
Uma escola de cães-guia contribui para melhorar a vida de pessoas cegas em Santa Catarina. Apesar de ser considerada uma companhia essencial para o dia a dia de um deficiente visual, o número de cães-guia no Brasil ainda não é suficiente para atender à demanda para conseguir ter a tecnologia assistiva. Entre as adversidades, está a ausência de recursos para a manutenção e treinamento dos animais.
Na tentativa de minimizar essas barreiras, a Escola de Cães Guias Helen Keller, em Balneário Camboriú, entidade sem fins lucrativos, desenvolve um trabalho que reflete na qualidade de vida de muitos catarinenses e representa 20% dos cães-guia dos 150 existentes hoje no país.
A reportagem integra a série do SC+ e mostra a força de vontade das pessoas que acreditam na inclusão e no potencial dos animais, que juntos espalham por Santa Catarina mais lições de cidadania e de respeito.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) são 582 mil pessoas cegas e 6,5 milhões de pessoas com baixa visão. No entanto, os números estão desatualizados, pois são com base no Censo 2010. A região Sul concentra a maior proporção de pessoas com deficiência visual com 5,4%.
Em Santa Catarina, 14.727 pessoas não conseguem enxergar de modo algum e 174.550 pessoas tem grande dificuldade de enxergar. Dados cadastrados na Associação de Deficientes Visuais de Itajaí e Região (ADVIR) indicam que as cidades da micro-região da Foz do Rio Itajaí que tem maior número de cegos ou baixa visão são Itajaí (268), Navegantes (142) e Balneário Camboriú (76).
A escola foi criada com o objetivo de diminuir esse déficit e promover o treinamento e adaptação de cães geneticamente predispostos ao trabalho de guia sem custos para pessoa cega ou baixa visão.
“O que mais inspira neste trabalho é poder contribuir para diminuir a enorme fila de espera por pessoas cegas ou baixa visão da nossa sociedade, para que elas tenham a oportunidade de melhor qualidade vida, na sua mobilidade com menor dependência de terceiros, ou seja, promover a minha responsabilidade social”, afirma o diretor presidente da escola, Enio Gomes, de 67 anos.
Fundada em 2010, a sede começou os trabalhos com instalações modestas em Florianópolis. A sede física atual foi inaugurada em julho do ano passado e os trabalhos resultaram na formação de 23 novas duplas de usuários cães-guia, as últimas foram formadas e entregues gratuitamente, nos meses de novembro e dezembro de 2016, duas em janeiro de 2017.
O aposentado Jairton Fabeni Domingos, de 52 anos, presidente da Federação Catarinense de Entidades para Cegos, foi contemplado na última entrega de cães-guia. Ele afirma que foi premiado na loteria quando a Alegria chegou e mudou radicalmente a sua vida. Portador de uma doença que provoca a degeneração da retina e perda gradativa da visão, ele luta desde 1992 para abandonar a bengala.
“Deveria ter muito mais instituições como esta, principalmente pela quantidade de usuários que precisam. A diferença é muito grande, hoje não batemos mais em árvores e não piso mais em poças d´água. Minha autonomia é outra, além da sensação de segurança e a socialização com as outras pessoas. Eu nunca mais estive sozinho em nenhuma caminhada, pois ela está sempre comigo, é uma amiga 24h”, afirma.

Com 45 dias os filhotes são levados para as famílias socializadoras que, de forma voluntária, têm a responsabilidade de cuidar do animal. Durante esse período, os cães-guia aprendizes recebem educação básica e vivenciam as mais diversificadas experiências. Todos os custos com o cachorro, desde a ração até visitas ao veterinário, são pagos pela escola, por meio de apoios e doações. O treinador e instrutor da escola faz o acompanhamento do cão-guia aprendiz durante esse período.
Após a fase de socialização eles retornam para a escola e ficam até 6 meses para receberem o treinamento específico. Além disso, passam para a fase de adaptação com os deficientes visuais que pode durar um mês dependendo de como for o entrosamento.
A família da professora Roxana Vanesa Milak, de 41 anos, é socializadora desde novembro de uma cão-guia matriz Waffle, de oito meses, que irá gerar os novos animais para a escola. “É uma responsabilidade muito grande, pois muitas pessoas estão esperando por um cão-guia. Para a minha alegria fui escolhida para iniciar o projeto que tem o objetivo de treinar 30 cachorros por ano. Ela é de uma ninhada que veio do exterior, de uma geração de 60 anos de cães-guia. Sabemos que a genética é forte”, afirma.
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