Memórias de quando a régua fazia parte da lição - Jornal Cruzeiro do Vale

Memórias de quando a régua fazia parte da lição

23/06/2023
Memórias de quando a régua fazia parte da lição

Ela tem um sorriso adorável. Aparentemente, é calma. Tem 90 anos, sendo 30 dedicados à profissão. Experiência, sabedoria e energia ela tem de sobra. Quem conversa com a professora Maria Lourdes Fagundes, sempre lembrada com carinho pelos seus ex-alunos, sabe que ela esbanja vitalidade. Um vigor que, segundo ela, “veio do amor pela profissão”.

A gasparense foi casada, mas não teve filhos. Na verdade, teve filhos de coração, pois era assim que considerava os seus alunos. Durante todo este tempo, exerceu papel de mãe, conselheira, amiga, cozinheira e faxineira mas, sobretudo, de uma grande professora.

Dona Maria, como carinhosamente é chamada, concluiu seus estudos na escola Honório Miranda, em 1947. Dois anos após, deu início ao trabalho como professora. “No dia 21 de fevereiro de 1949 foi o meu primeiro dia como professora na escola Porto Arraial. Fui com a cara e a coragem, porque naquele tempo a gente não tinha experiência em nada. Tinha 32 alunos me esperando, do primeiro ao quarto ano” relembra, orgulhosa. Com o passar do tempo, dona Maria foi se aperfeiçoando e lecionou também em outras duas escolas: na antiga João Pessoa, hoje Angélica Costa; e na Ana Lira, que fica no Alto Gasparinho.

Ela morava no bairro Sertão Verde e, sem nenhum meio de transporte disponível, percorria 16km a pé para trabalhar. Se hospedava em uma pensão durante a semana e, aos sábados, andava mais 16km para retornar pra casa. Ser professora era um sonho que ela despertara ainda na infância. As folhas e os espinhos de flores e árvores eram os instrumentos utilizados para realizar suas escritas inicias, em brincadeiras. Hoje, ao relembrar toda sua trajetória dentro das escolas, se sente feliz pois tem a certeza de que diariamente vivia seu grande propósito. “O trabalho como professora era o meu sonho, o meu viver”.

Passados os 30 anos de trabalho, dona Maria diz que o momento mais difícil foi o da aposentadoria. “Acordar e não ouvir as crianças me chamando, saber que eu não iria mais para a escola, me fez chorar. Foi bastante dolorido”.

Encontro para relembrar as histórias

Todo este afeto demonstrado durante as aulas, tanto por parte dela quanto dos estudantes, não acabou quando chegou a hora de aproveitar os dias em casa. Muitas vidas passaram pelos ensinamentos de dona Maria (aliás, famílias inteiras de Gaspar chegaram a ser alfabetizadas por ela). E foi a saudade desta querida professora e dos momentos de infância e juventude que fez com que o primeiro reencontro dos ex-alunos da Porto Arraial acontecesse em sua residência para relembrar histórias e momentos vividos juntos aos amigos cultivados nesta trajetória.

No dia 8 de junho, mais de 50 ex-alunos da antiga escola Porto Arraial tiraram um tempinho para terem uma tarde mais do que especial ao lado da dona Maria. Eles estudaram juntos, em salas multisseriadas, entre os anos de 1967 e 1970. A escola Porto Arraial hoje é a atual Escola Professor Vitório Anacleto Cardoso, localizada no bairro Margem Esquerda.

O encontro aconteceu no período da tarde, com um café colônia realizado na casa da professora, que hoje tem 90 anos de idade. Conversas, risos e muita emoção marcaram este momento memorável. “Minha melhor lembrança é ter ajudado a fazer a merenda e a cuidar da horta. Gostava muito de comer a sopa que a dona Maria fazia, de brincar com meus colegas de esconde-esconde, pega-pega”, relembra Dilma dos Santos, que hoje tem 61 anos.

Eram bons tempos de liberdade e acolhimento, como se diz hoje em dia. Mas, os desafios também marcaram a infância da maioria deles. “Nossa época de escola era muito difícil, pois andávamos quilômetros a pé. Não tínhamos condições de pagar estudo na cidade. As nossas bolsas (mochilas) eram pacotes de arroz, trigo ou açúcar. Ganhei uma bolsa de pano somente no último ano de escola. Calçados eram compartilhados: minha irmã usava em um período e eu usava em outro”, conta Zeni Werner.

Dona Maria, com seu coração sempre bondoso, dava um jeitinho até de aquecer os dias frios de alguns alunos que tinham menos condições financeiras e estavam sempre descalços. “Eu tinha alunos que vinham de longe e chegavam na escola tremendo de frio. Eu os deixava ficarem sentados na calçada, onde tinha sol, para aquecer os pés”.

Nas lembranças de uma época marcada por dificuldades e muita união estão os registros fotográficos de uma turma que até parecia bastante comportada e estudiosa, mas também aprontava muito. Aliás, era neste momento em que a régua da professora ‘entrava em ação’. Dona Maria era uma excelente professora, mas tinha um jeito bem típico dos ‘tempos antigos’ de corrigir os alunos quando faziam o que não era certo. “Ela era maravilhosa e dava castigo mesmo, se precisasse batia com a temida régua nas nossas mãos, porque éramos arteiros e brigávamos na escola”, conta Zeni, que acrescenta ainda: “se a gente contasse isso aos nossos pais, apanhávamos novamente em casa por termos desrespeitado a professora. Mas isso nunca fez com que a gente perdesse o respeito e o amor por dona Maria”, diz ela, sorrindo.

 

 

Edição 2110

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