, ou pelo menor minimizar as vulnerabilidades das comunidades localizadas nas áreas de maior risco a desastres.
por Gilberto Schmitt
Pés calejados que chegavam a doer. Roupas encharcadas e sujas. Nas costas, uma mochila com água e pão com linguiça. No bolso, papel e caneta. Nas mãos, a câmera. No corpo inteiro, cansaço. Muito cansaço.
Já escrevi muitas reportagens, entrevistei centenas de pessoas e descrevi milhares de situações. Mas, as primeiras linhas deste texto fazem parte de algo que nunca, na vida inteira, pensei que eu fosse descrever. É a minha situação durante a cobertura da grande tragédia de 2008.
De vez em quando, me pego pensando: quando decidi sair de casa, em plena catástrofe, para fazer fotos e matérias desse avalanche de tragédias que pegou Gaspar e Ilhota de surpresa, eu sabia que teria para onde voltar. Sabia que, ao final de muito trabalho, minha família estaria me esperando. Que minha esposa estaria com a janta pronta, porque sabia que eu chegaria roxo da fome. Que meus filhos, ainda crianças, estariam ansiosos me esperando. E que minha cama estaria quentinha, para que eu descansasse depois de longas e longas caminhadas em meio à devastação.
E é nesse momento que começo a lembrar de todas as pessoas que vi durante meu trabalho de cobertura da tragédia. Daqueles pais, que perderam seus filhos e não puderam dizer um último ‘eu te amo’. Dos casais, que não conseguiram correr mais rápido do que a avalanche de terra. Das crianças, que não realizaram seus sonhos. Dos idosos, que não aproveitaram a melhor idade. Das muitas famílias que não tiveram para onde voltar quando tudo se acalmou. E dos 20 moradores de Gaspar e dos 32 de Ilhota que perderam a vida de forma brutal.
A tragédia de 2008 deixou muitas marcas. Quem viveu na pele tem feridas que jamais vão cicatrizar. E quem não estava lá no exato momento, como eu, mas que foi para as localidades atingidas logo em seguida, terá sempre na memória as imagens de destruição e de calamidade. Aquelas cenas nunca vão sair da minha cabeça. Já faz 10 anos que os morros viraram gelatinas e desceram carregando tudo: pessoas e esperança de dias melhores. É quase impossível descrever o que eu vi. Mas as imagens podem mostrar um pouco no que se transformou Gaspar e Ilhota. Parecia cena de guerra. Era destruição para tudo quanto é lado. As casas que não estavam completamente no chão estavam abandonadas. Empresas estavam destruídas. Pessoas e sonhos soterrados.
Naquele época, não tínhamos a tecnologia de hoje. Os celulares eram limitados e as poucas torres de transmissão ficaram sem sinal. WhatsApp, então, nem pensar! A solução para levar notícias aos leitores foi utilizar o site do Cruzeiro do Vale. Eram centenas e centenas de pessoas acessando simultaneamente as informações 24 horas por dia. Profissionais de grandes jornais do país me ligavam pedindo fotografias e informações sobre a catástrofe.
Foi muito difícil fazer a cobertura da tragédia. Eram poucos lugares que conseguíamos ir de carro. A maior parte do caminho era feito a pé, pela mata ou em meio à lama. Me lembro da primeira ida ao Baú, em Ilhota, após a tragédia. Foi de helicóptero. O então prefeito Ademar Felisky disse ao comandante da aeronave que eu era seu assessor. Só assim consegui embarcar de manhã cedinho para fazer meu trabalho. Ao desembarcar no local conhecido como Tifa do Grahl, as cenas eram de terror. Me juntei com alguns bombeiros que haviam acabado de desembarcar. Eu conhecia bem a área. Os bombeiros, por serem de fora, nem tanto. Naquele momento, os últimos moradores estavam sendo removidos do Baú ao Centro de Ilhota. Impossível descrever a cena das pessoas indo embora daquele jeito: tristes por fora e despedaçados por dentro.
Durante todo aquele dia, coletei informações, fotografei e filmei. Por volta das 16h, ninguém tinha almoçado ainda. Em uma casa atingida e abandonada, onde consegui um pacote de arroz e carne picada. Pegamos um tacho, colocamos água e o alimento coletado. Lembro que a cara não era boa. Mas, diz o ditado que ‘gato com fome come até sabão’. Quando a comida estava quase pronta, consegui carona para voltar para casa na última aeronave que iria para o Centro de Ilhota naquele dia chovoso. Era o último espacinho. Se não, eu teria que dormir por lá mesmo.
Em outra ida ao Alto Baú, lembro de ter ido de caminhão até a Cascata Cascaneia. Depois, me embrenhei em meio à mata. Fui com uns amigos que haviam perdido vários familiares soterrados. A maioria ainda estava debaixo dos escombros. Saímos às 5h da manhã para chegar lá por volta do meio dia. O trajeto era muito perigoso. Acredito que o Alto Baú tenha sido o epicentro da catástrofe. Foram muitas mortes e feridos. Eram relatos tristes e assustadores. É neste local que a bebezinha Larissa Schwambach, de 11 meses, um anjinho que morreu com sua mãe, ainda não foi encontrada. Uma semana antes dessa grande tragédia eu estive lá para fazer a cobertura dos 25 anos de sacerdócio de frei Pedro da Silva. Era um momento festivo, com toda a família reunida. A festa foi na capela Nossa Senhora Aparecida. Ninguém imaginava que alguns dias depois o local ia estar completamente destruído. O próprio frei Pedro perdeu muitos familiares.
