Por Ana C. Bernardes
Assim que Débora Tamazini Mafra, 24 anos (foto), descobriu que estava grávida do primeiro filho, teve certeza de que faria cesariana em vez de parto normal. A justificativa era de que preferia não sentir dores em um dos momentos mais especiais da vida. No início desse mês, no hospital de Gaspar, a jovem foi submetida ao procedimento cirúrgico e, em algumas horas, já estava com a filha Camila nos braços. ?Foi tudo muito simples e rápido. Se eu tiver outro filho, optarei pela cesárea de novo?, afirma.
Assim como ela, Deiviane Amaral, 22 anos, também esteve no local neste mês e deu à luz gêmeos. Essa foi a terceira gestação da jovem e a segunda vez que passou por cesariana. ?Fiz cesárea por causa dos gêmeos e da outra vez por recomendação médica, mas prefiro o parto normal. A recuperação é muito mais rápida e menos dolorida?, destaca.
A escolha por parto normal ou cesariana vem sendo alvo de polêmicas no Brasil. Em janeiro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar, ANS, criou uma normativa que impõe mudanças aos planos de saúde e estimula o parto natural com o objetivo de diminuir o número de cesáreas no país. Segundo a ANS, 55% dos partos feitos no Brasil são por procedimento cirúrgico. A recomendação da Organização Mundial da Saúde, OMS, é de que esse número seja de apenas 15%. Em Gaspar, o panorama não é diferente. Em 2014, o Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro realizou 601 partos. Desses, 346 foram cesarianas (57,6%) e 255 partos normais (42,4%).
Acesso à analgesia
Uma alternativa, segundo o obstetra Giovane Ventura, que pode ajudar na redução de cesáreas no país é o acesso das gestantes à analgesia, capaz de diminuir a dor durante o parto. ?Grande parte das mulheres não faz parte normal por ter medo de sentir dor, apesar de cada caso ser específico. Com a analgesia, esse receio diminuiria significativamente?, ressalta. Devido à falta de estrutura, a analgesia dificilmente é aplicada nas gestantes que optam pelo parto normal. 
Obstetra defende atenção ao pré-natal
Giovane Ventura, médico obstetra do hospital de Gaspar, afirma que é necessário, primeiramente, pensar na base dos atendimentos às gestantes antes mesmo de pensar no final da gestação. Por esse motivo, ele acredita que a normativa não é uma solução eficiente. Para ele, é preciso rever os serviços prestados na assistência pré-natal, que há anos vem sendo tratada com descaso. ?Isso acontece tanto no atendimento público quanto na rede privada. Muitas gestantes acabam não comparecendo às consultas, nem fazendo os exames de rotina durante a gestação. Esse atendimento é de suma importância para a mãe, bebê e familiares, já que trará informações sobre todo o processo. Sem informação, a mãe acaba optando pela cesárea, que parece muito mais cômoda?, explica.
Na saúde pública, as gestantes têm direito a, no mínimo, realizar seis consultas durante o pré-natal, além de exames e ultrassonografias. Apesar disso, ainda há diversas mulheres que chegam a fazer apenas três ou quatro consultas durante os nove meses de gravidez. Para ele, o aumento no número de partos normais, que é mais benéfico às mulheres, seria de grande importância. No entanto, ele ressalta que a criação da normativa pode acabar tirando a oportunidade de se discutir melhor o assunto. ?O alto número de cesáreas também é reflexo de uma população com pouca educação em saúde e da falta de estrutura e investimento financeiro nessa área. É preciso que se desmitifique o parto normal, converse sobre ele e seus benefícios de forma ampla?, opina.
Edição 1660
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