Alunos com necessidades especiais na rede pública de Ensino de Gaspar têm suporte, mas obstáculos persistem - Jornal Cruzeiro do Vale

Alunos com necessidades especiais na rede pública de Ensino de Gaspar têm suporte, mas obstáculos persistem

23/04/2016
Alunos com necessidades especiais na rede pública de Ensino de Gaspar têm suporte, mas obstáculos persistem

Assim como qualquer outra garota de 13 anos, Keli Cristiane Filippe quer sempre estar bem arrumada e rodeada de amigos. Vaidosa, delicada e sorridente, é com brincos e cabelo amarrado que ela gosta de ir à Escola Municipal Ferandino Dagnoni, que fica no Gasparinho, bairro onde mora. Mas Keli é diferente. A paralisia cerebral decorrente do nascimento prematuro faz com que a estudante do 7º ano do Ensino Fundamental tenha necessidades especiais.


Ela é uma das 270 crianças matriculadas em escolas municipais e estaduais de Gaspar que convivem com algum tipo de deficiência. Boa parte delas, como é o caso de Keli, precisa de um professor que a acompanha individualmente e adapta o conteúdo que é dado em sala de aula. “Tudo começa no planejamento. Os professores têm que repassar para o professor suporte o que vai ser trabalhado com a Keli e tudo é flexibilizado para ela”, explica Simara Nicoletti, diretora da Ferandino Dagnoni.


Flexibilizar, porém, não quer dizer que as coisas fiquem mais fáceis. Keli faz provas e exercícios como todos, só que de forma adaptada para a sua condição. Como a deficiência atinge a parte motora, ela usa um equipamento preso à cabeça para digitar no computador. A ponteira foi desenvolvida pela Associação de Reabilitação da Criança Deficiente, a ARCD, em Joinville. Os exercícios e provas têm muitas figuras, o que ajuda a aluna a distinguir e entender o conteúdo.


Em casa, o pai e a madrasta também tem a missão de auxiliar na aprendizagem e são testemunhas do progresso da filha. “A cada mês, a cada ano, ela vai evoluindo e a gente vê. Mesmo que seja pouquinho para a gente, pra ela é um monte”, conta Marcos Antônio Filippe, pai de Keli.


Além das aulas regulares, a adolescente faz fisioterapia, hidroginástica, é acompanhada por médicos e participa de atividades na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, a APAE de Gaspar. O suporte é necessário para o desenvolvimento e exige esforço dela e dos pais. “A gente não para. Todo dia tem uma consulta, ou hidro, ou atividade e temos que levá-la porque é para o bem dela”, afirma Marcos.


Ele acredita que assim como o respaldo dado pela escola, é essencial que pais de crianças com deficiência se comprometam com o progresso dos filhos. “Todos os atendimentos são bons. Desde pequenininha eu fiz todos os atendimentos que disseram que ela precisava, porque é necessário. Se a gente não fizer o que estão pedindo ela não vai evoluir. E tem pais que não acham que é benéfico, que não faz a diferença”, opina.


Marcos ainda avalia que o fato de Keli estar em sala de aula com alunos sem deficiência é bom para ela, que mesmo sendo uma criança tranquila fica cada dia mais exigente - consigo mesma e com o ensino - e atenta a como pode avançar. “Ela vê o que as crianças fazem e também quer fazer. E isso é bom pra ela, pra evolução dela”, avalia o pai.

 

Atenção especial é um direito 

A atenção diferenciada nas escolas públicas e privadas é um direito determinado por lei. Para apontar que tipo de atendimento o aluno precisa, laudos médicos são avaliados pela Educação. “A gente tem que observar e ver quem tem direito ao professor suporte e quem não. Não são todos os casos que recebem, até porque tem casos que se a gente dá o professor suporte a criança vai regredir e não progredir no aprendizado”, afirma diretora de Educação Especial de Gaspar, Katia Vargas Soares.


