Por Jean Laurindo - Em março de 2014, o engenheiro de tráfego José Leles de Souza, de Minas Gerais, esteve durante uma semana em Gaspar para observar a mobilidade urbana do município e elaborar um levantamento técnico sobre a situação do trânsito na cidade. O estudo atendeu a uma solicitação do presidente do Sindicato dos Condutores de Veículos e Trabalhadores nas Empresas de Logística e de Transporte de Carga e Passageiros de Blumenau e Região, o Sintroblu, José Vilmar Zimmermann, que é natural de Gaspar e enxerga nos congestionamentos do município atrasos significativos para os trabalhadores e empresas do transporte de toda a região.
A proposta foi protocolada em 29 de maio de 2014. No dia 9 de junho, após a BR-470 ficar interditada por um problema em uma ponte, que cedeu após um período de fortes chuvas, algumas mudanças previstas no levantamento entregue pelo engenheiro de tráfego foram colocadas em vigor. Após a liberação da BR-470 e uma forte reação da comunidade, porém, uma audiência pública foi realizada e parte das poucas mudanças efetuadas, como a proibição de conversão à esquerda no semáforo entre a Avenida das Comunidades e a rua São Pedro, foi suspensa. As únicas mudanças mantidas foram a colocação de gelo baiano no trecho entre a antiga sede do Corpo de Bombeiros e a antiga Malhas Émerson e a proibição de conversão à esquerda na rua José Rafael Schmitt.
Desde então, a proposta permaneceu parada na Diretoria de Trânsito, Ditran, mesmo com os constantes problemas de congestionamento em toda a cidade. Por enquanto, segundo o órgão, não há qualquer perspectiva de implantação.
Propostas estacionadas
Além de sugestões pontuais para melhorar o fluxo de veículos e pedestres em gargalos da região central de Gaspar, o levantamento entregue como sugestão à Ditran traz orientações sobre como a prefeitura poderia colocar em prática as alterações propostas. Segundo o doutor em Engenharia de Tráfego, o município deveria primeiramente promover uma ampla divulgação na cidade sobre a necessidade de ajustes no sistema viário.
Em seguida, a orientação era a realização de três audiências públicas com a comunidade: a primeira para destacar os problemas e solicitar sugestões, a segunda para apresentar um resumo das sugestões e estudos técnicos sobre elas e a terceira para sugerir uma proposta final, já com cronograma de implantação.
O passo a passo sugerido ao órgão de trânsito ainda envolve a implantação gradativa, períodos de experiência e pesquisas de satisfação após dois ou três meses das modificações. A criação de um programa permanente de educação no trânsito também integra as orientações básicas listadas no estudo para o município.
Confira nos quadros abaixo algumas das mudanças propostas no estudo de tráfego sugerido para a Ditran de Gaspar:
Sugestões
Ponto 1: Rua Coronel Aristiliano Ramos, próximo ao Posto do Julinho
- Criar uma área de convergência, ampliando o tempo para se fazer a manobra dos veículos
- Introduzir redutores de velocidade na rua Coronel Aristiliano Ramos, nas proximidades do posto de gasolina e também antes do acesso ao Morro da Igreja, gerando um espaçamento no tempo entre o veículo que está no cruzamento e o veículo que chegará ao cruzamento.
- Ajustar as faixas de pedestre para que o pedestre tenha o ciclo completo da travessia. Se julgar necessário, adotar as barreiras de orientação para a passagem do pedestre.
Ponto 2: Avenida das Comunidades, no semáforo da rua São Pedro
- Proibir a conversão à esquerda na área do semáforo, nos dois sentidos, tanto de veículos leves quanto de ônibus. A intervenção viária pode ocorrer com o uso de divisores físicos da pista;
- Implementar uma passarela na região onde há o semáforo para a passagem segura dos pedestres;
- Na área dos estacionamentos, observar a distância mínima de calçada para a passagem segura do pedestre. Onde o espaço não se mostrar suficiente, eliminar o estacionamento em 45° e transformá-lo, quando possível, em 180°.
Ponto 3: região da Linhas Círculo
- Avaliar a real necessidade e utilidade do atual trecho de ciclofaixa existente, com o viés de eliminação deste;
- Implementar barreira física na área onde ocorre a conversão de entrada e saída do estacionamento da padaria Pão de Mel;
- Inverter a direção de circulação da rua Prefeito Leopoldo Schramm, permitindo o acesso para quem vem da Linhas Círculo. Com essa mudança, fica eliminada a conversão à esquerda que havia no sentido Linhas Círculo.
