IDEB: Números mostram realidade atual das escolas de Gaspar - Jornal Cruzeiro do Vale

IDEB: Números mostram realidade atual das escolas de Gaspar

26/09/2014

fotopg8abre1colorMD.jpgPor Ana C. Bernardes

O que garante a qualidade do ensino de uma instituição escolar? Boas notas nas avaliações? Estrutura física adequada? Atividades pedagógicas diferenciadas? Comprometimento de alunos e professores? As respostas para esta complexa questão são muitas e todas podem estar, em parte, corretas. Porém, cada escola possui particularidades, fator indispensável na hora de determinar o que poderá contribuir para o aumento dos resultados como unidade educativa.

Na Escola de Educação Básica Ferandino Dagnoni, localizada no bairro Gasparinho, em Gaspar, esta mesma pergunta foi feita aos diretores, pais e professores em meados do ano de 2012. Naquele ano, a instituição recebeu um dos piores índices do município no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, Ideb. Para tentar reverter a situação e mostrar que o educandário poderia chegar à meta projetada pelo governo federal em 2014, quando seria divulgado o próximo Ideb, a gestão de escola passou a repensar as estratégias pedagógicas e a elaborar novas ações.

O plano de mudanças trouxe resultados e a escola teve o maior avanço do município no índice de 2013, divulgado no início deste mês. Na educação infantil, do 1º ao 5º ano, o Ideb passou de 4,7, em 2011, para 6,9, em 2013, o maior índice da cidade. Já nos anos finais, do 6º ao 9º ano, a pontuação aumentou de 3,8, em 2011, para 5,2, em 2013. Os números mostram a importância de se rever as estratégias de educação e trazem à escola a missão de continuar superando os resultados.

Conforme explica a diretora da escola, Simara Nicoletti Maraschi, houve a necessidade de repensar toda a proposta pedagógica da escola para entender o que havia contribuído para a baixa nota no Ideb em 2011. Para isso, a equipe procurou realizar ações que pudessem aumentar a participação familiar na vida escolar dos alunos. ?Notamos que era necessário fazer um resgate da família na escola, algo que estava perdido. Então trouxemos os pais para as palestras, reuniões e teatros, para realmente verem a escola com a verdadeira função, que é a de ensinar e promover uma educação de qualidade. Fizemos isto porque a escola sozinha não consegue alcançar qualidade de ensino se não tiver participação das famílias?, defende. Após perceberem essa dificuldade, a instituição de ensino criou o projeto ?Pais na Escola?. Todos os meses, os pais de alunos de determinadas turmas são convidados a passar o dia na escola com seus filhos, acompanhando as aulas, fazendo as atividades e participando de toda a rotina educativa. Ao final, eles elaboram um relatório contando a experiência. ?O projeto foi criado em 2011 e já temos mais de 300 relatórios de pais?, comemora.

Salas ambientes

Além dessa mudança, outro trabalho que teve início na escola logo em seguida foi o resgate dos estudos. Professores e direção perceberam que já não havia uma rotina de estudos nem um incentivo que fizesse com que os alunos entendessem a importância de se dedicar por completo à aprendizagem. Por este motivo, a verba recebida pelo Governo Federal, em consequência do baixo índice do Ideb 2011, foi investida na instalação de salas ambientes, compra de jogos pedagógicos, aquisição de mapas e montagem de bancadas de ciências e artes. Com as salas ambientes, projeto que ainda é pouco conhecido nas escolas do município, os alunos dos anos finais mudam de sala conforme a disciplina. Dessa maneira, cada disciplina possui uma sala equipada com todos os materiais e equipamentos necessários. ?Fomos investindo em material pedagógico, melhorando a estrutura e também investimos na formação de professores. Ou seja, conseguimos fazer um trabalho com professores, pais e alunos?, destaca Simara. Em pouco tempo, os resultados das mudanças e melhorias feitas nas escolas começaram a aparecer e foram confirmados com a divulgação no índice do Ideb. Hoje, quando são realizadas reuniões para os pais, o número de participantes chega a mais de 150. Antigamente, esse número não chegava a 30. Além disso, a taxa de alunos aprovados, fator que também influencia os números do Ideb, começou a aumentar. ?Em 2011, a nossa taxa de reprovação era muito grande e hoje já conseguimos mudar isso. Claro que essa mudança é consequência do nosso incentivo ao estudo?, aponta.