Esse dia que passei no Alto Baú me fez muitos calos nos pés. O cansaço me dominou. Não lembro mais quantos quilômetros andei a pé. Acredito que deve ter chegado em torno de 50 quilômetros.
Muitas cenas me chocaram. Mas, o que me cortou o coração, foi entrar em uma casa no Baú e, na cozinha, encontrar a mesa posta. Deu pra ver que a família saiu correndo com medo. No varal da mesma casa, as roupas estavam penduradas. Deu um nó na garganta ver aquilo. Me coloquei no lugar daquelas pessoas. Podia ser comigo. Ou com você.
Em outra casa, encontrei muitas galinhas presas num galinheiro. Estavam com fome. Não tinha trato para alimentá-las. Não tinha moradores. Também havia uma cadela que tinha criado vários cachorrinhos. Ela também estava faminta. Abri a porta do galinheiro e deixei a natureza fazer sua parte. Dias depois, passei por lá é só vi penas de galinha. A cadela alimentou seus filhotinhos. Não sei se fiz certo. Mas, era o que podia no momento.
Vi diversas localidades de Gaspar e Ilhota destruídas. Belchior, Sertão Verde, Margem Esquerda e Baú são apenas quatro exemplos. Em quase três décadas trabalhando como jornalista, nunca passei por uma situação parecida. Passados 10 anos, fica a esperança de que situações como essa nunca mais se repitam. E que as famílias se apeguem na esperança de que seus entes estão em lugares especiais.
Por Jota Aguiar - Radialisa
Vivenciar a tragédia de 2008 foi um misto de adrenalina, sofrimento e esperança. Houve momentos, em meu trabalho como repórter de campo, em que pude presenciar a tristeza no olhar de cada um atingido pela calamidade. O amanhecer do primeiro dia no campo foi assustador. Foi dolorido ver casas destruídas, sonhos perdidos e vidas tiradas tão prematuramente. Paralelo a isso, no decorrer dos dias, foi possível ver o amor brotando em cada família. A alegria de reconstruir!
Quando me pego observando as fotos daqueles momentos trágicos, vividos em nosso município e em todo o Vale, me pego lembrando de cada lágrima, de cada susto, de cada esperança e de cada suspiro ao reencontrar o que parecia perdido. Posso dizer que fazer a cobertura da catástrofe de 2008 foi uma experiência única, que colaborou muito para meu crescimento profissional. Aqueles momentos me fizeram acreditar que diante de tanta destruição o ser humano pode ser alvo de algo mágico: o sentimento de compartilhar.
Por Rudinei Cavalheiro - Radialista
Em novembro de 2008 eu estava trabalhando na Rádio Cidade AM, de Brusque. Lembro que, em determinado dia, cheguei bem cedo em Ilhota em busca de informações concretas sobre o que estava acontecendo. Chegando lá, fiquei impressionado. Aquele município pequeno e aparentemente indefeso havia montado uma Central de Operações. Um campo de futebol havia se transformado em heliporto, que recebia desabrigados vindos da região do Baú. Cada pessoa que chegava carregava uma história diferente de sobrevivência.
Até então, o que se sabia é que aquela região estava completamente destruída e que o único acesso seria pelo ar. Foi então que, junto com outros profissionais da imprensa, tive acesso ao Baú através de um helicóptero da Força Aérea Brasileira. O diretor do Cruzeiro do Vale, Gilberto Schmitt, e o fotógrafo Fábio Venhorst, estavam comigo.
Do alto, pude ver o cenário de destruição. Pessoas estavam desaparecidas, corpos estavam soterrados e, pelo fato de a terra estar molhada, qualquer trabalho de retirada de corpos era quase impossível.
Caminhando com colegas da imprensa, bombeiros e policiais, me deparei com o rio fora do seu curso normal. Árvores inteiras haviam sido arrastadas pela força das águas. Casas estavam apenas com o telhado aparecendo. Muitas roupas, utensílios e demais itens pessoais estavam jogados e destruídos em meio à lama.
Em determinado momento, o grupo começou a se dispersar. Lembro que subi em cima de uma árvore caída para fazer uma foto e, quando pulei, um mar de lama me engoliu. Fiquei enterrado quase na altura do peito. O desespero tomou conta. Eu estava sozinho e comecei a afundar. Consegui agarrar em um galho de árvore e, com muito esforço e com a ajuda de Deus, saí daquele lugar. Naquele momento, senti na pele a dor e o desespero das vítimas da tragédia de 2008.
Em meio a tudo o que nosso Vale passou, pensei que as cidades nunca mais fossem voltar ao normal. Mas hoje, 10 anos depois, nossa população mostra que não desiste. Que sobrevive a enchentes e deslizamentos colocando a mão na massa e reconstruindo tudo sempre que for preciso. Termino meu relato afirmando que tenho orgulho de viver e criar meus filhos em um lugar de pessoas honestas e trabalhadoras. “Salve Gaspar e Ilhota”.
