Por Julia Shäfer Dourado
As boas lembranças de quem frequentou os tempos áureos da Sociedade Cultural Recreativa Alvorada parecem ficar ainda mais distantes quando compara-se o clube do passado com a situação em que se encontra no presente. O local que antes era o ponto de encontro da sociedade gasparense não representa mais a elegância pela qual era famoso. Parte de sua estrutura foi adaptada para comportar lojas, algumas vidraças estão quebradas e a pintura está desgastada em alguns pontos. Nada que lembre o glamour da época de ouro da sociedade gasparense.
Sueli Vanzuita Zimmermann, 71 anos, tem uma relação quase pessoal com a Sociedade Alvorada. Foi a primeira mulher a realizar a festa de casamento no local, que ainda não estava sequer finalizado; seu sogro, Silvio João Zimmermann, foi o primeiro presidente da diretoria do clube; foi lá que sua filha debutou e seu marido também foi presidente e responsável pelo primeiro baile de debutantes. ?Organizar os bailes era muito difícil e meu marido foi muito corajoso. Chegamos a pensar que não daria certo, mas foi um sucesso muito grande. Naquela época, não havia floriculturas e contei com a ajuda das senhoras Laura Schönfelder, Erica Schmitt, Dica Spengler e Soraia Schmitt na decoração?. Ela conta que foram muitos anos de lindos bailes e todos muito comentados e frequentados por moradores de toda a região. Com tristeza, comenta que sua filha debutou no Alvorada, mas quando chegou a vez de sua neta debutar a tradição já estava morta em Gaspar.
Outra lembrança, registrada com fotografia, é do primeiro concurso de Miss Gaspar, em que a vencedora foi Shirley Deggau. Vera Fischer, Miss Brasil da época, veio entregar a faixa para a rainha do município a convite do presidente. Não apenas os bailes de debutantes são lembrados por aqueles que eram sócios, mas também os de São Silvestre, que aconteciam na virada do ano, o de Carnaval, um que havia sempre antes da Festa de São Pedro e também um que acontecia perto da Páscoa.
Quando era adolescente, Vera Beduschi costumava frequentar as festas voltadas para a sua idade, que aconteciam todos os finais de semana no Alvorada. Hoje, aos 50 anos, lembra com saudades o tempo que lá passou ao ver o que ele se tornou.
?Há alguns dias estive no local e quase chorei. Era um lugar glamoroso, que tinha certa elegância. Vinha gente de todo o estado para as festas, pois as gasparenses eram conhecidas por sua beleza?. Vera foi uma das debutantes do ano de 1975, e assim como ela, suas outras duas irmãs também debutaram no Alvorada, era uma tradição de família. Ela diz achar que o caminho certo a ser tomado agora e seguir em frente com a movimentação para resgatar o espaço que hoje não é usado para a cultura, trazendo de volta os concertos, recitais de poesia e outros eventos do tipo.
? Valmor Beduschi Jr., 52 anos
Presidente do Alvorada Júnior no ano de 1977, mesmo ano em que seu pai era presidente da sociedade, Valmor recorda que os sócios costumavam se deslocar até o clube todos os dias, para usufruir do que era oferecido. No final da tarde, os homens se reuniam para jogar bolão, dominó, canastra e sinuca, sendo que no final da tarde o número de sócios que havia no local devia se aproximar de 60. No final de semana, a quantidade crescia. ?Sábado à noite havia a boate do Alvorada para os jovens e no domingo à tarde uma festinha para os mais novos. Além disso, o calendário festivo era grande e abrangia quase todos os finais de semana?.
? Isabel Cristina Beiler Hostins, 39 anos
Debutante do Alvorada, Isabel tem como uma das maiores recordações os bailes de Carnaval realizados todos os anos. Naquela época as pessoas se organizavam em blocos, que iam até o Alvorada para fazer a festa. ?Lembro-me que o grupo do qual meu irmão participava ganhou várias vezes o troféu de bloco mais animado. Todos os anos um grupo era premiado com este troféu?. A tradição dos bailes de Carnaval é mais uma que caiu no esquecimento. Outra lembrança é a sala em que ficavam guardados troféus de bolão e a própria cancha deste jogo. Além da sala onde as meninas praticavam ginástica rítmica.
? Eulina Silveira, 80 anos
Hoje moradora de Balneário Camburiú, dona Eulina guarda fotos e uma coleção de momentos na memória. Para ela, o Alvorada representava um local de encontro dos amigos, onde todos passavam horas de lazer muito boas. Ela foi diretora social de 1977 a 1979, e organizada os concertos, bailes, jantares dançantes e serestas com ajuda de sua vice, Miriam Spengler. ?Naquele momento já havia falta de colaboração, valorização e até críticas por parte de alguns associados?. Ela diz ficar triste com a situação do Alvorada, mas observa que o mesmo está acontecendo em diversas associações de várias cidades.
