
Mantendo a tradição que acontece desde 1970, o Papa Leão XIV enviou à Igreja Católica no Brasil uma mensagem sobre a Campanha da Fraternidade. Usando como referência um dos sermões de Santo Agostinho, ele reforçou que a Quaresma é um tempo litúrgico onde “recebemos um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão, redirecionando toda a nossa vida para Ele, ao seguirmos, por meio do jejum e a penitência, os passos de Nosso Senhor que se retirou no deserto por quarenta dias”.
Em sua mensagem, o Santo Padre destacou o papel das Campanhas da Fraternidade: “Com o intuito de animar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, já mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caridativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial”.
“Queridos irmãos e irmãs do Brasil,
Chegamos à época solene que nos lembra o dever de nos aplicarmos à prece e ao jejum mais do que em qualquer outro tempo do ano, iluminando nossas almas e disciplinando nossos corpos (Sermão 210). Assim escreveu Santo Agostinho em um de seus sermões sobre o tempo litúrgico que estamos para iniciar, durante o qual recebemos um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão, redirecionando toda a nossa vida para Ele, ao seguirmos, por meio do jejum e a penitência, os passos de Nosso Senhor que se retirou no deserto por quarenta dias. Neste tempo de intensa oração, somos igualmente convidados a praticar com renovado empenho a virtude da caridade com os mais pobres e necessitados, com os quais o próprio Cristo se identifica (cf. Mt 25, 35-40). O Espírito Santo, autor da nossa santificação, nos conduza ao longo deste caminho.
Com o intuito de animar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial, como fiz questão de recordar na Exortação Apostólica Dilexi te: convencidos de que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres (n. 36), «devemos empenharnos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza» (n. 94). À semelhança do que havia sido feito em 1993, no presente ano, inspirados pelo lema "Ele veio morar entre nós" (cf. Jo 1, 14), a proposta apresentada é aquela de voltar o olhar para os nossos irmãos que sofrem com a falta de uma moradia digna.
O meu santo predecessor, São João Paulo II, convidava a voltar a atenção para os milhões de seres humanos privados de uma habitação conveniente, ou até mesmo sem qualquer habitação, a fim de despertar a consciência de todos e encontrar uma solução para este grave problema, que tem consequências negativas no plano individual, familiar e social», afirmando que «a falta de habitações, que é um problema de per si muito grave, deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais, culturais ou simplesmente humanas (Sollicitudo Rei Socialis, 17).
Neste sentido, é meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas - sem dúvida, necessárias - que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não têm onde morar.
Desejo igualmente, queridos irmãos e irmãs, que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação.
Confio estes votos aos cuidados de Nossa Senhora, que não encontrou morada em Belém para dar à luz ao Redentor, mas que tem sua casa, como Rainha e Padroeira do Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida. E, como penhor de abundantes graças, concedo de bom grado aos filhos e filhas da querida nação brasileira, de modo especial àqueles que se empenham para que todos tenham moradia digna, a Bênção Apostólica.
Vaticano, 11 de fevereiro de 2026, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.”

A Campanha da Fraternidade 2026 começou nesta Quarta-feira de Cinzas, dia 18 de fevereiro. Com o tema ‘Fraternidade e Moradia’ e o lema ‘Ele veio morar entre nós’, a campanha tem como objetivo iluminar, à luz do Evangelho, a realidade de milhões de brasileiros que ainda não têm acesso a uma casa adequada. A escolha do tema acolheu a sugestão da Pastoral da Moradia e Favelas, reforçando o compromisso histórico da igreja com a defesa dos direitos sociais e da justiça.
A abertura nacional da campanha aconteceu na sede da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e marcou o início das mobilizações em todo o país.
A Campanha da Fraternidade 2026 chama a atenção para dados alarmantes da realidade habitacional brasileira: 6,2 milhões de famílias não têm moradia adequada e cerca de 328 mil pessoas vivem em situação de rua. Para a Campanha, a casa é a porta de entrada para todos os demais direitos. Sem moradia, faltam segurança, saúde, educação e dignidade. “A moradia é o espaço onde se constrói a humanidade das pessoas, é ali que se aprende a partilhar, a enfrentar as dores, a celebrar as alegrias e a criar força para seguir em frente. Quando esse espaço falta, toda a estrutura interior do ser humano é afetada. A pessoa se desorienta, perde referências, vê seus sonhos se fragmentarem e passa a viver uma experiência profunda de desenraizamento”, disse o Frei Tiago Gomes Elias, que atua no Serviço Franciscano de Solidariedade.
Copyright Jornal Cruzeiro do Vale. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Jornal Cruzeiro do Vale (contato@cruzeirodovale.com.br).