Uma comunidade esquecida
O posto de saúde fechou por falta de médico; a comunidade católica não tem mais atividades por falta de participação; a associação de moradores morreu por falta de interesse das novas lideranças; a zona eleitoral foi desativada pelo baixo índice de eleitores; e assim a localidade do Pocinho, antes conhecida por sua força e representatividade, tornou-se uma comunidade esquecida.
Sem posto de saúde as famílias precisam ir até o Poço Grande ou à cidade de Ilhota para consultar com um médico. Sem igreja, os fiéis católicos vão até Ilhota batizar seus filhos, assistir à missa e levar as crianças à catequese.
Sem associação de moradores a localidade fica sem representatividade e os problemas que surgem não encontram solução junto ao Poder Público. Sem zona eleitoral as famílias que residem na localidade perdem sua força política e muitos deixam de exercer seus direitos de cidadão e dever de voto.
Ligada ao bairro Poço Grande, a localidade do Pocinho se desenvolveu às margens da rodovia Jorge Lacerda e faz divisa entre as cidades de Gaspar e Ilhota. A distância com o centro de Gaspar fez com que muitos de seus moradores criassem vínculos com a cidade Capital da Lingerie e Linha Praia, responsável pelo fornecimento da água e dos serviços de telefonia do Pocinho.
Atualmente, cerca de 130 famílias residem na localidade, que devido ao esquecimento carece de muitos investimentos. As necessidades são apontadas pelos moradores, que lamentam a falta de envolvimento e o desânimo que tomou conta da comunidade.
Elvira Zermiani, ex-presidente da associação de moradores, conta que a entidade parou de funcionar em meados de 2006, quando ela era presidente e decidiu deixar o cargo. ?Estávamos envolvidos com a associação desde a década de 80, quando ela foi fundada. Já estava cansada, e achei que novas lideranças deveriam assumir. Mas ninguém quis se responsabilizar e assim a associação acabou?, lamenta.
Durante os anos em que esteve à frente da entidade, Elvira e toda a sua diretoria alcançaram grandes investimentos para a localidade, como uma obra de tubulação realizada em um esgoto que corria a céu aberto na rua Da Conceição. Outra conquista foi a criação do posto de saúde. ?Tínhamos um espaço, que era onde funcionava a antiga escola multisseriada, que também fechou por falta de alunos. Então decidimos doar o espaço para a Prefeitura instalar um posto de saúde?, lembra a antiga líder comunitária.
Para Elvira, a localidade do Pocinho só voltará a ter representatividade novamente se os moradores mais jovens arregaçarem as mangas e se envolverem nos trabalhos. ?Nós já estamos cansados, mas podemos ajudar, porém, se novas lideranças não surgirem vamos ser esquecidos para sempre?, opina.
Principais necessidades
Entre as principais necessidades apontadas pelos moradores do Pocinho, está o investimento do Poder Público em diversas áreas e setores da localidade. A rua da Conceição, onde segundo a agente comunitária de saúde Darlene Gonçalves, residem 36 famílias, precisa ser alargada, o mato precisa ser cortado, e os postes necessitam de iluminação pública com urgência. ?Muitos adolescentes voltam da escola a noite e andam na escuridão. É muito perigoso?, explica Darlene, que também se preocupa com o crescimento desordenado do local. ?Muitas famílias estão vindo morar aqui e constróem suas casas de qualquer jeito, em espaços pequenos. Esse crescimento precisa ser controlado?, aponta.
Para Darlene, se a associação de moradores tivesse em atividade, todas estas necessidades poderiam ser solicitadas ao Poder Público, porém, sem representatividade, a comunidade fica abandonada à própria sorte. Os moradores também apontam a necessidade de investir em segurança na rodovia Jorge Lacerda, que divide o Pocinho e oferece riscos aos pedestres que diariamente atravessam no local.