- Nos horários mais críticos, orientar a passagem de pedestres (em blocos), com a presença do corpo técnico de fiscalização.
Ponto 4: entrada da rua Sete de Setembro
- Proibir a conversão para a esquerda dos veículos que venham da rua Sete de Setembro. Se necessário, fazer uso de barreira física;
- Para quem vem da rua Barão do Rio Branco e segue em direção à atual rotatória seria permitido apenas a conversão para a direita na região da rotatória.
Ponto 5: Rotatória da rua José Rafael Schmitt
- Uso de barreiras físicas em diferentes trechos da avenida das Comunidades para evitar a conversão em áreas já proibidas pela sinalização horizontal ou vertical (já realizado);
- Eliminar a rotatória existente, fazendo com que as conversões sejam feitas mais à frente;
Transporte público sofre com filas constantes
Ao solicitar o levantamento técnico para o especialista José Leles de Souza, o presidente do Sintroblu, José Vilmar Zimmermann, tinha como principais focos as longas filas registradas em Gaspar, cidade em que nasceu, e os efeitos desses congestionamentos às empresas e aos trabalhadores do transporte de todo o Vale do Itajaí.
Profissionais e companhias do ramo confirmam que as permanentes filas na cidade, sobretudo nos horários de pico, trazem enormes prejuízos para quem trabalha na estrada. O gerente-administrativo da Auto Viação do Vale, Bruno Nunes Corrêa, confirma que os engarrafamentos dificultam muito a organização dos itinerários ao longo do dia no transporte coletivo da cidade. Os piores horários citados são entre 11h e 14h e das 16h às 18h. “As filas atrapalham muito e às vezes nos impedem de fazer a integração no terminal entre o ônibus que vem de um bairro e outro com outro destino. Recentemente tivemos que investir em um rastreador para saber onde os ônibus estão e quanto tempo levarão para chegar, mas ainda assim o trânsito é um grande fator complicador e que não vem recebendo atenção”, afirma. Atualmente, a empresa conta com 38 motoristas e atende 18 bairros da cidade.
A situação não é diferente para quem transita em linhas intermunicipais, como a Viação Verde Vale. O chefe de tráfego da empresa, Rogério da Silva, confirma que o início e o fim da tarde são os horários mais críticos e afirma que há três grandes gargalos para os ônibus da empresa: o trevo da Parolli, o semáforo da rua São Pedro e o trecho em frente a Linhas Círculo. “Alguns ônibus chegam a levar de 20 a 25 minutos para fazer esse pequeno trecho. Os passageiros reclamam muito, e com razão. Se houvesse ao menos um guarda coordenando o trânsito nesses pontos piores já ajudaria demais”, clama.
Ditran pretende esperar conclusão da nova ponte
A reportagem procurou o ex-diretor de Trânsito, Jackson dos Santos, que respondia pela Ditran na época da entrega das propostas, mas ele não quis entrar em detalhes sobre o assunto. O atual diretor, Dirceu dos Passos, afirmou que precisava “reler” o documento, pelo fato de não estar na Ditran em 2014, e disse que as propostas não fizeram mais parte das discussões do órgão. Ele ressalta que as alterações sugeridas na proposta não foram levadas adiante pela rejeição manifestada na audiência pública de junho de 2014.
“Pretendemos esperar a conclusão da Ponte do Vale porque haverá um impacto no trânsito da região central. Após os carros começarem a circular na nova ponte, vamos poder ter uma visualização melhor do trânsito com essa alteração e reavaliar todos os pontos para saber se vamos ter que fazer mão-única ou limitar peso em algum local”, argumenta Dirceu.
‘Três audiências aumentariam tempo de absorção da ideia’
José Leles de Souza, responsável pelo levantamento técnico do tráfego em Gaspar, se recorda de ter encontrado pontos bastante críticos, como parte da rua Dr. Nereu Ramos, onde são permitidos vários cruzamentos e ainda há uma ciclofaixa.
Desde a entrega do levantamento, Leles afirma que não houve mais contato do município. Sobre a decisão de não levar adiante as sugestões após a rejeição manifestada na primeira audiência, o especialista afirma que a situação poderia ter sido contornada com o cronograma de audiências. Passados 19 meses da entrega do estudo, ele espera que o município retome o trabalho de discutir os problemas do trânsito e estude modificações que possam ter se tornado necessárias nesse período.
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