Recomeço longe das drogas - Jornal Cruzeiro do Vale

Recomeço longe das drogas

05/04/2014

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Por Ana C. Bernardes

Buscar um recomeço. Começar a construir uma nova história. Voltar a ter alegria e esperança. Foram vários os motivos que fizeram com que o casal Maria* e César* tomasse a mais importante decisão de suas vidas: lutar contra a dependência química. ?A própria droga fez a gente pedir ajuda?, relata Maria, que hoje tem 34 anos. No momento em que perceberam que não tinham mais forças para continuar vivendo em dependência das drogas, eles procuraram ajuda em uma casa terapêutica. Ela ficou internada por sete meses e ele por seis. 

Assim que saíram, encontraram no município uma espécie de fortaleza que os renovou e ajudou nessa grande luta: as reuniões comunitárias sobre dependentes químicos. Foi nesses encontros semanais que passaram a compartilhar as experiências com outras pessoas que já passaram por situações muito parecidas. Ali receberam ajuda, apoio e acolhimento. Mesmo após dois anos, ambos continuam comparecendo às reuniões. ?Primeiro a gente tem que entender e aceitar que a dependência química é uma doença e isso demora muito para acontecer. Depois tem que começar a acreditar que se pode vencer. Por fim, a gente tem que se entregar a Deus?. 

Os dois começaram a utilizar entorpecentes ainda adolescentes. Com o passar do tempo, chegaram a experimentar todos os tipos de drogas. Quando se conheceram, há cerca de três anos, decidiram deixar de utilizá-las. Porém, a escolha não durou mais de quatro meses. ?Ficamos aprisionados, sufocados. Já não aguentávamos gastar nosso dinheiro somente com aquilo, viver em função das drogas. Só que não é algo que se escolhe, é uma dependência muito forte?, ressalta César, 31 anos, que chegou a viver na rua por 10 anos em consequência do vício. Por um ano, utilizaram drogas todos os dias. Primeiro a cocaína, depois, com a falta de dinheiro, o crack. Ela chegava a ficar sem comer por dias, faltava no trabalho e acreditava que estava perto do fim. ?Achava que não tinha mais condições de continuar. Perdemos nossa família, amigos, emprego. Perdemos tudo. Chegamos ao limite?, lembra Maria.

 

Uma nova vida

Já se passaram cerca de dois anos desde que o casal decidiu viver de novo. Desde então, nunca mais tiveram contato algum com nenhum tipo de droga. ?É claro que às vezes dá uma vontade de usar qualquer coisa. Nessas horas é que temos que mostrar nossa força, nossa coragem?. Hoje eles voltaram a trabalhar, ela como professora e ele como servente de pedreiro, e já estão esperando o primeiro filho, o segundo dela. Para conseguir chegar onde estão, eles destacam três fatores de grande importância: internação, reuniões comunitárias e fé em Deus. ?O encontro comunitário foi nossa salvação. Não tem como continuar a batalha sem Ele?, enfatiza Maria. As reuniões comunitárias sobre dependentes químicos acontecem todas as segundas-feiras, às 19h, no Auditório da Prefeitura. 


Movido a solidariedade
 
Mas não são apenas casos como estes que fazem parte dos encontros semanais. Ari Schmude, 63 anos, fez parte dos encontros por um bom tempo. Além de preencher seus dias, ele passou a encontrar nessas reuniões uma maneira de contribuir para a sociedade e ajudá-la de forma simples, mas eficaz. Ari nunca foi dependente químico, tampouco teve alguém na família que era. Ele conheceu Ricardo Ramos, responsável pelos encontros, após procurar ajuda para um jovem que trabalhava na empresa na qual era gerente. ?Procuramos saber quais seriam os encaminhamentos necessários para ele e assim acabamos conhecendo o Ricardo?, explica. Ari, então, foi convidado a participar semanalmente do encontro como voluntário para apoiar as famílias e os dependentes químicos que ali estavam. ?Conversávamos sobre comportamento, como a família deve encarar o fato, o que fazer para que o dependente aceite seus vícios, entre outras coisas. Era motivador dar conselhos àquelas pessoas e contribuir, de alguma maneira, para o bem de nossa sociedade?, afirma.
 