De acordo com dados da Secretaria de Educação, atualmente trabalham no município 23 professores de suporte pedagógico para Educação Especial e 23 auxiliares de professores da Educação Especial para atender alunos com os mais diversos laudos - como autismo, paralisia, síndromes e dislexia e assim por diante.


A diretora garante que os 210 alunos da rede municipal que necessitam da atenção especial estão recebendo atendimento. “Todos estão assistidos. Claro, pode ter um caso ou outro que está sendo avaliado a necessidade de professor suporte, mas aí está sendo encaminhado”, justifica Katia.


No município, é exigido dos professores suporte formação em pedagogia e especialização em Educação Especial. Já aos auxiliares é obrigatório o Ensino Médio. O professor suporte elabora aulas, executa com o aluno e o acompanha dentro de sala de aula e o auxiliar atende alunos que têm dificuldades em se alimentar, locomover e nas atividades na rotina escolar.

 

Formação é apontada como problema

Mesmo com o cenário positivo do ensino de alunos com necessidades especiais em escolas regulares, alguns casos não obtêm o mesmo resultado. É a história da pequena Nicoly Paulo, 7 anos. Com autismo, ela ingressou no ano passado no 1º ano do Ensino Fundamental na Escola Luiz Franzói, mas algumas circunstâncias fizeram a mãe acreditar que ela estava regredindo. “Eles até fizeram as adaptações de comodidade que precisava, compraram cadeira, mas os professores não estavam capacitados para lidar com uma criança autista. Eles tinham que aprender mais de primeiro socorros, para lidar com emergências também. Falta muita coisa”, afirma Maria Aparecida da Silva, mãe de Nicoly.


Ela decidiu então tirar a menina da escola e agora ela é atendida na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, a Apae, em Gaspar. “Eu espero que um dia ela volte para a sala de aula”, ressalta Maria. Na associação são atendidas 337 pessoas. Segundo a diretora, todos os anos alguns alunos deixam as escolas e passam a ser atendidas somente pela Apae. “Tem casos que é por escolha da família, outros por condição da criança mesmo, questão de adaptação. Mas, atualmente, quem pode estar no ensino regular está”, diz a diretora da Apae de Gaspar, Rosa Nunes Masson.


A Secretaria de Educação de Gaspar assume que existem obstáculos a serem superados. Segundo a secretaria, devido aos mais diversos laudos de deficiências e lidando com cada caso em sua particularidade, os professores acabam não tendo formação específica que se aplique a todos os alunos. Dificuldade que tenta ser vencida na prática. “É o caso de um dos alunos da (escola) Ferandino. Ele tem Síndrome de Geórgia, que é uma síndrome rara, que mal tem o que estudar sobre. Estamos aprendendo com ele”, conta Katia.


Os profissionais também pontuam que têm que lidar com a expectativa dos pais. “Nós temos casos graves que os pais não entendem que a criança com deficiência tem seu próprio tempo, que é bem devagar, cobram o resultado imediato. Temos que dar tempo a criança. Uns vão aprender rápido, outros vão demorar muito”, afirma a diretora.

 

60 alunos nas escolas estaduais 

As escolas municipais retêm o maior número de estudantes com alunos deficientes. São 210, segundo a Secretaria de Educação de Gaspar, quando nas cinco escolas estaduais são 60 matriculados. Além deles, existem 17 estudantes que apresentaram laudo mais recentemente ou que ingressaram nas unidades este ano e ainda aguardam a avaliação da Fundação Catarinense de Educação Especial, que analisa se o aluno se encaixa nos critérios de aluno especial e se terá acesso ao segundo professor.


De acordo com a Agência de Desenvolvimento Regional, ADR, são 40 professores assistentes na cidade. Além da atenção especial dentro da sala de aula, a maioria dos estudantes das estaduais recebem atendimento na Sala de Apoio ao Estudante com Deficiência, SAED, para estimular e reforçar a aprendizagem.

 

Edição 1746

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