23 de novembro de 2008. Essa data nunca será esquecida pelos moradores de Gaspar, Ilhota e de toda a região. Uma tragédia destruiu e deixou o Vale do Itajaí em destaque até mesmo em redes nacionais. Ela causou dor e tristeza, tumultuou a vida de milhares de famílias, chegou ao fim e levou consigo centenas de vidas, sonhos e planos.
A força das águas que caiu na região naquele fim de 2008 deixou um cenário de destruição. Famílias inteiras foram soterradas e dezenas de pessoas foram levadas pela catástrofe. Até hoje, o corpo de uma criança não foi encontrada no Alto Baú, em Ilhota. Em Gaspar, o corpo de uma idosa também não foi encontrado.
A região mais atingida foi a do Baú, que contabilizou mais de 30 mortes. Além das perdas de familiares e amigos, que somam valores incalculáveis, os danos materiais foram enormes.
Durante toda a enchente de 2008, a equipe do Cruzeiro do Vale ficou de plantão dia e noite. Fotógrafos e jornalistas estavam nas ruas apurando as notícias e uma equipe ficou de prontidão na sede do jornal atualizando os leitores dos acontecimentos em Gaspar, Ilhota e em toda a região. Os jornalistas se arriscaram nos locais mais críticos para mostrar a realidade aos leitores. Eles foram de carro, helicóptero, caminhão e percorreram diversos quilômetros a pé, em meio a mata, junto da equipe de resgate. Tudo para que a primeira edição do Cruzeiro do Vale após a tragédia mostrasse à comunidade a triste realidade que os moradores enfrentaram em dias de muita dor.
Relembre os principais momentos da tragédia que destruiu Gaspar, Ilhota e o Vale do Itajaí:
Confira fotos gerais da tragédia em Gaspar e Ilhota:
Um clarão pode ser visto longe. Um barulho de explosão, as chamas e o tremor chamaram a atenção dos moradores. Eles indicava que algo estranho havia acontecido. Na madrugada de 22 de novembro de 2008, sábado, o rompimento de parte da adutora do gás natural na BR-470, no trecho que compreende Gaspar, aconteceu por volta das 3h e registrou labaredas de fogo de até 50 metros de altura. As chamas chegaram a atingir uma residência, que ficou totalmente destruída. Duas famílias moravam na casa e perderam todos os pertences. A explosão do gasoduto foi o primeiro acontecimento da tragédia que estava por vir.
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Belchior
O desastre também tomou conta do bairro Bechior, em Gaspar. Diversas áreas foram isoladas e os moradores foram levados aos abrigos. A maioria saiu com a roupa do corpo de casa. Eles foram amparados com roupas, alimentos, materiais de higiene e demais produtos de sobrevivência.
Os acessos ao Belchior também ficaram bloqueados. Os moradores ficaram sem o fornecimento de água e energia elétrica por diversos dias.
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Hoje, alguns momentos de chuva fazem com que o bairro Sertão Verde, na Margem Esquerda, em Gaspar, comece a alagar. Em 2008, essa foi uma das localidade mais atingidas. Além dos alagamentos, a comunidade também assistiu desbarrancamentos, que vítimas da enchente em Gaspar.
As sete pessoas que morreram após um desbarrancamento no bairro Sertão Verde são da família de André de Oliveira. Ele foi o único da casa que sobreviveu. Ele estava na casa com a esposa, grávida de dois meses, dois filhos (de nove e três anos) e outras quatro pessoas. O fato aconteceu no dia 23 de novembro. Na época com 29 anos, André conversou com a equipe do Cruzeiro do Vale sobre a tragédia. Confira a entrevista publicada em 2008:
Jornal Cruzeiro do Vale: Sua família estava toda em casa no momento em que houve o primeiro desbarrancamento?André de Oliveira: Eles estavam dentro de casa e eu na frente. Mas, não era a nossa casa. Era a casa da minha tia. Eu tirei eles da nossa casa, que estava pegando água, e levei para a casa da minha tia, que era um local seguro. Eu vi o morro desbarrancando e me joguei em cima do que sobrou. Eu gritava o nome da minha esposa, dos meus filhos, e então ouvi minha filha chorar e eu queria encontrá-la. Eu estava em cima dos escombros e quando eu estava procurando minha filha o morro começou a desabar novamente. Só deu tempo de pular pro lado e o barro tampou tudo.