Por Fábi Venhorst -Fotógrafo
10 anos. É difícil de acreditar que tanto tempo se passou. Quando passo pelas localidades mais afetadas pela tragédia de 2008, pouca coisa resta para lembrar os tristes acontecimentos daquele novembro fatídico. A ausência de algumas casas aqui e ali é notada apenas pelos que conheciam a paisagem anterior.
Em 26 de novembro de 2008, quando sobrevoei pela primeira vez a região do Baú, em Ilhota, ao lado do diretor do Cruzeiro do Vale, Gilberto Schmitt, o cenário que se revelava era assustador. A imensidão de área estava alagada. As gigantescas feridas avermelhadas rasgavam o verde dos morros. Trechos de estrada haviam desaparecido. Mesmo eu, que conhecia a região há anos, tive certa dificuldade em me localizar. Tudo havia mudado.
Ao aterrissarmos em um campo de futebol, nos deparamos com um grupo de moradores que, encharcados, esperavam a chegada da aeronave para serem resgatados. Nas mãos, alguns poucos pertences dentro de bolsas e sacolas improvisadas. Com olhares incrédulos, as lágrimas que escorriam pelo rosto contavam a história dos últimos dias.
Num pequeno grupo formado por bombeiros, jornalistas e voluntários, partimos para a área afetada. A medida que avançávamos, as cenas de destruição ficaram ainda mais evidentes: casas parcialmente destruídas, trechos de estrada bloqueados por deslizamentos de terra e locais levados pelas águas do rio. De obstáculo em obstáculo, adentrávamos o território afetado. A devastação só aumentava. Era difícil reconhecer onde estávamos.
Chovia direto. Entre uma foto e outra, eu secava um pouco a câmera na camisa e seguia. Em determinado trecho do caminho, nos deparamos com a falta de estrada. No lugar, passava o rio, completamente desviado do seu curso normal. Era assustador, mas fomos em frente. Atravessamos um trecho de lama acumulada pelos deslizamentos e pela força das águas do rio. Os pés chegavam a afundar no lodo até perto dos joelhos. Cada vez ficava mais difícil de prosseguir.
Chegamos a uma residência abandonada. Estava praticamente intacta, exceto pelo lodo que havia invadido. Na mesa da cozinha, restos de um último café da manhã. Na varanda, roupas recém lavadas pendiam do varal. Em volta, uma confusão de troncos, galhos, tábuas e veículos praticamente enterrados na lama. O rio desviado passava perto.
Esse era o cenário geral onde quer que fossemos. Destruição, confusão e abandono.
Irreconhecível. 10 anos se passaram e essa palavra ainda serve bem para caracterizar tudo o que vi. A maior parte das cicatrizes físicas da tragédia desapareceu. Quem não viveu aquele momento e não presenciou aquelas cenas, não percebe os sinais. Mas, quem viveu de perto os acontecimentos de novembro 2008 terá sempre na memória as marcas daquela tragédia. Assim como terá sempre a esperança de que algo desse tipo nunca mais aconteça.
Rádio Sentinela do Vale: 24h no ar
A rua São Pedro, no Centro de Gaspar, estava completamente inundada. Para chegar à Rádio Sentinela do Vale, somente de batera ou com uma jangada improvisada. Mas isso não impediu que o veículo de comunicação radiofônico mais antigo de Gaspar cumprisse com seu maior objetivo: levar informação em tempo real sobre os acontecimentos da cidade.
Em uma época em que a internet começava a dar as caras e que WhatsApp sequer existia, a rádio foi o principal meio utilizado pela população para ficar informada sobre a tragédia. No ar com informações 24h por dia, a programação da Sentinela, assim como de todos os veículos de comunicação do Vale do Itajaí, foi adequada para a triste realidade do município.
Era a voz do comunicador Júlio Carlos que a comunidade ouvia dia a noite. Junto dos repórteres Jean Miglioli e Jota Aguiar, a equipe se pautou apenas em assuntos relacionados à catástrofe para informar com qualidade a população. A programação especial durou cerca de uma semana. “Fizemos plantão 24h, apenas nos revezávamos. Fomos pegos de surpresa. A série de acontecimentos deixou todos tensos e preocupados”, diz Júlio, contando que a cobertura era feita com informações repassadas pelo então prefeito, Adilson Schmitt, e pela comunidade.
por Herculano Domício
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A força das águas que insistiam em cair desde a segunda quinzena de agosto resultou no inesquecível cenário de destruição registrado em novembro de 2018 em Santa Catarina. Apesar dos sinais, ninguém esperava que algo tão devastador tomasse conta do estado. O estrago maior afetou as cidades do Vale do Itajaí. Em Gaspar e Ilhota, famílias inteiras sofreram com as enxurradas, pessoas foram soterradas e dezenas de moradores morreram embaixo dos escombros.