Por ter uma oportunidade de emprego em Blumenau, ele acabou se mudando e parou de frequentar as reuniões. Porém, elas ainda fazem parte importante de sua vida, já que o motivou e incentivou a trabalhar em uma entidade que atende crianças e adolescentes de alta complexidade. ?Muitos desses casos têm envolvimento com drogas, além de outros problemas de similar gravidade. Posso dizer que os encontros em Gaspar me ajudaram muito a estar no lugar que me encontro hoje. Até então, não tinha noção de como eram a vida dessas pessoas, seus sofrimentos, suas dores. Passei a ter uma outra visão do mundo e isso não tem preço?, relata.


Reuniões auxiliam na recuperação
 
Desde que as reuniões comunitárias sobre dependentes químicos tiveram início, há pouco mais de quatro anos, o responsável pelo grupo e pelo programa ?Crack, é possível vencer?, Ricardo Ramos, afirma que os resultados foram grandes e motivadores. ?Temos depoimentos de famílias inteiras que se reestruturam após nosso apoio e acolhimento. Damos uma chance de recomeçarem e descobrirem que há outras pessoas com problemas similares?, explica. Segundo o responsável pelos encontros semanais, qualquer pessoa que tenha interesse sobre essa questão, familiares e dependentes químicos que estejam ou não em tratamento e dependentes químicos ativos, independente do tipo de droga que usam, podem fazer parte do grupo. Geralmente, os encontros reúnem cerca de 20 pessoas, mas este número pode variar. Ricardo afirma que aconteceram encontros com mais de 40 participantes.  
 
Algumas dessas pessoas desistem facilmente de comparecer aos encontros. Outras permanecem até conseguirem vencer o vício. Nas reuniões, os dependentes e a família, que nesse momento é de grande importância para a recuperação, são orientados a realizarem os encaminhamentos necessários. ?Além de apoiarmos, nós verificamos se aquele dependente químico precisa ser internado em um hospital, em uma casa terapêutica ou precisa de acompanhamento com outros profissionais, como médicos, psicólogos etc?, aponta. Para ele, o que motiva as pessoas a procurarem as reuniões e, consequentemente, tratamento, é o desespero. As famílias já não sabem como lidar com o problema das drogas, perdem o controle. Dessa maneira, a vida do usuário e da família fica insustentável. A partir dos encontros semanais, descobrem no grupo que eles não são os únicos a sofrerem. É naquele local que encontram acolhimento e conforto. ?Começam a receber o melhor remédio da dependência química, que é ouvir as experiências dos outros e compartilhar as suas também. Ouvimos sempre que até chegar aqui eles estavam arrasados e agora estão fortalecidos?.
 
Ainda conforme Ricardo, hoje o maior problema na cidade é o álcool. Entretanto, nos últimos anos, a demanda de dependentes do crack vem crescendo assustadoramente. Ele atribui esse crescimento também à situação geográfica da cidade, que fica próxima a três grandes municípios que são Blumenau, Itajaí e Brusque. ?As pessoas que são varridas dessas cidades devido ao problema acabam vindo a Gaspar, pois aqui há uma boa qualidade de vida, moradores com bom poder aquisitivo e efetivo policial menor. Temos muita dificuldade de trabalhar com isso?, conta. 
*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes

Comentários

PRISCILA
08/04/2014 08:31
PARABÉNS RICARDO POR ESSE TRABALHO MARAVILHOSO QUE VC VEM FAZENDO PARA ESSAS PESSOAS.........MAIS UMA VEZ PARABÉNS A VC E AS PESSOAS QUE ESTÃO NESSA LUTA.....
mirtes
07/04/2014 22:46
tenho um filho dependente quimico .so deus sabe a minha luta .e a dele tb.ja foi internado na casa te apolho ser vida em vidal ramos . no hospital samaria em rio do sul ..com isto aminisou um pouco .mas e uma luta . so espero q deus me ajude a acbar com esta dependencia do meu filho. que deus ilumine este casal .que eles continui ajudando as familias.so quem passa sabe a dor q e,.um abraço
Livre
07/04/2014 10:02
Também estou limpo vai fazer 6 anos em junho, essa luta é diária e muito dificil. Parabéns ao casal muita força e fé em Deus pois só com Ele poderemos ser forte o bastante para encarar a realidade.

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