Comtur apoia aproveitamento cultural do Alvorada, sem esquecer o turismo
A importância da Sociedade Alvorada para Gaspar começou a ser discutida na semana passada, quando um e-mail anônimo chamou a atenção da comunidade gasparense. Criticando a utilização que se faz hoje do Alvorada, a mensagem fazia um apelo para que a população se unisse para salvar este monumento que representa parte da história da cidade através do resgate de seu uso cultural.
Devido à repercussão do assunto no município, a questão foi levantada por um dos membros do Comtur, Conselho Municipal de Turismo, que aconteceu na última segunda-feira, 13. O assunto não estava na pauta, mas foi discutido por um momento reservado para assuntos gerais e decidiu-se que o mais correto a se fazer é convidar os sócios que hoje tomam conta do Alvorada para uma conversa. ?Apesar de membros terem se posicionado a favor, o Comtur não pode tomar uma posição, pois os sócios são os únicos que tem o poder legal de tomar qualquer decisão sobre a Sociedade?, comentou o presidente do conselho, Edson Caressato.
Ele considera que a movimentação é válida, mas é necessário que se tome precauções. Sem posicionamento definido, de acordo com Edson, o Comtur buscará informações para ver o que pode ser feito que influencie na área do turismo. Ele acredita que o Alvorada chegou ao ponto em que está porque as pessoas foram se desinteressando e abandonando aos poucos. Edson também observa que as pessoas sentem medo de assumir compromissos como este. ?Tem de haver uma diretoria, para que a sociedade seja respeitada pela comunidade. E há também uma questão de credibilidade, por isso é importante que a diretoria seja bem vista pela sociedade gasparense?.
?Quem está na direção deve dar uma resposta sobre o que é feito e como é feito. Não sabemos como esta pessoa trabalha, se paga imposto, aliás, não sei sequer quem é esta pessoa?. Ele considera que o Alvorada está localizado em um ponto estratégico, tem um prédio bonito e que pode ser bem mais utilizado nas questões culturais, porém é necessário saber das condições de segurança do edifício, conhecer o que a estrutura comporta.
Edson destaca que os bailes realizados hoje, principalmente o que é destinado à terceira idade, também têm seu papel e contribui com o turismo. Cita que qualquer um que resolver olhar as placas dos carros que estão no estacionamento enquanto a festa acontece pode perceber que há algumas de outras cidades da região, e que estas pessoas de fora que frequentam os bailes podem acabar se interessando pela cidade e até fazendo compras no comércio que há na rua central, onde está localizado o Alvorada.
Cultura quer promover audiência pública sobre o assunto
O diretor do Departamento de Cultura, Dayro Bornhausen, continua a receber mensagens, telefonemas e as assinaturas para o abaixo-assinado que há cerca de uma semana começou a circular na internet com o título: Salvem o Alvorada. Ele conta que o número de e-mails chega a 150 e que mensagens são enviadas também pelo portal da Prefeitura Municipal de Gaspar. Até o momento, nenhum e-mail que recebeu era de alguém se manifestando contra a movimentação.
?É importante que as pessoas reflitam e vejam que Gaspar precisa de um local para a cultura e que percebam que a nossa intenção não é acabar com os bailes que são realizados hoje, e sim, dividir o local?. Dayro acrescenta que é errado que as pessoas pensem que o intuito é fazer o Alvorada ficar restrito à elite, pois o que tem em mente seria eventos culturais e atividades artísticas que sejam abertas para todos. Ele avisa ainda que pretende abraçar a causa, para não deixá-la morrer e daqui há um tempo estar tudo na mesma condição. ?Gaspar é carente de espaço e temos de aproveitar este espaço grande que existe. Lá já foram realizados recitais de poesias, bailes de carnaval e até mesmo o Festival Escolar da Canção?.
Audiência
Dayro solicitou que o vereador Amarildo Rampelotti marque uma audiência pública, em que o assunto seja discutido. Uma audiência em que serão convidados os sócios que hoje cuidam do clube para que haja conversa e se chegue a algum acordo. Até o momento, ninguém que seja responsável pelo Alvorada entrou em contato com o Departamento de Cultura.
A sociedade também foi citada na Conferência da Juventude, no que se refere à falta de locais para a cultura em Gaspar.
Não apenas ele, mas vários locais para quais os jovens tiveram a ideia de fazer a proposta de uma parceria em que se possa ter um espaço destinado à cultura. ?O Alvorada é um local que poderia ser utilizado neste sentido?, comenta a Assessora para Assuntos da Juventude, Ana Maba.
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