A perda material é incalculável. Casas foram colocadas abaixo. Móveis, veículos e roupas se perderam na imensidão de terra que descia dos morros mais altos. Mas, existe algo muito maior do que a perda de bens materiais: a dor do luto. Vidas foram brutalmente ceifadas e, consequentemente, sonhos interrompidos para sempre. Em meio a tantos problemas, a população esqueceu o significado da palavra ‘tranquilidade’. A qualquer momento, novos deslizamentos poderiam levar o que restava de esperança.
Um dos primeiros acontecimentos, que até então não denunciava a chegada de novos desastres, foi o desbarrancamento em cima da Escola Angélica de Souza Costa. Em 13 de novembro, a estrutura do educandário foi atingida por parte do morro que ficava logo atrás da escola. A enxurrada que atingiu Gaspar naquele dia fez com que a prefeitura decretasse ‘Estado de Emergência’ na cidade. Alguns dias depois, com deslizamentos mais agressivos, a escola e seis residências próximas foram completamente destruídas.
Outro fator que aumentou a insegurança dos gasparenses foi a queda parcial do morro da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Centro, deixando uma pista da Avenida das Comunidades (sentido Blumenau) completamente interditada na tarde do dia 21.
A situação piorou na madrugada seguinte, com o rompimento do gasoduto Bolívia-Brasil, responsável pelo fornecimento de gás natural em parte do território catarinense e gaúcho. A explosão iniciou por volta das 3h e durou cerca de uma hora. Tudo aconteceu na BR-470, no bairro Belchior, e as labaredas de fogo de cerca de 50 metros de altura puderam ser vistas de Blumenau. O tremor de grande intensidade no solo, somado à terra úmida resultante de meses de chuvas, abriu uma cratera BR na mesma madrugada. Um carro foi engolido pelo buraco.
Com a explosão do gasoduto, autoridades entenderam que os problemas estavam só começando. Diversos bairros de Gaspar e Ilhota foram afetados pelas enchentes e também por deslizamentos no dia 23 de novembro. Com muitas ruas alagadas, grande parte da população ilhada, falta de comunicação entre as famílias e dificuldade de acesso dos socorristas às regiões mais distantes, a preocupação tomou conta dos chefes do Executivo, que decretaram ‘Estado de Calamidade Pública’ no dia seguinte.
Esta não foi uma simples enchente. Não foi um pequeno dano. Não foi algo passageiro. Todos foram pegos de surpresa e postos à prova. Equipes de socorro se submeteram a uma árdua batalha, talvez a maior em suas trajetórias. A população, refém das fatalidades desenfreadas, colocou a dor no bolso e se uniu para impedir que mais problemas fossem registrados. Mas a situação fugiu do controle. Hoje, uma década depois, entendemos que o nome ‘tragédia de 2008’ não foi dado à toa para aquela situação. O sentimento de perda ainda está no coração de cada um que vivenciou esse período obscuro na história do Vale do Itajaí.
“Sobrevoei o Vale do Itajaí em meio ao caos. Do helicóptero, consegui enxergar a grandiosidade do problema. Se não tivesse visto de perto, acho que eu não acreditaria que a nossa região se encontrava naquele estado. Olhar para baixo e saber que no meio de toda aquela destruição havia pessoas sem vida, me fez chorar”. As frases são de Adilson Schmitt, prefeito de Gaspar entre 2005 e 2008, e representam bem seu sentimento ao encerrar o mandato dias após o maior desastre já registrado na história do município.
Choveu em agosto, setembro, outubro e novembro daquele ano. Quando não havia temporais, a cidade lidava com aguaceiros e chuviscos. Os dias de sol eram raros, o que impedia o solo de secar completamente. A população chegou a se acostumar com o clima nublado e úmido. O céu fechado servia de cenário para o fenômeno que veio a ser conhecido como tragédia logo depois. Adilson Schmitt lembra com precisão do penúltimo mês de 2008. “Começou com uma avalanche no Sertão Verde. Depois, foi para a explosão do gasoduto. Em seguida, vieram os desbarrancamentos e enchentes em várias localidades”.
Assim como nas outras cidades do Vale do Itajaí, a Defesa Civil de Gaspar não tinha estrutura para lidar com uma situação de grandes proporções. “Eu criei esta pasta em 2005. Não tínhamos a tecnologia dos dias de hoje e também faltava treinamento. Mas, a minha equipe não sossegou. Trabalhamos dia e noite para elaborar estratégias. Começamos dando atenção para a retirada das famílias dos lugares que ofereciam riscos. Graças à ajuda de muitas entidades foi possível diminuir um pouco do impacto da catástrofe e ter forças para recomeçar”.
A ação conjunta do Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Civil e demais órgãos estaduais e federais, segundo Adilson, foi primordial para lidar com a tragédia. “Aquilo tudo veio como uma bomba. Precisávamos colocar ordem e, então, montamos uma Central de Comando, no auditório da prefeitura. Me reuni com o comandante dos bombeiros, major Fragas; delegado Paulo Koerich; e o comandante da PM, Pimentel. Aí começamos a elaborar estratégias que, com certeza, ajudaram muito”, detalha.
