Por Thiago Moraes
A vida por uma fila
A tensão gerada na fila de espera por um ortopedista há um ano na vida de Marta de Souza Martins, 68 anos, já trouxe desdobramentos no dia a dia do marido, Valdemiro Martins, 70 anos. Valdemiro alega estar com depressão devido à canseira e ao vai-e-vem às unidades de saúde do bairro Margem Esquerda, em Gaspar, e à Unidade Central de Saúde, onde sentados, aguardam o chamado não para a consulta com o especialista em Ortopedia, sem previsão, mas para um exame de eletrocardiograma. ?A preocupação e o estresse são enormes e o custo de deslocamento para as unidades de saúde prejudicam até o orçamento de casa?, afirma Valdemiro.
Moradora do bairro Margem Esquerda, Marta informa que também aguarda, há um ano, por uma consulta com um oftalmologista, até agora sem sucesso. ?Meu esposo já teve inclusive um Acidente Vascular Cerebral, AVC, e não pode ficar sob situações de estresse. Lamento muito tudo isto. Condições para pagar consultas particulares nós não temos. Tenho fortes dores na coluna e no pescoço e consultas com médico da área de clínica geral não resolvem mais o meu problema. Tenho de aguardar?, conforma-se Marta.
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| Marta e Valdemiro sentem na pele as dificuldades de espera por ortopedista e oftalmologista |
Teste de paciência
Na fila de espera do lado externo da Unidade Central de Saúde no Centro de Gaspar, João Manuel Gervásio não esconde a tensão em seu semblante sobre a incerteza se irá ou não ser atendido por um cardiologista. Devido a um caso de urgência, um problema nasal que já afetava sua pressão alta e seu batimento cardíaco acelerado no dia 14 de setembro, Gervásio aguardava atendimento até a manhã do dia 17, na companhia da esposa Maria Goretti Gervásio. ?Ele já foi encaminhado pelo clínico-geral a um cardiologista. O curativo feito em seu nariz não está mais fazendo efeito, e os problemas de respiração estão afetando sua respiração, devido ao rompimento de uma das artérias do nariz. O jeito é aguardar na fila?, desabafa a esposa.
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Gervásio buscou atendimento com cardiologista |
Especialidades médicas em Gaspar
2 Cardiologistas
1 Neurologista
1 ortopedista
2 urologistas
1 endocrinologista
1 dermatologista
1 Otorrinolaringologista
2 Pediatras
2 Ginecologistas
1 Infectologista
1 Reumatologista
1 Médico Regulador
1 Cirurgião-Geral
Especialidades pactuadas em outras cidades
Cirurgião de Cabeça e Pescoço: Blumenau
Cirurgia Pediatrica: Blumenau e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Cirurgião Toráxico: Secretaria de Estado, em Florianópolis
Gastroenterologista: Blumenau e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Mastologista: Blumenau e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Nefrologista: Blumenau e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Oftalmologista: Blumenau, Itajaí, Timbó e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Pneumologia: Blumenau.
Proctologia: Blumenau, Brusque e Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Cirurgia Vascular: Secretaria de Estado, em Florianópolis.
Concurso prevê vagas para médicos
A Secretaria de Saúde, Márcia Cansian, explica que o atendimento com especialistas médicos pelo Sistema Único de Saúde, SUS, envolve uma série de requisitos, como, primeiramente, a ida do paciente à unidade de saúde do bairro, para em seguida, se necessário, ser direcionado ao especialista em questão. ?O médico é o responsável pelo encaminhamento ou não ao médico especialista que o paciente precisa. No sistema de informática administrativo, o médico situa se o caso é de brevidade, urgência, entre outros critérios. Logicamente se o caso é grave, como em casos de Cardiologia, o cidadão é encaixado de alguma maneira para ser atendido em nossa rede municipal ou é direcionado à rede pactuada que temos em outras cidades?, garante Márcia.
De acordo com a secretária, áreas como Ortopedia, Oftalmologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço são carências que afligem não só Gaspar, mas a maioria das cidades brasileiras. Segundo Márcia, na Ortopedia, por exemplo, há especialistas dentro do próprio ramo, o que dificulta a contratação de profissionais. Já em Oftalmologia e médicos especialistas em cirurgia de cabeça e pescoço há uma demanda alta para o número baixo de profissionais na região. ?Há um esforço para encaminhar os pacientes na medida em que podemos e segundo o leque de opções de especialistas que temos em Gaspar e na região. Ressalto o aumento significativo de 2012 para 2013 no município em atendimentos de exames de imagem e de ultrassom, além do aumento de valores investidos na saúde do município em prol de nossa população. Os inúmeros partos realizados no hospital de Gaspar são provas de nosso crescimento?, declara.