Cruzeiro: E você desistiu de procurar?
André: Eu fiquei ali do lado parado e comecei a chorar. Tinha um bombeiro ajudando e quase que ele ficou soterrado também. E nisso, desbarrancou pela terceira vez. Daí veio a enxurrada e eu fui levado pela água para a outra rua. Eu fiquei embaixo da água e eu abri o olho e vi um clarão. Eu comecei a beber muita água e só consegui puxar um sarrafo e sair da água. Eu estava boiando em uma tábua e fui parar em cima de um telhado. As casas foram todas destruídas.
Cruzeiro: E você já assimilou a realidade de ter perdido toda a sua família?
André: Cada dia que eu me acordo e não vejo eles, cada dia para mim é uma tormenta. No domingo, quando eu perdi tudo, fiquei atordoado, perdido no Centro. Hoje eu estou na casa do meu irmão. Quando eu acordei segunda, acordei ouvindo o choro da minha filha. É muito difícil tudo isso. Eu pergunto para Deus: porque está acontecendo tudo isso comigo? Porque eu perdi tudo? Porque não ficou pelo menos um do meu lado? É inexplicável descrever o que eu sinto. Eu tirei eles para salvar da enchente e coloquei em um lugar de muito mais risco. Se eles tivessem ficado em nossa casa estariam salvos.
Cruzeiro: E como você se sentiu no momento do reconhecimento dos corpos?
André: Eles começaram a resgatar os corpos só na terça-feira, pois tinha muita água no local. Eu sabia onde estavam os corpos. Eu só ia falando e os bombeiros procurando. Primeiro eu reconheci a minha esposa e minha filha. Elas foram encontradas juntas, abraçadas, e assim elas foram enterradas. Quando eu descia depois de enterrar as duas, os peritos do IML me chamaram para reconhecer mais dois corpos, que era do meu filho e minha sogra.
Cruzeiro: Muitas pessoas falam que preferiam morrer a ser o único sobrevivente de um desastre envolvendo a família. Esse pensamento passou pela sua cabeça?
André: Eu preferia ter morrido junto. Eu fiquei lá pra morrer. Quando eu estava lá embaixo da água eu não queria mais voltar, mas daí me deu um medo muito grande e pensei: e se um deles sobreviver? E se encontrarem um deles vivos? Isso me deu uma esperança, então eu decidi tentar me salvar.
Cruzeiro: Você tem esperanças e forças para tentar reconstruir sua vida?
André: Ainda nem tive tempo de pensar nisso. Mas, se um dia eu casar de novo e tiver um filho ou uma filha, vou colocar o nome de Elienai se for menino ou Ester, se for menina. Só pra lembrar deles.
O bairro Sete de Setembro ficou parcialmente alagado na enchente de novembro de 2008. As águas começaram a baixar no dia 25, dois dias após o início da enchente, e no dia 27 a água ainda baixava lentamente, podendo ser vistos pontos alagados. Muitos moradores perderam seus móveis e muitas casas ficaram completamente alagadas. Nesse bairro, a Escola Frei Godofredo, a Igreja do Evangelho Quadrangular e alguns galpões de empresas serviram de alojamento aos desabrigados.
No Centro de Gaspar, era possível ver o movimento de pessoas nos arredores da Ponte Hercílio Deeke. Todos conferiam com frequência o nível do rio e torciam para que ele começasse a baixar. Parte da Avenida das Comunidades, também no Centro, ficou alagada.
Além dos alagamentos, um desmoronamento deixou a avenida parcialmente interditada. Árvores, galhos e muito barro invadiram a pista em frente ao Tabelionato Santos. Eles eram resultado do desbarrancamento do morro da Igreja Matriz de Gaspar.
Desmoronamentos e alagamentos também foram registrados no bairro Gasparinho. Casas chegaram a ser atingidas por árvores e morros e famílias foram retiradas de suas propriedades por estarem em área de risco. No período de enchente, a Associação de Moradores montou uma central de recebimento para realizar a doação de roupas e alimentos aos moradores.