O ex-prefeito lembra de como foi conturbado o período da catástrofe. “Minha casa pegou enchente, mas, enquanto prefeito, eu tinha o dever de olhar por toda a cidade. Não bastasse a tristeza de perder tantas pessoas, o resgate dos cadáveres era muito difícil. Para encontrá-los, foi preciso andar em cima aos escombros e escavar a grande quantidade de terra que desbarrancou e tomou conta das ruas. Se locomover de uma região para outra era também uma preocupação. Não dava para esperar a chuva passar. Era necessário agir rápido”.
Hoje, dez anos depois, Schmitt reflete sobre os acontecimentos. “A gente aprende muita coisa. Olhar para aquele povo assustado e mesmo assim se encorajando para ajudar o próximo é algo indescritível. Falo isso não só dos gasparenses, mas também dos ilhotenses, brusquenses, blumenauenses e catarinenses em geral. Estavam cansados, doloridos, exaustos e jamais pararam de lutar. Todos buscavam forças e se solidarizaram. Somos parte de um povo corajoso”.
“O evento começou na madrugada do dia 22 de novembro, quando, às duas horas da manhã, recebemos o primeiro chamado. Dali pra frente, a situação só piorou”. Dez anos se passaram e a tragédia de 2008 é viva na memória de Luiz Mário da Silva. Ele, que era o diretor da Defesa Civil de Gaspar, estava na pasta há poucos meses e logo teve o desafio de encarar a maior tragédia registrada na cidade: foram quase 55 mil pessoas afetadas, 21 abrigos abertos, sete mil pessoas em abrigos e quatro mil desabrigados que procuraram refúgio na casa de familiares, amigos ou conhecidos.
Na agricultura, foram perdidos mais de 16 mil toneladas de grãos, 500 cabeças de gado e outros animais de grande porte e 990 mil litros de leite. 11 escolas e seis postos de saúde foram atingidos e 680 quilômetros de estradas foram danificadas. Os estrago, porém, se tornam pequenos quando comparados a um dano irreparável: 20 pessoas perderam a vida em decorrência da tragédia de novembro de 2008.
De forma atípica, 2008 foi um ano muito chuvoso. Apenas entre os dias 21 e 24 de novembro foram registrados 514,9 milímetros de chuva. O solo ficou encharcado e já não absorvia mais a água que insistia em cair. “Foi uma situação muito pitoresca, porque não foi uma enchente, onde o riu subiu. A água veio dos bairros e pegou o rio já cheio.”, lembra Luiz, afirmando que as áreas mais afetadas foram Belchior, Arraial d’Ouro, Vale da Fumaça e Sertão Verde.
Divisor de águas
Novembro de 2008 se tornou um marco divisor na história da Defesa Civil de todas as cidades da região. “As Defesas Civis estavam preparadas pra enchentes. Ninguém tinha no currículo um atendimento desse nível. Eu acredito que os próprios bombeiros, que trabalham com busca e salvamento, não tinham essa especialização. Essa prática de fazer salvamento de pessoas soterradas”, salienta Luiz.
A falta de preparo da cidade para uma situação deste tipo foi somada a outra questão delicada: a Defesa Civil de Gaspar era composta apenas pelo diretor, que acionava, em casos de emergência, a Comissão Municipal de Defesa Civil. “Na época, trabalhávamos mais o assistencialismo. Hoje, se trabalha de forma diferente. Atuamos com a preparação, prevenção, resiliência, resposta e também reconstrução. O ciclo é completo. Na época, não se tinha condições de atuar dessa forma. Ou você atendia as pessoas ou trabalhava em programas”, compara Luiz, que atua há quase 12 anos na Defesa Civil de Gaspar e hoje é agente da pasta.
Em tantos anos de profissão, Luiz já passou por diversos treinamentos a nível estadual e nacional. Porém, ele afirma que o principal foi em novembro de 2008. “O aprendizado foi gigantesco. Foi uma situação triste, que me deixou muito mais sensível com os problemas dos outros. Se algo desse tipo acontecesse hoje, minha resposta e minha reação de gerenciamento seriam bem mais eficazes. Eu saberia como organizar e dividir tarefas, o que não foi possível na época por não termos uma equipe para isso”, garante.
Há um ditado popular, de autor desconhecido, que com sabedoria afirma: “Mar calmo não faz bom marinheiro”. Sem nunca ter vivenciado nada parecido, a Defesa Civil de Ilhota precisou aprender a dar a volta por cima na marra. Até 2008, se tinha pouco conhecimento e rasa capacitação para lidar apenas com enchentes. Mas, contornar esse fenômeno somado às enxurradas, desbarrancamentos e soterramentos era algo que jamais passou pela cabeça dos profissionais que trabalhavam na pasta.
Roberto Carlos Merlini, agente na época e coordenador da Defesa Civil hoje em dia, afirma que aquela realidade pegou todos de surpresa. “Não estávamos preparados para tal evento. Na nossa cabeça, daria uma enchente e, logo em seguida, voltaria tudo ao normal. A equipe teve que aprender de forma impactante, na prática”.
