
Dizem que quando chega a hora de partir, não há nada que possamos fazer para mudar o destino. Mas, quando não é a hora, nem a situação mais grave é capaz de tirar a vida daqueles que amamos.
Pode-se dizer que as frases anteriores refletem a história de Altair Armando Rainert, o Tilico. Na noite de 3 de maio, ele foi vítima de uma parada cardiorrespiratória causada por arritmia. Seu coração parou. Mas, uma série de fatores colaboraram para a sua volta: uma ligação certeira, primeiros socorros rápidos, atendimento especializado e muita, muita fé.
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Passava das 22h quando Tilico deitou na cama para assistir a um jogo de futebol. A esposa, Sônia Schmitt Rainert, estava ao lado. Eles rezaram e ela deitou em seu peito. Cerca de dois minutos depois, um barulho respiratório alto e estranho veio dele. O quarto era iluminado apenas pela claridade da televisão. Ela acendeu a luz e se deparou com uma cena que talvez nunca saia da sua memória: o marido estava roxo e não respirava mais.
Os filhos Larissa e Lucas estavam em casa. Não demorou muito para eles também se depararem com o pai naquela situação. O nervosismo tomou conta de todos. “Encostamos a cabeça dele no colchão e o Lucas começou a fazer massagem cardíaca. Na cama mesmo. Eu dizia: ‘não para, não para’. Peguei a chave do carro no impulso de sair para pedir ajuda. Ficamos bobos. Não sabíamos o que fazer”, conta Sônia.
Tudo foi muito rápido. Ela lembra que, ainda com a chave na mão, olhou para a filha e disse: ‘Larissa, concentra. Liga para o tio Gilberto, ele sabe o número de todo mundo’. Sônia se referia ao irmão, que mora a cerca de 250 metros da sua casa.
Exatamente às 22h31, o celular de Gilberto Schmitt tocou. Ele estava dormindo, mas o aparelho estava ao seu lado. Quando pegou o celular nas mãos, havia uma chamada perdida da sobrinha. No momento em que abriu o WhatsApp para mandar um ‘oi’, ela ligou novamente. “Ela disse: ‘tio, corre que o pai infartou’. Lembro de ter respondido: ‘tô indo aí’”, detalha Gilberto.
Segundos depois, Gilberto estava na porta do quarto da filha. O genro é bombeiro militar e estava lá, de férias. Não demorou muito e os dois já estavam na rua. Nos poucos segundos que Gilberto levou para tirar o carro da garagem, o bombeiro Rafael Araujo de Freitas já havia saído correndo debaixo do chuvisco. Ele atravessou a rodovia correu rápido durante todo o percurso.
Em uma ligação que durou menos de um minuto e meio, o Corpo de Bombeiros foi acionado através do 193. Enquanto a guarnição não chegava, Rafael iniciou os primeiros socorros.
Tilico foi tirado da cama e colocado no chão. Ele estava com a saturação e batimentos cardíacos nulos. Não haviam sinais vitais. As pupilas estavam dilatadas. Foram realizadas incansáveis massagens cardíacas. Em determinado momento, Rafael parou. Colocou o ouvido bem perto do peito da vítima e sentiu um respiro bem leve e fraco. Era a esperança que todos precisavam naquele momento. “Ficamos no quarto apenas eu e o Lucas. Era um quadro muito grave, porque ele estava praticamente sem batimentos. Fiz massagem cardíaca de forma incansável. Sabia que se houvesse alguma chance, ela não seria desperdiçada”, lembra Rafael.
A atuação de Rafael é lembrada pela Bombeira Comunitária Michele Testoni, que estava de serviço no dia e atendeu a ocorrência. “Quando chegamos, encontramos a vítima já recebendo os primeiros socorros do Cabo Rafael. Isso fez total diferença para que pudéssemos salvar a vida dele”.
A gravidade da situação fez com que o Samu fosse acionado em ‘Código Vermelho’. Com o uso de um desfibrilador externo, Tilico foi submetido a quatro choques. “Este é considerado um atendimento grave e a atuação da equipe foi essencial para a reanimação do paciente”, garante André Luiz Feldens, Diretor Geral do Anjos da Vida, empresa que coordena o Samu de Gaspar.
O trabalho em equipe resultou na reversão da parada cardiorrespiratória e Tilico foi levado ao Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ainda em estado grave.
Tilico deu entrada no Hospital de Gaspar na noite de 3 de maio e ganhou alta no dia 17. Foram 13 dias na UTI, um dia no quarto e 14 dias de angústia para a família.
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| Com o calendário nas mãos, Sônia e Tilico falam sobre o período em que ele ficou internado |
Dr. Ricardo Beduschi é médico cardiologista. Sua vasta experiência na área o faz afirmar com certeza que “o caso foi revertido graças à massagem cardíaca e a chegada rápida do socorro”.
