Registros de estupro assustam! Crianças são as maiores vítimas em Gaspar - Jornal Cruzeiro do Vale

Registros de estupro assustam! Crianças são as maiores vítimas em Gaspar

07/02/2023
Registros de estupro assustam! Crianças são as maiores vítimas em Gaspar

“Hoje, decidi quebrar o silêncio que tanto faz doer meu coração e minha alma. Por mim, por você e por tantas outras pessoas que também já passaram por isso. Eu tenho 25 anos. Sou mulher, tenho cabelos claros e olhos castanhos. Sou alta e forte, assim me considero após superar alguns traumas desta vida. O maior deles aconteceu dentro da minha própria casa, quando eu ainda tinha oito anos. Meu pai nunca parou em serviço nenhum, foi quando ele e minha mãe decidiram viver de esmolas e usavam os filhos para conseguir dinheiro. Porém, eles se revezavam no sinal e enquanto minha mãe estava na rua com uma das minhas irmãs, eu e a minha outra irmã mais velha ficávamos em casa, com meu pai. Um monstro! Ele chamava outro irmão dele sempre que ficava sozinho conosco. Era uma casinha velha, no meio do mato. Minha irmã era trancada com eles dentro de casa. Eu sempre a via com marcas roxas pelo corpo, triste pelos cantos, mas ela nunca contou nada, apenas pedia para que ficássemos longe dele. Até que um dia chegou a minha vez, quando ele me convidou para passear. Inocentemente eu fui, mesmo com minha irmã pedindo pra não ir. O destino era a casa da minha avó. Quando cheguei lá estava tão cansada que logo adormeci. Porém, acordei sentindo uma dor horrível e um peso em cima de mim. Estava escuro, não entendi direito o que estava acontecendo. Foi quando ele acendeu a luz e eu percebi que o pesadelo era real”.

#chegadesilencio

Essa declaração não é verdadeira. Porém, retrata a realidade de tantas Anas, Joanas, Marias, Alices, Daianas, Fernandas ou até mesmo Leonardos, Antônios e Joãos.

Os casos de estupro cresceram 50% nos últimos 10 anos em Santa Catarina. O estado teve uma média de nove mulheres vítimas de estupro por dia em 2021, conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública sobre Violência contra a Mulher no Brasil. Somos o sexto estado com mais casos desse tipo de crime.

No Brasil, a taxa de estupro foi de 51,8 para cada 100 mil habitantes do sexo feminino. Em Santa Catarina, o número é de 90 a cada 100 mil. É o maior número na região Sul do país. Esse aumento no número de casos pode estar relacionado à conscientização da população sobre a importância de fazer denúncias e também em virtude da aproximação com a polícia e redes de proteção.

Crianças são as maiores vítimas em Gaspar

Crianças de até 11 anos são as maiores vítimas de estupro em Gaspar, chegando a quase 50% dos casos denunciados. Conforme dados registrados pela Polícia Civil, entre 2019 e 2022, 85,71% dos casos aconteceram em ambientes domésticos ou fechados. Deste total, 76,98% em residência domiciliar.

Conforme a psicóloga policial que atua em Gaspar, Carla Fernanda Bastos, na maioria dos casos o crime é cometido por algum familiar ou amigo próximo. “Na maioria das vezes, envolvem pessoas de confiança, que têm acesso sozinhas com a criança/adolescente, pois é pelo vínculo de confiança que o agressor se aproxima e consegue que a vítima guarde segredo”.

O delegado da Comarca de Gaspar, Diogo Medeiros, afirma que nem sempre o número de registros coincide com o número de estupros de fato, pois somente no inquérito é possível descobrir se há algum tipo de alienação parental ou comunicação falsa, por exemplo. Mas, mesmo assim “os dados são alarmantes na cidade”, enfatiza.
Para cada Boletim de Ocorrência registrado existe um procedimento investigativo instaurado. Em 2022, Coloninha, Bela Vista e Santa Terezinha registraram o maior número de casos de estupro em Gaspar.