Mudança no tempo das aulas

O resultado do Ideb 2013 foi motivo de comemoração para Simara e toda a equipe escolar. Entretanto, a diretora enaltece o fato de o índice ser apenas um recorte da educação brasileira. ?Um aluno não é apenas interpretação de texto e lógica matemática. Ele possui muitas outras aptidões, que não são consideradas na Prova Brasil. Sabemos que o Ideb é valorizado, claro, mas não creio que seja a verdadeira identidade do nosso estudo brasileiro. Continuaremos com nossas ações e tentaremos manter esse índice, mas esse não é um número capaz de representar nossa escola?, ressalta. A próxima Prova Brasil acontecerá em meados de novembro de 2015 e os resultados serão divulgados em 2016. Até lá, Simara afirma que todos os trabalhos já iniciados serão mantidos e que novas propostas devem ser implantadas. Entre elas a mudança de tempo escolar, já que cada aula possui duração de 45 minutos. Segundo a diretora, este tempo nem sempre é suficiente para o aluno iniciar e terminar uma atividade. ?Em junho, começamos a estudar a ideia de fazer as aulas geminadas, ou seja, todas as aulas de determinada disciplina em um só dia?, conta. O projeto experimental teve início nesta semana com as disciplinas de Português, Inglês e Matemática. A mudança se estenderá durante todo o trimestre e, ao final do ano, será realizada uma enquete com os alunos para ver se eles acharam benéfica e se deve ter continuidade. Esta ação é inédita nas escolas municipais da cidade. Hoje, a Ferandino Dagnoni conta com cerca de 460 alunos.

Projetos envolvem pais e alunos

Para ajudar na evolução dos trabalhos desenvolvidos na escola, a direção passou a contar com o apoio dos próprios alunos e também dos pais. O Grêmio Estudantil foi formado e hoje é responsável por promover projetos e melhorias no ambiente escolar. Conforme explica a atual presidente do grupo, Jennifer da Silva Alves, 14 anos, os oito integrantes do Grêmio Estudantil são responsáveis por administrar o projeto de reciclagem do educandário, onde os alunos levam materiais reciclados que serão encaminhados ao destino correto. ?Ao final do ano, levamos 20 alunos que mais ajudaram na ação ao cinema. É um incentivo e vem sendo importante para a escola?, destaca. Além desse, outro projeto desenvolvidos pelos adolescentes é a Rádio Recreio, que transmite músicas e recados aos estudantes durante o intervalo. Recentemente, o grêmio também foi responsável por criar um pequeno espaço com árvores no meio do pátio, para que os alunos possam passar o recreio. ?Esse é nosso último ano e achamos importante deixar algo que faltava para os próximos alunos. Temos apoio da direção e professores para tudo, o que ajuda muito?, afirma. Outra organização forte na escola é a Associação de Pais e Professores, APP, que conta com a participação de diversos pais. Desde 2012, os trabalhos da associação passaram a ser reforçados e hoje os pais que participam estão presentes também em projetos e decisões da unidade de ensino. ?A nossa nota no Ideb 2013 foi algo de grande importância para nós, pois participamos disso, participamos das melhorias na escola. Hoje, todos são muito presentes e se esforçam para levar a escola para frente?, conta a atual presidente da APP, Teresinha Testoni Bonetti. 

Números mostram avanço

mg4052MD.jpgOs números da educação básica em Gaspar mostram avanço nos últimos anos. Prova disso são os recentes resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, Ideb, divulgados no início deste mês. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, do 1º ao 5º ano, o município teve índice de 6,1. Já nos anos finais, do 6º ao 9º ano, o índice foi de 4,8. Os números mostram que a educação básica em Gaspar superou as metas projetadas pelo governo federal para o ano de 2013, quando a Prova Brasil foi aplicada, nas duas categorias. Além disso, a cidade teve média maior que a de Santa Catarina nos anos iniciais na educação pública, que foi 5,9. O mesmo acontece nos anos finais, onde Santa Catarina teve índice de 4,3. O Ideb foi criado em 2007 para medir a qualidade das escolas e das redes de ensino no Brasil. 

O índice de 2013 da cidade apresentou evolução em comparação ao Ideb 2011 e a secretária de Educação, Marlene Almeida, afirma que a função da cidade passa a ser ainda maior. ?Pela primeira vez tivemos um índice tão alto. Estamos felizes pelo reconhecimento do nosso trabalho e, principalmente, do professor. Nossa função, a partir de agora, é ainda mais séria, pois temos a responsabilidade de manter o índice?, ressalta.