ILHOTA
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Sem dúvida nenhuma, a região do Baú, em Ilhota, foi a mais afetada com a catástrofe que assolou o Vale do Itajaí em 2008. O cenário era de guerra. Tudo ficou destruído. Famílias inteiras perderam suas vidas. Naquela localidade, o desmoronamento de morros foi o que mais assustou os moradores. Casas chegaram a ser tomadas por completo pelo barro. A tristeza tomava conta. As horas pareciam não passar. Quem sobreviveu tem histórias que, quando contadas, são difíceis de acreditar.
O trabalho de resgate aos moradores que sobreviveram à tragédia seguiu de forma ininterrupta. Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e demais equipes de resgate trabalharam de forma incansável. Corpos eram achados a todo o momento. Crianças, jovens, adultos e idosos morreram soterrados.
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Depoimento do diretor do Jornal Cruzeiro do Vale, Gilberto Schmitt. O relato foi publicado no jornal em novembro de 2008:
“Cenas de guerra. Terror catástrofe. Destruição. Inacreditável para os ilhós humanos. Quarta-feira de manhã, por volta as 10h, consegui, juntamente com o fotógrafo Fábio Venhorst, uma carona com o helicóptero do exército até o Alto Baú. Eu era o primeiro jornalista a pisar naquela localidade após a desgraça. Chovia muito. A neblina ofuscava a visibilidade. Ao chegar ao Alto Baú, o helicóptero pousou no campo de futebol de propriedade de José Oescher. A propriedade tornou-se base dos 25 bombeiros que trabalhavam no resgate dos desabrigados e das vítimas. Havia cerca de 50 desabrigados que ainda não haviam sido resgatados. Os acessos terrestres estavam todos bloqueados. Para seguir viagem em busca de vítimas, somente a pé, entre desmoronamentos, crateras, casas torcidas, desabadas, cheias de muita lama. Como chovia muito, novos desmoronamentos podiam acontecer a qualquer momento. Por isso, todo cuidado era pouco. Conseguimos circular entre os destroços em torno de quatro quilômetros até a Igreja Nossa Senhora Aparecida. Ali não tinha como passar a pé. Os desbarrancamentos obstruíram a passagem. Um helicóptero ainda conseguiu pousas num pequeno pasto e levou três bombeiros até a região da Igreja Luterana em busca de desaparecidos e de vítimas. Naquela região também morreram diversas pessoas. A maioria dos falecidos ainda está soterrado. Poucos foram recolhidos. Os corpos que estão sendo encontrados e identificados são enterrados no cemitério da localidade. Outros são encaminhados ao IML.
Os bombeiros concentraram naquele dia as buscas pelos sobreviventes. No Alto Baú moram em torno de 600 pessoas. Todos os sobreviventes foram resgatados, com exceção de três moradores que não quiseram abandonar suas residências de jeito nenhum. Lá eles permaneceram.
Após chegarmos a base dos bombeiros, saímos juntamente com uma equipe de resgate na caçamba de um trator. A menos de um quilômetro do acampamento, já nos deparamos com um cenário desolador: a estrada foi completamente destruída pela força das águas do ribeirão e substituída por uma cratera e uma confusão de areias e destroços. Algumas casas ainda inteiras ou parcialmente destruídas margeavam o novo leito do ribeirão, dividindo espaço com carros abandonados, cobertos de lama e areia. Cachorros perdidos latiam ao redor, assustados. A partir desse ponto tivemos que seguir a pé, arriscando a vida e escalando deslizamentos de terra que haviam no caminho. Um pouco mais adiante, uma vasta planície de areia recém depositada pelas águas era cortada pelo curso do ribeirão e, além, os restos de pontes de concreto descoladas e arrancadas eram parte do cenário. Muitas árvores, postes e fios espalhados dificultavam o caminho. Nossos pés afundavam na mistura de areia e lodo. Muitas vezes até acima do joelho. Nessa altura, o tempo mudou e começou a chover grosso. Avistamos uma casa parcialmente destruída e nos dirigimos até lá. Lá, uma cena de cortar o coração: num rancho, várias galinhas e cachorros permaneciam presos, sem comida e água. Ao lado da casa, dois veículos estavam enterrados na areia. Dois bombeiros conferiram o interior do veículo em busca de possíveis vítimas, enquanto os demais vistoriavam a casa. Lá dentro, encontramos um periquito com fome, numa gaiola pendurada na parede da cozinha. Soltamos ele. A mesa ainda estava posta para o café, com pães, doces, margarina e café, mostrando que a família abandonou o lar às pressas, sem terminar a refeição. No assoalho, a lama acumulada passava do tornozelo. No quarto, camas secas, rodeadas de lama, podiam ainda ser utilizadas. Nas proximidades casa, um pequeno templo da Igreja Assembléia de Deus completamente destruído emergia da areia, num apelo silencioso à fé dos fieis ausentes.
