
Após a vitória do ex-presidente Lula (PT) e a derrota do presidente Bolsonaro (PL), um cenário que envolve manifestações e bloqueios em rodovias se formou em grande parte dos estados brasileiros. Isso vem acontecendo desde a noite de domingo, dia 30 de outubro, após o resultado da eleição presidencial, e se intensifica a cada dia.
Diante deste cenário atípico, o Cruzeiro do Vale buscou a opinião de um especialista, que apresenta uma análise dos fatos dentro de um contexto histórico e cultural. Confira o que diz o sociólogo e professor universitário dr. Maiko Spiess.
Cruzeiro do Vale: Como você contextualiza o cenário atual pós-eleições?
Dr. Maiko Spiess: O cenário atual é uma consequência do resultado muito apertado das eleições para Presidente. O eleitorado está muito dividido e ainda muito envolvido emocionalmente. Além disso, existe todo o histórico recente de contestação das urnas eletrônicas, sobre a atuação do STF e do TSE, etc. Isso gera desconfiança em relação ao sistema eleitoral e um descontentamento de uma parcela da população que decide, por exemplo, bloquear as rodovias. Parece-me, no entanto, que o establishment (as forças políticas estabelecidas) vai em outra direção: os chefes do legislativo, notórios bolsonaristas eleitos (Damares Alves, Ricardo Salles, General Mourão...), lideranças como os pastores que apoiaram Bolsonaro, já reconheceram o resultado das urnas, mesmo que insatisfeitos. Nos próximos momentos, será uma questão de avaliar a capilaridade e capacidade de persistência dos movimentos de rua. Conforme o tempo passa, fica mais difícil, por um lado, manter o apoio da população não radicalizada, que sofrerá com escassez de produtos, dificuldade de mobilidade. Por outro, em diferentes instâncias, já se aponta os limites legais das ações, o que também impõe condições práticas para a continuidade das manifestações.
Cruzeiro do Vale: Pela primeira vez na história, após a Ditadura Militar, um presidente não se pronuncia após as eleições. O que você diz sobre isso?
Dr. Maiko Spiess: Tentando ser bem objetivo e imparcial, como sua pergunta mesmo sugere, é algo atípico. Foge da liturgia, rituais e práticas da democracia. Mas essa postura sempre foi parte do Marketing Político de Bolsonaro: se apresentar como ‘anti sistema’, como supostamente ‘autêntico’.
Cruzeiro do Vale: Você considera que as manifestações são legítimas?
Dr. Maiko Spiess: A princípio, em sociedades livres, é legítimo que o povo se manifeste. Então, por um lado, é possível afirmar que são manifestações legítimas. Por outro lado, a livre locomoção, o livre exercício da atividade econômica, a manutenção de serviços básicos são também direitos constitucionais que estão sendo restringidos. Quantas pessoas em trânsito não puderam chegar ao seu local de trabalho? Quantas mercadorias - muitas deles sensíveis ou perecíveis - estão presas nos bloqueios? A pergunta que se deve fazer é: se a reivindicação fosse outra, se a ideologia política fosse outra, esse método de manifestação estaria sendo tolerado ou condenado?
Cruzeiro do Vale: Quais os reflexos que isso pode trazer em um contexto econômico e social?
Dr. Maiko Spiess: Economicamente, isso vai depender da duração e da intensidade das manifestações. Alguns representantes dos setores produtivos já apontam algum prejuízo, mas ainda é difícil mensurar. Socialmente, essa situação vai estendendo a polarização e os potenciais conflitos, mas talvez a população já esteja cansada dessa situação, após uma eleição bem acirrada e conflituosa. Os próximos momentos e a manifestação (ou ausência dela) por parte do candidato derrotado vão indicar se a situação persiste ou reduz.
Cruzeiro do Vale: Você acredita que a ausência de pronunciamento do presidente Bolsonaro e as manifestações podem resultar em guerra civil ou militar?
Dr. Maiko Spiess: Pergunta difícil. No estado atual, não creio que venha a evoluir para isso. Seria, no entanto, muito lamentável e um retrocesso. Sociedades economicamente prósperas e politicamente estáveis dificilmente surgem dessas condições. Acho que muitos setores da sociedade teriam muito a perder, não sendo, portanto, algo que busquem ativamente.
Cruzeiro do Vale: Pela primeira vez as eleições dividiram opiniões e a luta pelo poder foi tão acirrada. Quais reflexos isso pode ter futuramente?
Dr. Maiko Spiess: Os resultados e suas repercussões são ainda muito recentes para fazer prognósticos muito assertivos. No entanto, creio que dois fatores devem ser considerados. Primeiro: qual a estratégia bolsonarista para os próximos meses e para o processo de transição? Será de confronto ou resignação? Em resumo, teremos uma disputa constante e, portanto, o prolongamento da tensão em um ‘terceiro turno’? Segundo: como será a composição do novo governo, sua capacidade de manter os acordos que levaram a uma frente ampla e sua capacidade de pacificar a sociedade? Lula construiu até aqui uma aliança com diferentes personalidades, inclusive opositores históricos como Geraldo Alckmin, FHC e os economistas do Plano Real. Se for bem sucedido em manter essa rede de apoios e convencer a população de que tem condições de governar e de reduzir conflitos, pode ser que tenhamos uma redução gradual das tensões. Os efeitos econômicos e sociais dependem, em certa medida, da redução do conflito e do aumento da previsibilidade: as pessoas e a economia têm aversão à incerteza, imprevistos. Se for construída uma sensação de segurança, as tensões podem arrefecer, ainda que não desapareçam por completo.


Copyright Jornal Cruzeiro do Vale. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Cruzeiro do Vale (contato@cruzeirodovale.com.br).