Crack: Um caminho quase sem volta
Por Fernanda Pereira
As noites em claro e a preocupação em saber por onde anda o filho mais velho não fazem mais parte da rotina de Maria*. Usuário de drogas há cinco anos, o jovem de apenas 23 anos está limpo há sete meses e comemora ao lado da família cada dia que consegue ficar longe do crack, uma epidemia que já está fora do controle das autoridades em todo o país.
O uso descontrolado da droga também é uma realidade em Gaspar. O problema foi denunciado pelo Jornal Cruzeiro do Vale em julho deste ano e mostrado por um programa da RBS TV em meados de setembro e traz a tona uma importante discussão: há solução para as crianças, jovens e adultos que se renderam ao doce sabor desta temida droga?
Para o filho de Maria, a única solução é a força de vontade do próprio usuário e o apoio incondicional da família. ?A família é primordial, pois a gente tenta se tratar, caí, volta a usar, e por isso é preciso ter paciência. Eu estou em tratamento há dois anos, já caí várias vezes. Desta vez está sendo mais fácil, pois meus pais estão ao meu lado?, conta o filho em recuperação.
Toda a instrução sobre como receber e apoiar o filho, Maria e seu esposo obtiveram através do grupo de apoio do Centro de Acolhimento à Drogadição, CAD. Criado no mês de junho, o grupo é coordenado por Ricardo Ramos, ex-usuário de drogas e terapeuta em dependência química, e reúne pais, amigos, familiares e usuários para momentos de troca de experiências e reflexão.
Para Ricardo, além da vontade do usuário e do apoio da família, o viciado também encontra ajuda na espiritualidade para se desfazer do vício. ?Posso afirmar que 90% das pessoas que se livram do vício é porque tiveram uma experiência espiritual?, aponta o ex-usuário, que se encaixa dentro das próprias estatísticas.
Embora os efeitos devastadores do crack sejam conhecidos, nem mesmo os especialistas mais experientes possuem uma receita eficaz para tratar os usuários dessa droga.
Uns indicam internação, outros medicação, e assim por diante. Para Ricardo, cada caso precisa ser analisado, mas uma coisa é fato: o usuário que quer deixar a droga precisa mudar seus hábitos, lugares que frequenta e muitas vezes até seu circulo de amizades para poder enxergar uma saída.
*O nome foi trocado para preservar
a identidade da família.
Grupo oferece apoio aos familiares, amigos e usuários
É em uma grande sala situada no Gascic que o grupo de apoio do CAD se reúne todas as noites de terça-feira. O encontro inicia às 19 horas e pouco a pouco os participantes vão chegando e se acomodando.
Sob as coordenadas do terapeuta em dependência química, Ricardo Ramos, os participantes ouvem palavras de conforto e instrução e depois são convidados a falar. É no grupo que muitos deles conseguem se abrir, colocar para fora todas as mágoas, dores e dúvidas trazidas junto com a entrada da droga na família.
O grupo se reúne desde junho deste ano e para muitos participantes já tem trazido grandes resultados. ?Aqui nós aprendemos como lidar com a droga e aceitar nossos filhos. É um espaço muito bom e que poderia ser melhor aproveitado pelas famílias, pois sabemos que muitas famílias enfrentam problemas com a droga e não procuram ajuda?, comenta o marido de Maria.
Além de Ricardo, uma psicóloga voluntária faz parte do grupo e ajuda os participantes com suas necessidades. ?O grupo une a família e o usuário. Não adianta tratar o usuário sem tratar a família e aqui eles podem ser acompanhados por profissionais e assim resgatar os vínculos arrebentados pelo crack?, explica a psicóloga Ana Lúcia de Alencar Zimmermann.
Tudo começou pela influência dos amigos
O primeiro cigarro de maconha foi experimentado logo depois que o filho de Maria saiu da escola. Sem precisar estudar, Paulo*, então com 18 anos de idade, tinha mais tempo para estar com os amigos e foram eles que o apresentaram para a ?inofensiva? maconha.
Do pequeno baseado para chegar no crack foram apenas alguns meses. ?Logo a maconha já não tinha mais graça, daí começamos a usar misturada com cocaína, depois só a cocaína, até que veio o crack. O ruim é que ele é bom e a gente não consegue mais largar?, conta o jovem.
Durante três anos Paulo conseguiu esconder o vício da família. Apesar de trabalhar como segurança em boates e estar acostumado a ver jovens sob os efeitos da droga, o pai de Paulo não percebeu que o próprio filho afundava sozinho no escuro mundo do crack. ?Eu achava que não ia viciar. Comecei a usar para fazer parte da turma, porque meus amigos usavam e também porque tinha curiosidade. Por sorte, foi por exemplo de um amigo que comecei a buscar ajuda?, conta Paulo. Depois que um dos amigos se internou, Paulo decidiu abrir o jogo para a família, que apesar do choque, decidiu levá-lo para a internação.