Subimos mais e o cenário piorava a cada quilômetro. Mais casas, ou restos delas, espalhados em toda a extensão do trajeto. Veículos esmagados, soterrados. Vestígios da fuga dos moradores que deixaram seus lares às pressas. Infelizmente, muitos moradores não tiveram tempo de escapar.
Em toda a região, dezenas de pessoas desaparecidas podem estar soterradas ou refugiadas em lugares ainda inacessíveis. Em certo ponto do trajeto, o avanço da equipe ficou prejudicado e parte do grupo retornou à base, debaixo da chuva torrencial. Na base, um lanche nos aguardava. Como chovia muito, íamos pernoitar no acampamento improvisado. Por sorte, um helicóptero da Polícia Rodoviária Federal pousou e conseguimos retornar ao Centro de Ilhota. O que registramos ficará nas páginas do Cruzeiro do Vale para a posteridade e na minha lembrança como cenas de um filme de guerra. Infelizmente, tive que registrar essa desgraça; mas ficarão em minha memória também as lindas paisagens do passado no Alto Baú, que tenho certeza que um dia verei novamente.
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Poucos dias após a tragédia que destruiu o Vale do Itajaí, o Cruzeiro do Vale teve contato com pessoas que sobreviveram a tragédia e perderam familiares e amigos. Confira as entrevistas publicadas em 2008:
Um forte estouro foi ouvido por seu José Altino Richart, 59 anos, às 0h15 da madrugada de segunda-feira, 24 de novembro.
Depois de passar muitas horas sem energia elétrica e apenas observando o nível do rio, que ameaçava a casa dos outros moradores da rua Morro Azul, no Braço do Baú, José Altino decidiu dormir e fazia apenas algumas horas que estava na cama quando ouviu o estouro que marcará para sempre sua vida.
O barulho foi seguido pelo grito da esposa, Aparecida Rocha Richartz, de 59 anos, que foi atingida por um pedaço de madeira. O gemido foi o último som que seu José ouviu da esposa, que faleceu segundos após ser atingida. “Eu me salvei não sei como. Não era minha hora de morrer”, acredita o senhor, que pegou o celular com lanterna e saiu procurando de onde vinha a voz que gritava por socorro. “Eu cheguei perto e perguntei: quem é, quem é que pede socorro? E daí ouvi: Sou eu, sou eu pai. A geane. Pai, eu to trancada. Eu vi minha filha ali, soterrada pelas madeiras. Ela estava presa as pernas para baixo. Então comecei a gritar por socorro e vieram vizinhos. Fui pedir socorro no meu irmão e andei pela rua, mas não vi mais a casa do meu irmão nem do meu sobrinho. A lama levou tudo”, relembra.