Conforme explica a assessora administrativa da Secretaria de Educação de Gaspar, Camila Schreiber, o Ideb é calculado a partir da taxa de aprovação, reprovação e evasão escolar e do desempenho dos estudantes na Prova Brasil, que mede o conhecimento nas disciplinas de Português e Matemática. Por este motivo, é interessante que, de agora em diante, os educadores do município, assim como a secretaria, passem a analisá-lo a partir de cada um desses itens. Assim será possível ter certeza de que a cidade está avançando na qualidade de ensino. ?O interessante é observamos a nota da prova, pois em alguns momentos uma escola pode ter o Ideb alto, mas a nota da prova baixa, ou o contrário. O índice por si só não diz exatamente a qualidade da turma. Ele é bom, nos ajuda a ver os avanços, mas é preciso analisar melhor para saber onde devemos focar o trabalho?, afirma.

Ainda conforme a assessora administrativa, a secretaria procura trabalhar com a questão da evolução dos números dos índices anteriores e não com o aumento ou diminuição de cada educandário.

Índice maior nos anos iniciais

mg4043MD.jpgEm Gaspar, os índices nos anos iniciais do Ensino Fundamental foram maiores em todas as escolas, se comparados aos números dos anos finais. Isto, segundo Camila, acontece principalmente pelo fato de que as taxas de reprovação e evasão nos anos iniciais não acontecem com tanta frequência. Além disso, conforme explica a diretora geral de Educação da cidade, Rozângela Elias, existem muitas políticas públicas voltadas para os anos iniciais, o que faz com que essas turmas estejam à frente com mais facilidade. ?Existe também o fato de os anos iniciais terem apenas um professor regente, diferente dos anos finais onde se pode ter até nove professores. Tudo fica mais dificultoso a partir do sexto ano?, esclarece. ?É importante lembrar que não se pode comparar cada escola, pois as metas projetadas são diferentes. O que importa é olhar se você está avançando ou não?, pondera.

A queda

Somente a Escola de Educação Básica Luiz Franzói não mostrou evolução no Ideb 2013, ou seja, não superou o índice do Ideb 2011 e nem alcançou a meta projetada nos anos finais. A escola obteve 3.7 nos anos finais, contra 4.8 da meta projetada. Isto, conforme explica Camila, pode ser resultado de uma série de fatores, entre eles a mudança de gestão e a elevada taxa de evasão registrada na escola. Porém, a atual diretora, Cíntya Cristina Pacher, afirma não poder responder o que levou a escola a ter uma média baixa por não ter acompanhado os trabalhos nos anos anteriores. 

?Aprendizagem não pode ser fragmentada?

Mesmo com o bom resultado obtido no Ideb 2013, Rozângela esclarece que a concepção de educação utilizada no município não favorece esse tipo de avaliação, pois procura valorizar todas as áreas e não apenas as de Português e Matemática. ?Mas entendemos que o governo federal precisa dessa amostra para fazer as políticas públicas. Só que entendemos que todas as áreas são importantes, pois a aprendizagem é do todo, não é fragmentada?, destaca.

A diretora geral de Educação lembra ainda que existem outros fatores que podem influenciar a média do Ideb. Entre eles, a situação social da comunidade em que a escola está instalada, a gestão escolar e os profissionais. ?Tudo isso é um pacote. O que faz com que aquela escola não dê conta, por exemplo, da evasão. Se é uma comunidade carente, existe muita evasão. O fato é que escola não é só a nota?. Camila completa afirmando que o índice é considerado uma fotografia de uma parte da realidade educacional, capaz de avaliar apenas um pedaço dos educandários. ?Não dá para simplificar como oito ou oitenta. Ele é só uma pista de um pedaço da nossa realidade. Vamos continuar trabalhando, é claro, para que consigamos manter o número, porém nosso foco será sempre a aprendizagem adequada?, assegura.


idebindicecertpGG.jpgEdição 1626

 

Comentários

Joao Oldair Nicoletti
26/09/2014 20:13
Parabéns Sinara pelo grande trabalho realizado por você e sua equipe. É preciso trabalhar duro par podermos colher os frutos de nossa dedicação, e nós pais de alunas sabemos do seu comprometimento em buscar cada vez mais, um ensino de qualidade para nossos filhos.
Parabéns!

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