
O que era um ponto de ônibus, onde esporadicamente alguns moradores de rua aproveitavam para passar a noite, agora se transformou na moradia permanente de um andarilho. Segundo a comunidade, desde janeiro deste ano um morador de rua decidiu ficar em definitivo no ponto de ônibus localizado no início da rua Luís Franzói, em frente a um supermercado.
No local há apenas um colchão, uma mochila com os poucos pertences, roupas e muita sujeira. O mau-cheiro também aumenta a cada dia e incomoda a comunidade, que agora precisa esperar pelos ônibus alguns metros adiante, sob uma marquise. ?Não tem condições de esperar ônibus ou passar por ali, o mau-cheiro é demais. Ele mesmo conta que perdeu a briga para a cachaça, às vezes chega a ficar inconsciente. Alguém precisa fazer alguma coisa?, afirma Jorceli Xavier de Oliveira, 44 anos, moradora do bairro Sertão Verde que passa diariamente pelo local.
Ângelo Rudinei, 33 anos, confirma que a situação se arrasta há vários meses e que as pessoas chegam a evitar passar pelo local, principalmente pelo mau-cheiro e pelo estado de abandono. ?Sabemos que agora vem o inverno e a situação dessas pessoas fica ainda mais sofrível se não houver alguma ajuda?, afirma.
O empresário Maurino João Bernz, proprietário de uma oficina de refrigeração ao lado do ponto de ônibus em que o morador de rua se instalou, conta que a situação piorou desde o início desse ano, quando o andarilho passou a ficar dia e noite no local. ?Até limpei o ponto nas primeiras vezes, mas depois não teve mais como manter. Infelizmente a gente já conversou com ele, a equipe da Assistência Social o levou para internações, mas depois de pouco tempo ele sai e volta para cá?, ressalta.
Maurino reconhece a gravidade da situação do morador de rua e lembra que na última semana precisou acionar o Samu para socorrê-lo, já que ele estava passando mal. No entanto, o comerciante ressalta que a situação já está prejudicando a vizinhança e também teme pela segurança e pelo futuro do indivíduo se nada for feito. A gerente do supermercado que fica em frente ao ponto de ônibus revela que a situação também traz reflexos para o estabelecimento, já que por vezes os clientes são abordados no estacionamento em busca de dinheiro. ?Nós já o conhecemos, mas quem não sabe da situação fica com medo. Além disso, a situação está prejudicando toda a comunidade. Sabemos que se trata de um ser humano, que inclusive se criou aqui em Gaspar, então precisamos que algo seja feito?, destaca a profissional.

Refém do alcoolismo
O morador de rua é Marcos Alexandre Reinert, 42 anos. Ele foi criado em Gaspar e ainda hoje recebe apoio de uma tia, que também reside no bairro Margem Esquerda. Marcos Alexandre garante que seu único vício é o álcool e fala sem muita exatidão de seu passado. O morador de rua diz ter um filho e afirma que foi parar no ponto de ônibus do bairro Margem Esquerda após sair de uma prisão de Curitiba. Durante o dia Marcos Alexandre quase não se alimenta e, pelos braços e pernas já enfraquecidos, ele apresenta vários ferimentos.
Ao lado do colchão, sob o banco de madeira do ponto de ônibus, o andarilho guarda uma garrafa de cachaça, que às vezes é a única coisa ingerida. Embora desminta já ter sido internado outras vezes, Marcos Alexandre diz ter interesse em passar por um tratamento para se livrar do vício do álcool. ?Se me oferecessem um tratamento claro que eu quero me recuperar?, garante.
Assistência Social diz ter oferecido atendimento
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Social, a equipe de atendimento já ofereceu possibilidades para Marcos Alexandre, que chegou a ficar internado mais de uma vez, mas sem sucesso. ?A gente oferta a política pública, mas querer às vezes depende muito do usuário. De fato não podemos obrigar a pessoa a sair das ruas, então nesses casos oferecemos acompanhamento?, afirma a diretoria de Assistência Social, Ana Janaína Medeiros de Souza.
A coordenadora do Conselho de Referência Especializado de Assistência Social, Creas, Sandra Gerusa dos Santos da Silva, afirma que a equipe pretende fazer um novo atendimento ao morador de rua, mas ressalta que o trabalho do órgão visa sempre a não violação dos direitos. ?Falando de forma genérica, nos casos em que as pessoas optam por permanecer nas ruas fazemos um acompanhamento para que eles continuem tendo acesso aos seus documentos, contato com os familiares e poder de reflexão sobre o que acontece com eles?, afirma. Sandra acrescenta que nos casos que envolvem risco para a própria pessoa e o atendimento não foi suficiente, o Creas pode informar o Ministério Público, que pode tomar alguma medida. ?Trabalhamos apenas com a internação de forma voluntária?, reitera.
Desde o final de abril o Creas passou a contar com mais uma profissional que está se preparando para oferecer o chamado Serviço Especializado para Pessoa em Situação de Rua. A modalidade de atendimento, que antes era englobada pelo Paefi, foi criada em função do aumento de moradores de rua detectado em Gaspar nos últimos meses. ?Acredito que será um reforço importante para oferecer um acompanhamento mais próximo dos moradores de rua da nossa cidade?, avalia Sandra.
A diretoria de Transporte Coletivo de Gaspar disse que já foi comunicada da situação e informou que na próxima semana o abrigo de ônibus deve ser substituído por um outro ponto menor, com estrutura de ferro, também em função da baixa de demanda de passageiros que embarcam no local. O ponto atual deve ser instalado em local a ser definido.
Edição 1586
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