Igreja Cristo Libertador fechou as portas desde janeiro deste ano
Motivo de orgulho entre os moradores do Pocinho, a Comunidade Cristo Libertador está fechada desde o início deste ano. A construção, erguida com muito esforço das famílias que residem na localidade, está abandonada, coberta de barro e capim.
As portas da Comunidade se fecharam após a tragédia de novembro de 2008, quando os morros ao lado da construção cederam. Depois de muita luta, as portas voltaram a se abrir em 2009, porém, apenas celebrações passaram a ser realizadas no local. A catequese nunca foi retomada. Em dezembro de 2009 as celebrações cessaram e nunca mais voltaram a acontecer. ?A gente sente falta, porque precisa ir para Ilhota para ir na missa. Eu tive que batizar meus dois filhos em Ilhota e gostaria de ter batizado eles aqui?, conta Elis Regiane Matciulevicz.
Novas lideranças
Elis é uma das muitas jovens que podem ajudar a reativar a localidade do Pocinho. Assim como ela, Melissa Nogueira Pombal também pode ser uma das novas líderes da localidade. As duas jovens mães se dizem dispostas a ajudar a reativar tudo o que foi desativado no Pocinho, mas sabem que sozinhas não poderão ir muito longe. ?Eu me disponho a trabalhar. Acho que podemos retomar a associação e a igreja ao mesmo tempo. Mas precisamos de mais pessoas ao nosso lado?, afirma Melissa.
Para mudar a situação de abandono que o Pocinho vem enfrentando, as duas terão o apoio da ex-presidente da associação de moradores, Elvira Zermiani, e também da agente comunitária de saúde, Darlene Gonçalves.
?A primeira coisa que precisamos fazer é um mutirão para limpar a igreja, tirar o barro que tomou conta do terreno e então reativar as celebrações e a catequese. Vamos tentar fazer isso e assim voltar a ter nossa comunidade ativa?, afirma Elvira, que lembra com saudades das grandes festas realizadas todos os anos no mês de abril, que alcançavam a participação de milhares de pessoas de toda a região do Vale do Itajaí e uniam os moradores do Pocinho na organização do evento.
Água
Um dos problemas que impedem a limpeza e reabertura da igreja é a falta de água no local. Segundo Elvira, com a enchente de 2008 a tubulação de água foi quebrada.
Os moradores já pediram apoio do Samae para conseguir o conserto, mas esperam pelo solução há meses. Segundo Irodete Baribieri da Silva, diretora do Samae, a água do local é abastecida pela Casam, de Ilhota, e a equipe do Samae já solicitou o conserto.
Posto de Saúde deve voltar a atender
A falta de água também é o motivo que impede o retorno dos atendimentos médicos no posto de saúde do Pocinho. A unidade fica no mesmo terreno da igreja católica e também está abandonada.
Segundo a diretora do Samae, a previsão é de que o serviço de abastecimento de água seja retomado nas próximas semanas.
O secretário de Saúde, Francisco Hostins Junior, revela que, assim que a água for instalada o médico voltará a atender a comunidade no local.
Moradores pedem pela construção de um CDI
Além do retorno das consultas no Posto de Saúde, outra necessidade apontada pelos moradores do Pocinho é a construção de um centro de Desenvolvimento Infantil, CDI, para receber as cerca de 30 crianças com idade entre zero e cinco anos que residem na localidade. A maioria destas crianças estuda no CDI em Ilhota ou fica em casa, aos cuidados das vizinhas e avós. ?Precisávamos muito de uma creche aqui em nossa comunidade, facilitaria o dia-a-dia das mães que trabalham, como eu, pois é muito transtorno ter que ir para Ilhota todos os dias levar meu filho para a creche?, afirma Melissa.
O secretário de Educação, Neivaldo da Silva, reconhece a importância de ter um CDI na localidade, mas afirma que o número de crianças é insuficiente para abrir uma nova unidade. ?Temos o CDI do Poço Grande que recebe estas crianças e oferecemos o transporte escolar?, justifica o secretário.
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