Idosa sobrevive após dois soterramentos com a ajuda de médico gasparense - Jornal Cruzeiro do Vale

Idosa sobrevive após dois soterramentos com a ajuda de médico gasparense

23/11/2018
Idosa sobrevive após dois soterramentos com a ajuda de médico gasparense

Salvar vidas é a nobre tarefa daqueles que se propõem à medicina. Em novembro de 2008, o médico ortopedista Dr. Walter Heining não pensou duas vezes ao deixar o descanso de lado para ajudar a comunidade gasparense que vivia os piores dias que a história do município já registrou. Na época com 26 anos, Dr. Walter era residente no Hospital Marieta Konder Bornhausen, de Itajaí. Ele havia ficado de plantão a noite toda e, no dia seguinte, deveria seguir rumo à Balneário Camboriú para sua folga. Mas os acontecimentos do dia 22 de novembro fizeram com que ele mudasse a rota e viesse para Gaspar.

Ao chegar, o médico seguiu para o antigo Centro de Acolhimento de Risco (CAR), o único posto de saúde da cidade que estava atendendo. “Cheguei lá e encontrei a enfermeira Bete. Perguntei no que eu poderia ajudar e ela me disse para ficar, pois não havia nenhum médico”. No dia seguinte, os médico Fabrício Strapasson, de Itajaí; e o Dr. João Spengler também foram prestar atendimento na unidade de saúde.

Dr. Walter recorda que a situação era precária, já que o Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro estava fechado e o posto estava com pouco material. “Não tinha material, não tinha anestésico o suficiente, não tinha nada. O pessoal chegava com corte e a gente precisava dar ponto seco. Era operação de guerra mesmo. Ou era isso ou ficava sangrando. E assim nós fomos fazendo”.

Caso dona Mariquinha 

Entre todos os casos vividos durante os três dias em que o médico atendeu no posto de saúde, uma situação o marcou mais. No dia 23 de novembro, uma senhora moradora do bairro Sertão Verde, conhecida por dona Mariquinha, foi levada ao posto de saúde pelo Corpo de Bombeiros depois de ter sido resgada de um soterramento de terra em que ficou presa até os ombros por mais de 12 horas. A mulher havia quebrado as pernas, estava com fraturas expostas e com sangramento na barriga. Precisava ser operada. Como não era mais possível passar para Blumenau por barreiras na pista, a decisão foi de leva-la ao Hospital Azambuja, de Brusque. “Eu conversei com o comando dos Bombeiros e eles afirmara que, para Brusque, ainda não tinha barreira na estrada. Então decidimos que seria melhor ir para lá”.

O que era para ser um caminho simples, porém, se transformou em algo mais difícil. Dr. Walter lembra que cerca de 15 minutos depois de a ambulância sair sentido Brusque o telefone tocou informando que o veículo havia sido atingido por um deslizamento. “Primeiro perguntei se todos estravam vivos. Depois, pegamos uma Fiorino da prefeitura e fomos para lá socorrê-los”, detalha.

A ambulância foi encontrada na subida do morro da antiga boate Bataclan. Curiosos já se reuniam no local para ver o que estava acontecendo quando o médico chegou. “Quando já tinha saído todo mundo de dentro da ambulância, começamos a ouvir alguns estalos”, lembra o ortopedista, contando como é assustador o barulho de um deslizamento de terra. “Antes dela descer, começa o estouro das árvores quebrando. As pessoas começaram a gritar avisando que ia cair mais uma barreira. E caiu...”. Com a segunda queda, a ambulância que levaria dona Mariquinha até Brusque foi totalmente engolida pelo barro.

Aquela altura, não era mais possível chegar em Brusque. O médico entrou em contato com o então prefeito da época, Adilson Schmitt, solicitando um helicoptero para levar a senhora até Blumenau. “Eu disse: Adilson, eu preciso levar essa mulher. Ela vai morrer e a responsabilidade vai ser nossa. Eu preciso de um helicoptero”. O médico destaca que, mesmo sem teto para o helicóptero sobrevoar a regão, o ex-prefeito de Gaspar foi atrás e conseguiu trazer ao município a primeira aeronave que ajudou nos salvamentos, vindo da polícia militar de Joinville.

Situação longe do fim...

Ao contrário do que se possa imaginar, os problemas não acabaram com a chegada do helicóptero. A aeronave deveria pegar a paciente na BR-470, no Posto Pioneiros. Porém, dona Mariquinha já estava muito tempo naquela situação e seus sinas vitais começavam a ficar fracos. “Ela ia morrer e nós estávamos esperando o helicoptero, que não aparecia nunca. Então, decidimos levá-la, de carro, para Blumenau até onde fosse possível.

Em frente ao Bela Vista Contry Club, no bairro Bela Vista, a equipe avistou a aeronave, que pousou e resgatou a paciente. A ideia foi levar a senhora ao Hospital Santo Antônio, para que o helicóptero pudesse pousar no pátio da empresa Sulfabril. Assim, tudo estaria resolvido: a senhora seria deixada no hospital para fazer os procedimento necessários e o médico poderia voltar ao posto para atender outras pessoas. Apesar disso, mais um contratempo surgiu: o piloto pousou no pátio de uma revendedora de carros próxima ao hospital, que estava com o portão do estacionamento fechado. “Por sorte, o segurança de um prédio próximo apareceu com uma alicate e rompeu o cadeado. Ele veio com uma Saveiro e dona Mariquinha foi levada para o hospital, debaixo de chuva. Eu entreguei ela e voltei para ajudar o próximo”.

Depois de todos os imprevistos para salvar dona Mariquinha, o ortopedista não teve mais contato com a paciente. Ele ficou sabendo apenas que ela sobreviveu a todos os contratempos e faleceu por problemas cardíacos há algum tempo.

 

Edição 1878

Comentários

Elieser Pereira
29/11/2018 13:36
MINHA TIA MARIQUINHA...UMA MULHER DE MUITA QUALIDADE...

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