Concurso público
As vagas já abertas para o concurso público da Prefeitura de Gaspar incluem na área de medicina o preenchimento de 24 vagas para médicos. As vagas abertas são para cardiologista (1 vaga), clínico geral (9 vagas), Dermatologista (1 vaga), Ginecologista (02 vagas), Oftalmologista (1 vaga), ortopedista (2 vagas), Pediatra (4 vagas), Psiquiatra (2 vagas), Médico do Trabalho (1 vaga), Urologista (1 vaga) e Nutricionista (3 vagas). As inscrições prosseguem até o dia 14 de outubro.
Secretaria divulga números de profissionais
De acordo com número da Secretaria da Saúde de Gaspar, o município conta hoje com 13 equipes de Estratégia da Saúde da Família, ESF, com 13 médicos com carga horária de 40 horas semanais. Desta equipe do ESF, seis profissionais são do Programa Mais Médicos, três do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica, Provab, e quatro médicos contratados.
Na Unidade Central e Unidade Básica de Saúde do Centro, atuam três médicos com carga horária de 40 horas semanais no atendimento à atenção básica, um profissional no suporte com 20 horas semanais à disposição, um médico para atender as demandas do Programa Melhor em Casa, licença-maternidade, também sendo ajudado pelo médico do suporte.
No Centro de Acolhimento de Risco, CAR, há três médicos de Clínica-Geral trabalhando. No Centro de Atendimento Psicossocial, Caps, atuam um médico com 40 horas semanais, especializado em Saúde Mental, e um médico com 10 horas semanais como clínico atuante na área de Saúde Mental.
Policlínica deve inaugurar em outubro
Localizada no bairro Sete de Setembro, a inauguração da policlínica de Gaspar deverá acontecer em outubro, segundo informação da Secretaria de Saúde. ?Estamos aguardando a entrega da obra da parte das instalações elétricas. A parte do piso precisará também ser finalizada?, afirma a secretária de Saúde, Márcia Cansian. A expectativa é de que o novo espaço possa ajudar a melhorar a situação das especialidades médicas na cidade.
A policlínica abrigará a unidade de Saúde da Mulher, o Ambulatório de Especialidades Médicas, o Ambulatório Central, o Serviço de Atendimento Especial e a Farmácia Básica e a de Alto Custo. Também serão sediados neste espaço o setor de Controle, Avaliação, Regulação e Auditoria, a Vigilância em Saúde, o Centro de Especialidades Odontológicos, os serviços de administração da Secretaria da Saúde, a coordenação da Atenção Básica e o Grupo de Apoio à Saúde da Família.
A policlínica ficará localizada ao lado da Polícia Militar, no bairro Sete de Setembro, em uma área de mais de 3000 metros quadrados. A obra recebeu recursos na ordem de R$ 3,5 milhões, liberados pelo Ministério da Saúde.
Mentalidade dos atuais médicos mudou, aponta professor
Coordenador do curso de Medicina da Furb, de Blumenau, o professor Humberto Rebello Narciso contextualiza o problema da dificuldade de contratar médicos para o Sistema Único de Saúde, SUS, com a atual sociedade de consumo, onde estão, também, introduzidos os médicos recém-formados, que priorizam em suas carreiras especialidades vantajosas na rede privada, desde aspectos lucrativos até a uma carga horária que não venha a esgotar o tempo destinado à vida pessoal e familiar do profissional.
De acordo com Humberto, é muito difícil encontrar jovens médicos que procurem, por exemplo, especialidade em medicina da família e comunidade. ?A falta de estimulo e plano de carreira no SUS não têm atraído mais os jovens médicos. Áreas como Pediatria, Ginecologia e Clínica-Geral, entre outras, estão com uma demanda baixa no SUS. Na própria grade curricular é difícil encontrar um docente que tenha especialidade em medicina da família e da comunidade. O campo na área do SUS não é tão atrativo como deveria ser, o que não desperta o interesse dos médicos que saem da universidade, além das poucas vagas que são oferecidas, incompatíveis com a alta demanda da rede pública?, avalia Humberto.
Edição 1625
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