Do dia para a noite, Ilhota se viu em estado de calamidade. Pessoas mortas, áreas isoladas e bairros inteiros destruídos. No primeiro momento, foi priorizada a abertura de abrigos para as pessoas atingidas. Merlini conta que tudo aconteceu com muita rapidez. Na sua opinião, um dos momentos mais marcantes, registrado logo no início da tragédia, foi a queda de uma residência no dia 21. Porém, as piores notícias foram confirmadas numa manhã de domingo, 23 de novembro. Havia grande quantidade de desaparecidos, a maior parte na região conhecida como Complexo dos Baús. Imediatamente, 14 bombeiros voluntários foram até o local ajudar no resgate. “Também entramos em contato com a Defesa Civil Estadual. O coronel Márcio Luiz Alves prontamente nos enviou a ajuda necessária. No dia seguinte começaram as procuras com o auxílio de helicópteros. O maior salvamento aéreo já realizado foi na quarta-feira, totalizando 485 resgates por 21 aeronaves”.


Prevenção. No dicionário, a palavra significa ‘conjunto de atividades e medidas que visam evitar possíveis danos’. O termo resume bem o trabalho da atual Defesa Civil de Gaspar. Frente à pasta há quase dois anos, o superintendente Rafael Araujo de Freitas é bem claro quanto ao seu objetivo maior: minimizar os impactos de possíveis desastres no município. Ele trabalha com prudência a preparação antecipada e uma das estratégias utilizadas pelo profissional é focar no treinamento de sua equipe. A missão é desafiadora, tendo em vista o triste marco histórico que carrega a cidade Coração do Vale do Itajaí.
O planejamento de um futuro mais seguro para a cidade é levado à risca. “Trabalhamos incansavelmente. Afinal, a prevenção é o mais poderoso instrumento para reduzir riscos. Geralmente, as ações preventivas são baratas e atingem todos os grupos da comunidade. Agora, temos o projeto ‘Defesa Civil na Escola’, que atua com crianças; o ‘Agente Mirim’, que prepara os adolescentes; o grupo de voluntário; e o Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil, que vai capacitar profissionais para fazerem vistorias, prestar atendimentos e ajudar a comunidade em situações de anormalidade”.
“Fiquei inseguro pela situação em que a pasta se encontrava”
Ao assumir a Defesa Civil de Gaspar em janeiro de 2017, o superintendente se deparou com a falta de voluntariado, recursos humanos, materiais e programas de prevenção. “Ao chegar, recebi o auxílio de um servidor que, por sinal, é muito técnico e experiente na área. Mas, confesso que fiquei um pouco inseguro pela situação em que a pasta se encontrava”, relembra, afirmando que seu primeiro passo foi aprimorar o atendimento externo. Depois, investir em melhorias no atendimento emergencial com o telefone 199 e dar continuidade a um projeto da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do qual ainda não recebeu o repasse.
Carência de itens técnicos
Já passaram 10 anos desde que Gaspar foi atingida pela grande tragédia. Porém, apesar de notórios avanços na Defesa Civil, a cidade continua carente de itens técnicos, que vão fazer com que os trabalhos na pasta sejam mais eficazes. Exemplo disso é a falta de geólogo, engenheiro, cota de enchente e quadro de agentes para dar continuidade aos programas e ações previstos em Lei.
Equipe
Atualmente, a Defesa Civil de Gaspar possui um coordenador, dois agentes cedidos de outras secretarias, dois estagiários de ensino superior e um de ensino médio. A equipe ainda conta com o apoio de um grupo de voluntários com mais de 120 membros. A pasta tem também parceria com a Diretoria de Trânsito e Corpo de Bombeiros nos plantões e treinamentos.
Tem quem chame de desastre, há os que batizam como catástrofe e aqueles que preferem não nomear o peso dos acontecimentos. Não importa o nome. A verdade é que as perdas causadas pela tragédia de 2008 são irreparáveis e, passada uma década, Gaspar continua buscando forças para se recuperar. Apesar de fisicamente bem, o município ainda enfrenta o luto diante das vidas que foram interrompidas. Junto das demais cidades afetadas pela calamidade histórica, aqui se trabalha a prevenção para que situações como essa jamais se repitam.
Em respeito à toda população gasparense que acompanhou esse pesadelo e, em especial, às vítimas atingidas, a Defesa Civil de Gaspar vem promovendo, durante o mês de novembro, uma programação especial alusiva aos 10 anos da tragédia de 2008.
Palestra com geólogo
Mudanças climáticas e seus efeitos. Esse foi o tema principal da palestra ministrada pelo geólogo Juarês José Aumond. Ele, que além graduado, mestrado e doutorado na área, também é professor universitário, dividiu seu conhecimento com a comunidade gasparense no dia 7 de novembro, na Câmara de Vereadores de Gaspar.
Lançamento do NUPDESC
Descentralizar a Defesa Civil. É com esse intuito que o município vai investir nos Núcleo Comunitário de Proteção e Defesa Civil (NUPDESC) a partir do próximo ano. A ideia é ter profissionais capacitados em todas as regiões da cidade para fazer vistorias, prestar atendimentos, realizar atividades de prevenção e ainda ajudar a comunidade em situações de anormalidade. O lançamento do projeto foi no dia 20 de novembro.