A luta para se livrar do vício já segue há dois anos, mas Paulo está otimista, e já faz planos para uma vida livre do vício. ?Quero usar minha experiência para educar meus filhos e evitar que eles façam as escolhas erradas que fiz?, planeja.
*Os nomes foram trocados para preservar a identidade da família.
Município oferece tratamento para quem quer se livrar do vício
Meu filho não tem mais jeito. Não tenho dinheiro para tratá-lo, então nem adianta pedir ajuda. Não adianta buscar ajuda porque a gente não consegue nada. Estes são apenas alguns pensamentos de muitas mães, pais, tias, tios, avós, e amigos de usuários de drogas da cidade, que acabam impedindo e atrapalhando a recuperação daqueles que anseiam por uma luz no fim do túnel para se livrar do vício.
Edinei de Souza, secretário de Assistência Social, explica que há sim ajuda no município para levar à recuperação aqueles que lutam para se livrar do vício do crack e outras drogas. ?Foi exatamente para atender estas demandas que criamos o Centro de Acolhimento à Drogadição. O CAD é a porta de entrada para o usuário ou familiar e está aberto para todas as famílias. Lá todos são ouvidos e encaminhados aos tratamentos adequados?, explica Edinei.
O CAD funciona no Gascic e é coordenado pelo terapeuta em dependência química Ricardo Ramos, mesmo responsável pelo grupo de apoio do município. O trabalho funciona em parceria com o Caps, onde o usuário que busca tratamento é encaminhado para consulta com especialistas, que dirão se o jovem precisa de internamento ou apenas medicação e tratamento em grupo.
Segundo Edinei, quando o usuário está ligado a situações de emergência, como violência contra criança, idoso, adolescente ou mulher, ou quando já se envolveu em algum ato infracional, ele é diretamente encaminhado ao Ministério Público, que tomará as medidas judiciárias, que normalmente determinam o internamento em alguma instituição conveniada. Muitos jovens usuários de Gaspar são enviados para o Creta, onde ficam internados pelo período de nove meses.
O internamento também acontece nos três centros de recuperação da cidade ? Jovens Livres, Monte das Oliveiras e Novo Rumo - com os quais o Município possui convênios para atendimento gratuito aos usuários da cidade.
Para Edinei, a internação e tratamento se apresentam como a solução para os jovens que já estão envolvidos com o crack e outras drogas, porém, é preciso investir em programas preventivos que evitem que mais crianças e adolescentes caiam no mundo do vício. ?Projetos esportivos, palestras, orientações, são alguns dos caminhos que podem evitar o contato das novas gerações com a droga?, aponta.
Alguns dados sobre o crack
Um estudo recente realizado pelo psiquiatra Pablo Roig, especialista no tratamento de dependentes da droga, e apresentado durante o lançamento da Frente Parlamentar Mista de Combate ao Crack, na Câmara dos Deputados, em Brasília, revelou que hoje pelo menos 1, 2 milhão de pessoas usam crack no Brasil.
A droga já é a mais temida pela sociedade e é considerada pelos especialistas como a mais perversa. Por ser inalada, atinge diretamente o pulmão e o cérebro em cerca de oito segundos. Como o efeito é rápido, o usuário quer consumir cada vez mais, para manter a sensação de prazer constante. Com a frequência, o usuário se torna dependente em menos de cinco vezes de utilização. As últimas pesquisas sobre a droga mostram que em geral 30% dos usuários de crack morrem nos primeiros 5 anos de uso.
O beijo da morte
Por ser doce e de sabor agradável, o crack é considerado pelos usuários como o beijo da morte. ?Chamamos assim pois na primeira vez que usamos temos vontade de consumir mais e mais, e por isso ficamos viciado sem perceber?, conta A.U.R, 23 anos. Usuário há cinco anos, o jovem também participa do grupo de apoio do CAD e tem na namorada o apoio e suporte para vencer as tentações trazidas com a droga.
?A gente namora há nove meses, mas eu o conheço há anos, acompanhei de perto as madrugadas em que ele estava na rua, em busca da droga. Fiquei sabendo do grupo por uma amiga, que trouxe o ex-namorado, então decidi trazê-lo e agora ele está conseguindo ficar longe do vício?, conta a namorada.
Para A.U.R, o grupo tem ajudado muito a se manter limpo. ?Tenho vontade de usar direto, mas preciso ser forte. Já fui internado, voltei, caí. Mas agora vou me manter firme?, conta o jovem, que foi internado com a ajuda do município.
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