Em casos de parada cardíaca provocada por arritmia, o coração deixa de bombear sangue para o cérebro e a vítima perde a consciência. “Se essa disfunção não é revertida rapidamente, deixa de haver oxigenação no cérebro e a vítima pode morrer ou ficar com sequelas”, explica.
Conforme informações técnicas repassadas pelo médico, o choque causado pelo desfibrilador reverteu a situação e fez com que o coração voltasse ao normal. “Rapidez é a palavra. Graças à massagem e ao choque, ele teve essa reversão”.
Há cerca de dois anos, Tilico faz acompanhamento médico. Ele tem o coração dilatado, doença que causa a arritmia. Agora, ele aguarda para colocar um marcapasso, equipamento que vai regular sua frequência cardíaca.
Toda profissão tem o seu valor. Mas, salvar vidas está na lista das mais honrosas e valiosas. “Quando conseguimos reverter um quadro tão grave e difícil, a emoção toma conta. É uma alegria. A gente percebe de que tudo o que faz é por amor ao próximo”, detalha a Bombeira Comunitária Michele Testoni.
A mesma alegria é compartilhada pelo bombeiro militar Rafael Araujo de Freitas. “O que fica é o sentimento de orgulho e gratidão pelo trabalho em conjunto. São essas boas notícias que nos motivam. Vemos tantas desgraças, tantas tragédias... e quando conseguimos salvar uma vida é gratificante. Se com um desconhecido ficamos felizes, com um familiar o sentimento é ainda maior”.
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Tilico tem 60 anos e mora no bairro Poço Grande com a esposa e os dois filhos. Trabalhou como cabeleireiro por mais de 30 anos e, há dois, começou a diminuir o ritmo de trabalho. Sempre se exercitou bastante e, entre as atividades que lhe dão prazer estão pedalar, acampar e cuidar do sítio nos fundos da casa. Agora em casa se recuperando, ele cuida mais da alimentação, faz fisioterapia e conta os dias para que seu dia a dia comece a voltar ao normal.
Juntando as mãos e olhando para o alto em forma de agradecimento, Tilico diz que nunca vai esquecer tudo o que fizeram por ele. “Foram muitas orações e pessoas perguntando por mim. Esse carinho todo com certeza ajudou na minha recuperação”.
De uma família de muita fé, a esposa Sônia afirma que todos que cruzaram o caminho para salvar Tilico são anjos. “Fomos agraciados com anjos cruzando o nosso caminho. Tudo deu tão certo que, parando para pensar, chega a arrepiar”.
Passado o susto, a família deixa agradecimentos especiais que merecem ser eternizados:
- Bombeiro Rafael Araujo de Freitas: primeiro a chegar ao local e realizar os primeiros socorros
- Soldado Aellyngton Palandrani, Bombeira Comunitária Michele Testoni e Bombeiro Comunitário Renato Melatto: guarnição do Corpo de Bombeiros que atendeu a ocorrência
- Técnico de enfermagem Robinson Kistner e motorista/socorrista Kledyr Sani: socorristas do Samu que atenderam a ocorrência
- Toda equipe do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro pelo excelente atendimento
- Dr. Gabriel Schmitt: Neurologista residente em São Paulo que acompanhou todo o caso e realizou visitas no hospital
- Dr. Ricardo Beduschi: cardiologista que deu todo o suporte necessário durante a internação e após a alta
- Familiares, amigos e conhecidos que deram força e fizeram muitas orações
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Uma parada cardiorrespiratória pode acontecer em pessoas com ou sem doenças cardíacas pré-existentes. Considerando que a cada minuto nessas condições as chances da vítima sobreviver diminuem, saiba o que fazer se você presenciar um caso de PCR:
- Chame a pessoa: confira se ela responde ou se realmente está desacordada
- Coloque a vítima deitada em uma superfície reta e firme (de preferência o chão)
- Inicie a massagem cardíaca
- Se tiver mais alguém com você, peça que ligue para o Samu no 192 ou Corpo de Bombeiros no 193. Se você estiver sozinho, faça a ligação enquanto realiza a massagem
- Siga todas as orientações repassadas pelo atendente da central até a chegada do socorro
Tenha salvo no seu celular ou guarde em um lugar de fácil acesso números importantes, como do Corpo de Bombeiros e Samu.
Massagem cardíaca: Posicione as mãos sobre o peito da vítima, entrelaçando os dedos, entre os mamilos. Empurre as suas mãos com força contra o peito, mantendo os braços esticados e utilizando o peso do próprio corpo, contando, no mínimo, dois empurrões por segundo.


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