Voluntários passam por treinamento em meio à mata


Nos dias 10 e 11 de novembro, o grupo de voluntários da Defesa Civil participou de um acampamento no parque Mata Nativa, no bairro Gasparinho. O objetivo foi treinar a equipe para situações delicadas. “Nossa finalidade foi capacitar os participante para que possam auxiliar os socorristas em situações de emergência. Queremos tornar Gaspar mais eficiente e preparada para enfrentar essas questões caso seja necessário”, explica Rafael Araújo de Freitas, superintendente da pasta.
Ao todo, 20 voluntários participaram da experiência, que teve início às 5h de sábado, dia 10 de novembro, quando o grupo saiu da frente da Prefeitura de Gaspar e caminhou até o local do acampamento. A caminhada teve cerca de 7 quilômetros e durou quase duas horas. A chegada foi registrada por volta das 6h50, quando aconteceu o hasteamento da bandeira, a revista nas mochilas para recolher os alimentos e também foram repassadas as instruções sobre os momentos seguintes.
Os integrantes receberam diversos treinamentos e foram colocados à prova em locais de difícil acesso. Durante o treinamento, quatro participantes desistiram antes do término e 16 concluíram todas as provas.
Conforme destaca Rafael, a ideia deu mais do que certo. “O resultado foi muito positivo. Só quem passa por um treinamento com este que sabe. Foi uma experiência indescritível. As pessoas superaram seus limites de forma voluntária, se dedicaram a isto por uma boa causa. Ficaram sem comer por muitas horas, extremamente cansados, em meio a chuva e lama, caminhando dia e noite. Agradeço a colaboração de todos os profissionais responsáveis pelas oficinas, voluntários da Defesa Civil, bombeiros militares e comunitários e Ditran”.
Para a voluntária Rosiane Fernanda Machado, o treinamento se aproximou muito da realidade. “Recebemos as instruções dos monitores, aprendemos, praticamos, nos doamos ao máximo. É um trabalho que, por livre e espontânea vontade, abrimos mão de estar com nossa família, no aconchego do nosso lar, para estarmos preparados para ajudar pessoas que não tiveram o direito de escolha e simplesmente tiveram que deixar tudo para trás em busca da sua segurança e de sua família”, conta.
Fazer história é viver o presente, lembrar do passado e projetar o futuro. Desde quinta-feira, 22 de novembro, os gasparenses que passam pela Praça Getúlio Vargas, no Centro, têm a oportunidade de unir os três tempos. Isso porque a Defesa Civil inaugurou um memorial em homenagem às vítimas da tragédia de 2008.
O objetivo do memorial é registrar quanto a cidade coração do Vale do Itajaí lutou para continuar batendo. Foi uma batalha difícil e deixou marcas. E as maiores, sem dúvida alguma, são as 20 vidas que se encerraram naquele triste episódio da história. Vidas estas que merecem consideração, saudações e, sobretudo, respeito. A homenagem também tem a finalidade de sinalizar a passagem de uma década desde os tristes acontecimentos, além de indicar a força do recomeço. Outra intenção é valorizar as famílias que pra sempre vão carregar com amor seus entes falecidos.
A iniciativa foi possível a partir da colaboração de empresas como a Britagem Barracão, Alumetaf e Rocha Pedras.
Falecidos em Gaspar:
Alcido Oecksler
Armando Bauer Liberato
Charles F. Lima De Ramos
Daniel Krause
Débora Mendonça De Oliveira
Elienai Mendonça De Oliveira
Erna Iolanda Cypriano
Ester Mendonça De Oliveira
Franciele Mendonça
Jacinto Pitz
Jéssica Cavalheiro
Luis Fernando Oecksler
Mara Aparecida Freitas
Maria Marlene Mendonça
Ordilei Backmann
Osvaldo Piske
Pedro José Corrêa
Ricardo Pitz
Teresa Barbosa
Zigfritz Taihetch
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Qualquer dano material causado pela catástrofe se torna mínimo se comparado à morte de dezenas de pessoas. Cada vítima fatal da tragédia possuía uma história. Bebês perderam a oportunidade de crescer, crianças foram impedidas de brincar, adolescentes tiveram seus sonhos cancelados, adultos não puderam mais planejar o futuro e idosos acabaram privados de aproveitar a melhor idade.
Em respeito às 32 pessoas falecidas em Ilhota em 2008, decorrente dos soterramentos registrados em diversos pontos, principalmente na região do Baú, a prefeitura preparou algumas homenagens. A primeira aconteceu na quarta-feira, 21, na Câmara de Vereadores ilhotense. Na ocasião, foram homenageados os profissionais e entidades que atuaram nos resgates.
Nessa sexta-feira, dia 23, a Igreja São Pio X terá uma missa especial, a partir das 19h30. No sábado, dia 24, a Igreja Nossa Senhora da Glória, no Braço do Baú, vai receber a comunidade em duas oportunidades: um evento com a Defesa Civil Estadual, às 14h; e uma celebração religiosa com o bispo Dom Rafael e o pastor Elimar, às 16h. Para eternizar as homenagens, o Alto Baú, uma das regiões mais afetadas pela catástrofe, vai receber um memorial em honra às vítimas fatais da tragédia. A inauguração vai acontecer às 17h30, também no sábado.