Registro de estupro em cidades pequenas é maior

Dados repassados pela Polícia Civil mostram o número de registros de estupro nas cidades da região. Um comparativo entre os dados de Gaspar (71.925 mil habitantes), Ilhota (14.531 mil habitantes), Brusque (140.597 mil habitantes) e Blumenau (366.418 mil habitantes) – estimativa IBGE 2021, mostra que as três primeiras cidades possuem menos habitantes, porém um maior índice de registros de estupro em 2022.

Confira a tabela:

PERFIL
vítima + abusador

A psicóloga explica que o mais predominante são vítimas femininas. O agressor, na grande maioria dos casos, é mais velho que a vítima e/ou tem algum tipo de poder sobre a vítima. “Quero dizer com isso, ou poder de sedução convencimento, alguém que a vítima gosta e admira, ou poder com relação à hierarquia, é um adulto que a vítima foi ensina a respeitar e obedecer”, explica Fernanda. O agressor, na grande maioria das vezes, é respeitado e tem a simpatia dos adultos em sua volta. Na minoria dos casos é alguém que chama atenção dos adultos como ‘esquisito, estranho’.

Como identificar casos de abuso

É importante que todos estejam atentos às crianças e adolescentes, mantendo sempre uma comunicação e diálogo abertos, próximo e de confiança, pois a maioria das vítimas mantém segredo dos abusos sofridos por diversos motivos: vergonha, medo e às vezes por não compreender o que está acontecendo e acreditando que aquelas situações são uma brincadeira ou uma atenção especial que está recebendo do agressor.

Algumas vezes as vítimas fazem muitos esforços para que ninguém perceba que ela está sendo abusada. Estudiosos do tema conseguiram identificar alguns sintomas comuns nas vítimas de abuso sexual. “O que acho mais importante de orientar é que se fique atento às mudanças na criança/adolescente. Como cada vítima reage de forma diferente, é mais significativo observar se houve mudanças nas atitudes, comportamentos, sono, alimentação, higiene, desempenho escolar ou humor do que eu indicar sintomas específicos”, diz a psicóloga Carla Fernanda Bastos.

A escola é um dos locais que mais aparecem a primeira revelação da criança sobre um abuso sexual. Isso porquêcrianças e adolescentes geralmente possuem um vínculo de proximidade e segurança em algum professor e têm essa pessoa como referência para a revelação do abuso sexual.

Gaspar cria grupo de escuta para vítimas

Em 2022, Gaspar criou um comitê para construção do Protocolo Municipal de Prevenção e Atendimento de Crianças, Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência. A demanda para implementação da Escuta Especializada partiu do Conselho Tutelar e foi legitimada pela Plenária do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). O processo iniciou com a capacitação de profissionais e os integrantes passaram por 17 reuniões. Segundo a psicóloga da Polícia Civil de Gaspar, a expectativa é de que este ano o protocolo deste Comitê seja publicado. “Com isso, toda rede terá profissionais capacitados para atuar nesta demanda, podendo acolher estas revelações e as escolas vão continuar sendo grandes aliadas na comunicação das suspeitas deste crime, que muitas vezes ocorre por anos até ser descoberto”.

O que diz a legislação brasileira

Segundo a legislação brasileira, qualquer ato sexual realizado com crianças ou adolescentes menores de 14 anos é considerado estupro de vulnerável, o que caracteriza uma violência sexual. Também podem ser consideradas violência sexual casos específicos que envolvam adolescentes entre 14 e 18 anos, levando-se em consideração a existência de constrangimento, o grau de discernimento da vítima ou os meios utilizados para a obtenção do ato.

A Lei 13.431/2017 dividiu a violência sexual em duas modalidades: o abuso sexual e a exploração sexual. O abuso sexual acontece quando uma criança ou um adolescente é envolvido na prática de qualquer ato sexual, presencialmente ou por meio eletrônico.

O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê que, havendo suspeita, já é possível comunicar o problema às autoridades para que o caso seja investigado. Mesmo que não se confirme depois, ninguém pode ser responsabilizado por ter denunciado um caso em que honestamente suspeitava da ocorrência de maus-tratos.

DENUNCIE

Denúncias podem ser feitas pelo telefone 100, que funciona nacionalmente; 181, da Polícia Civil catarinense; e por Whatsapp pelo número (48) 9 8844-0011, também da Polícia Civil.

 

 

 

 

Edição 2091
 

 

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