
A prisão de um homem que se apresentava como ‘líder religioso’ revelou a extensão de uma sequência de estupros que ultrapassou fronteiras. Preso em Gaspar, O. F. W. é investigado por ter feito ao menos oito vítimas no município e outras três no Paraná, sempre com o mesmo padrão de abordagem e manipulação.
O medo e o silêncio, porém, ainda cercam a história. Esses 11 registros chegaram à Delegacia de Gaspar, mas uma das mulheres só procurou as autoridades após a prisão do suspeito, encorajada pela repercussão do caso. Com a ampla divulgação, a polícia não descarta que novos relatos possam surgir.
Em entrevista ao Cruzeiro do Vale, uma das vítimas decidiu rompeu o silêncio e deu detalhes de tudo o que aconteceu. O depoimento expõe não apenas a violência do crime, mas a dimensão de um caso que pode ter atingido muito mais vítimas do que se imagina.
No fim de 2019, Maria da Silva* atravessava um dos períodos mais devastadores de sua vida. A filha, com 13 anos e em tratamento contra depressão, havia tentado tirar a própria vida dentro de casa. Entre o desespero, a culpa e o medo de perder a menina, ela buscava qualquer tipo de ajuda. E foi nesse momento de fragilidade que conheceu aquele que, mais tarde, seria seu estuprador. “Enquanto eu estava com minha filha internada, minha cunhada perguntou se podia mandar uma foto da menina para o Preto Velho benzer. Eu autorizei. Queria buscar ajuda espiritual para ela. Levamos ela até Gaspar, onde ele atendia, e lá ele me disse que a entidade estava pedindo para ele benzer o quarto da minha filha, porque era onde havia espíritos induzindo-a ao suicídio”, relembra.
Disposta a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para salvar a filha, Maria recebeu O. F. W. em sua casa, no Paraná. Ele se apresentou incorporado como entidade espiritual e iniciou uma série de falas que misturavam ameaça e manipulação. “Fingindo ser o Preto Velho, ele disse que, se eu não seguisse o que ele orientava, minha filha conseguiria se matar e que as entidades não iriam ajudar porque eu teria desobedecido. Eu sempre estive disposta a fazer tudo pela minha filha, e, aquele momento, eu disse ‘sim’.”
A manipulação avançou para a culpa. Ele afirmou que Maria era responsável pelo que havia acontecido com a filha, atribuindo o caso a uma suposta ‘maldição nas gerações das mulheres da família’. Ele também determinou silêncio absoluto. “Ele disse que eu não podia contar para ninguém. Que, se eu falasse, os orixás iriam desfazer a ajuda e minha filha ia se suicidar.”
Sob medo constante e pressão psicológica, Maria foi induzida a manter relações sexuais com ele três vezes ao longo de dois meses. O primeiro abuso aconteceu na casa onde ela mora, local em que supostamente estavam os espíritos. Os outros dois estupros ocorreram em um sítio em Morretes, no Paraná, onde ele também realizava atendimentos espirituais. “Era o pior momento da minha vida. Eu estava sozinha, sem marido, sem apoio da família. Hoje, com minha vida organizada e minha filha bem, eu me pergunto como permiti passar por isso. Eu me acho inteligente, esperta. É uma humilhação muito grande enfrentar o julgamento das pessoas”, desabafa.
O silêncio só começou a ruir seis anos depois. Em dezembro de 2025, ao chegar em casa após passar a noite no hospital acompanhando o tio, Maria recebeu uma revelação que a fez reviver tudo. A filha contou ao padrasto que também havia sido alvo de investidas de O. F. W. “Minha filha contou para meu marido que O. F. W. passou a mão nas suas partes íntimas e que pediu uma foto da sua bunda, aparecendo só a calcinha, para poder fazer trabalhos espirituais. Quando meu marido me contou, eu fiquei em choque. Pensei: é a mesma coisa que aconteceu comigo.”
A partir dali, Maria passou a procurar outras mulheres que frequentaram o mesmo terreiro. E os relatos se repetiram. “Entre as mulheres que eu conheço, nenhuma procurou ele para ‘abrir caminhos’. Sempre era por causa de depressão, tentativa de suicídio, doença grave. Eram mulheres com filhos, sozinhas, fragilizadas. Ele usava a desculpa de ‘limpeza no útero’. Dizia: ‘você carrega isso, você vai destruir sua família, seu filho vai morrer’. E a gente acreditava.”
Algumas registraram Boletim de Ocorrência. Outras, segundo Maria, optaram pelo silêncio e guardam esses fatos para si por medo da exposição perante a família.
Hoje, aos 42 anos, casada e com a filha em segurança, Maria carrega marcas que não desapareceram com o tempo. O que mudou foi a decisão de não permanecer calada. “Me sinto uma idiota por ter caído nisso. Mas ele foi extremamente manipulador. Machista, preconceituoso. Eu só suportei em silêncio porque, na minha cabeça, aquilo era pela minha filha. Eu não conhecia a umbanda, nunca tinha tido contato. Achei tudo estranho, assustador, mas estava disposta a qualquer coisa para salvá-la.”
Agora, seu desejo é por justiça. “Espero que ele seja julgado, condenado e que pague pelo que fez. Que nunca mais tenha a chance de fazer isso com ninguém.”
*Nome fictício para preservar a identidade da vítima.
A prisão de O. F. W., de 63 anos, aconteceu no dia 11 de fevereiro, após meses de investigações. Ele foi detido em via pública, quando dirigia pela Avenida Deputado Francisco Mastella, em Gaspar, em uma ação conjunta das polícias Civil e Militar.
Contra ele, já havia um inquérito policial em andamento do ano de 2024. Um novo inquérito foi instaurado em 2025, após relatos de diversas vítimas de Gaspar e também do estado do Paraná.
O. F. W. está detido no Presídio Regional de Blumenau.

Denunciar um caso de estupro é difícil, mas essencial para garantir proteção da vítima e a prisão do agressor. Se você foi ou conhece alguém, procure a delegacia mais próxima ou ligue 190 em caso de emergência. Há também o telefone 180, que funciona 24 horas, de forma gratuita e sigilosa, oferecendo orientação sobre como proceder e quais serviços estão disponíveis.

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