Falecidos em Ilhota:
Adelaide Harbes
Aline Cristina Bar
Antonio Roberto Richart
Aparecida Dossi Richart
Augusta da Rocha Richart
Bárbara Cristina Richart
Deonilda Seberino
Giane Richart
Joana Maria Annater
João Pedro da Silva
José Jaime Bachmann
José Roberto Richart
Josemar Bachmann
Larissa Schwambach
Larissa Tolardo Sabel
Laudelina Zabel
Leandro Marildo Bachmann
Lindomar Rodrigo Bachmann
Luis Paulo Hostim
Marcelo Zabel
Maria Tatiana Hostim
Marineia Martendal Schwambach
Marques Zabel
Nelson Galdino da Silva
Nilma Karl Lana
Nivaldo Karl
Norberto Karl
Rodolfo Harbes
Savio Bachmann
Sueli Terezinha Bar Bachmann
Tione Loss Zabel
Vitorio Bar
O relógio marcou meia noite e deu início ao dia 24 de novembro. A madrugada seguia o ritmo das anteriores, com a chuva forte indicando novos transtornos. Na região do Braço do Baú, em Ilhota, muitos desbarrancamentos já haviam sido registrados. Alguns chegaram a levar residências e deixar pessoas feridas. Sabendo também das enxurradas, o coração de cada morador daquele bairro carregava a sensação de que o fim de 2008 não seria positivo.
A comprovação de que a tragédia estava só começando veio rápido. A casa de José Altino Richartz foi atingida em cheio por um deslizamento de terra. Na época, ele cedeu uma reportagem ao Jornal Cruzeiro do Vale e falou com detalhes sobre a pior experiência de sua vida. “Era domingo à noite. Não tinha energia elétrica e, antes de ir me deitar, passei algumas horas observando o nível do rio. Nos primeiros minutos da segunda-feira, começou o terror”.
Um forte estouro, seguido de um grito, foi ouvido pelo ilhotense. O gemido era de sua esposa, Augusta da Rocha Richartz, que proferia seu último som após perder a vida ao ter seu lar completamente soterrado. De longe, José Altino escutava outros berros. Com a ajuda da lanterna de um celular, saiu a procura da pessoa que emitia os ruídos. “Cheguei perto da voz e perguntei: quem é que pede socorro?”. Quem respondeu foi a filha, Giane.
Trancada da cintura para baixo, a moça de 27 anos respondeu, já sem forças. Presenciar a cena deixou o pai atordoado. “Fui pedir ajuda ao meu irmão, que morava ao lado. Na rua, eu não conseguia avistar mais sua residência, nem a de meu sobrinho. Então, me dei conta de que a lama tinha levado tudo”, relembra. Vizinhos que conseguiram sobreviver prestaram auxilio ao homem desesperado.
Porém, os momentos de terror estavam longe de ter um fim. Os morros que restaram em pé, em volta da localidade atingida, começaram a tremer novamente. Com medo, os moradores decidiram sair de lá. Mas José Altino não abandonou Giane. Eles passaram a madrugada juntos, na escuridão e embaixo de chuva. “Nos sobrou o amor de pai e filha. Fora isso, tínhamos apenas uma jarra de água limpa e uma vela”.
Com o passar do tempo, a dor da filha foi aumentando e tornando a situação ainda mais triste. “No começo, ela falava pra eu virar um pouco as costas dela, para aliviar dor. Depois, passou a implorar que eu cortasse as pernas dela. Até que, já entregue, pediu que eu a matasse e acabasse com aquele sofrimento”.
Ao amanhecer, os vizinhos retornaram e, finalmente, depois de dez horas, foi possível retirar a jovem dos escombros. “Não tinha sinal de celular. Fomos para todos os cantos do Baú tentando conseguir fazer ligações. Muitas tentativas se foram para que conseguíssemos acionar um helicóptero. Mas ela começou a ficar roxa, gelada, e virou os olhinhos. A Giane aguentou até às 14h30. O socorro chegou duas horas depois”, disse José Altino, em 2008, ao Cruzeiro do Vale.
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“Bens materiais você conquista de novo. Mas, a alma... essa fica com cicatrizes profundas. Daquelas que doem muito, independentemente do tempo que passar”
A angústia da perda da esposa e filha, o patriarca da família carrega até hoje. Quem compartilha do mesmo sentimento de luto é Tatiana Richartz Reichert, irmã de Giane e também filha de José Altino e Augusta. Ela, que não morava com os pais e não teve a sua casa afetada, lutou bravamente para conseguir recomeçar. “Perdi a área plantada, a colheita dos meses seguintes e parte do galpão de armazenamento. Junto com a tragédia se foi o meu sustento”, revela.
Apesar disso, o que realmente marca a mulher é a saudade de parte da família que se foi. “Junto com a minha mãe e irmã, se foram tantos outros... se foram histórias, vidas, sonhos, futuro. Tudo acabou em um estalar de dedos. Tentei transformar meu luto em luta”, diz Tatiana, completando que seu pai foi um herói. “Foi firme e forte, mesmo com a dor de corpo e alma”. Para Tatiana, a tragédia se tornou uma lição de vida. “Bens materiais você conquista de novo. Mas, a alma... essa fica com cicatrizes profundas. Daquelas que doem muito, independentemente do tempo que passar”.
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