Os moradores que sobreviveram ao deslizamento do morro foram ajudar seu José Altino. Eles começaram a tentar retirar Geane, a filha de 27 anos que ainda morava com os pais. “Meu sobrinho tinha uma moto serra, mas logo o equipamento pifou. Minha filha pedia para não deixar ela morrer. Ficamos tentando salvar ela e os morros começaram a tremer lá longe. Os moradores ficaram com medo e então todos sairam e eu fiquei ali com ela, em baixo da chuva. Tinhamos apenas uma jarra de água e uma velinha. Passamos a madrugada ali e ela pedia: pai, não me deixa morrer. Ela pedia para virar um pouquinho as costas dela, para aliviar a dor. No final ela dizia: pai, me mata pai. Pai, me corta a perna, eu vivendo daqui pra cima tá bom”, conta seu José Altino em meio às lagrimas. Quando amanheceu o dia, os moradores voltaram para ajudar a tirar Geane dos escombros. Ela foi retirada após passar dez horas soterrada. Eram 10 horas da manhã quando ela foi levada para um lugar seguro e começou a luta dos moradores para pedir socorro. “Não tinha telefone. Os moradores esavam em todos os cantos do baú para conseguir sinal. Até que conseguiram chamar o helicóptero. Ela ficava dizendo: não me diexa morrer. Vou ficar para ajudar o pai. Após meio dia ela começou a ficar roxa. A gente tentava esquentar o corpo dela, mas ela foi ficando gelada e depois firou os olhinhos”.
Geane aguentou a dor até às 14h30 da tarde de segunda-feira, O helicóptero chegou só às 16h30.
A casa de Jaques Sabel, 33 anos, não foi atingida pelo desmoronamento no Braço do Baú, mas muitos dos seus familiares, que residiam no Alto Baú, morreram após terem suas casas soterradas pelo barro. “Quando eu estava dentro da minha casa eu vi a enchente vindo e arrastando dois carros dentro da águia. Então eu e minha esposa saímos e fomos ficar com a família dela. Na madrugada, escutamos um estouro e seunda de manhã, quando acordamos, vimos o morro todo desbarrancado. Nessa hora eu já imaginei que eles teriam morrido”, conta Jaques.
A notícia da morte da mãe, da cunhada e dos três sobrinhos, de 13, 7 e 4 anos, foi dada pelo primo da esposa de Jaques. Na localidade do Alto Braço residiram cerca de 30 famílias. Todas estão desabrigadas, mas apenas amiliares deJaques se tornaram vítimas fatais.
Jaques ainda não foi ao local para ver os estragos causados pelos desmoronamentos. “Não temos como passar para ir até lá, mas quando der eu pretendo ir até lá ver como ficou o local onde nasci e me criei”.
Segundo Jaques, a maioria dos moradores da localidade do Baú não conseguiu assimilar o que aconteceu na madrugada de domingo, 24, de novembro, e continua acontecendo. “Nossa rotina mudou. O bairro parou. Ninguem mais trabalha. As pessoas não estao mais nas suas casas. Muitas pessoas perderam tudo. Já policiais e bombeiros por toda a parte. Ainda não conseguimoscair na real. Acho que vai demorar mais de um mês para gente entender a dimensão de tudo o que vivemos”, projeta.
Além dos cinco familiares mortos, a cunhada e o irmão de Jaques também ficaram feridos.
O forte baruilho ouvido por Geni Mendonça, 40 anos, no início da tarde de domingo, 23 de novembro, parecia ser uma árvore caindo. Assustada, a moradora do Sertão Verde resolveu sair da casa para ver o qe estava acontecendo. Antes mesmo de chegar na porta de casa, Geni ouviu o vizinho gritar: sai de casa, sai de casa. Ela pegou os filhos da vizinha, que estavam em sua casa, chamou o filho mais velho e todos pularam o muro e saíram de dentro de casa.
No momento em que chegou na rua e olhou para tras, Geni viu que a casa de sua irmã havia sido completamente destruída pela força do morro, que desabou em cima de diversas residências. “Quando vi a casa destruída pensei: perdi meus filhos. Agora só tenho o mais velho. Pois meus outros filhos estavam na minha irmã. Fiquei desesperada”.
Mesmo assustada e sem saber onde estavam seus filhos, Geni saiu do local pela mata. Assim como a maioria dos moradores, saiu de casa apenas com a rouipa do corpo. Ela perdeu tudo. Casa, móveis e até mesmo o terreno.
O trajeto até o Posto do Julinho foi feito por todos os moradores, que corriam risco de morrer se permanecessem no Sertão Verde. “Quando cheguei lá vi que meus dois filhos estavam vivos e estavam bem. Fiquei feliz em vê-los, mas na hora eu já sabia que havia perdido minha filha Jéssica. Ela era uma meninoa muito boa. Sempre ajudava em casa”, lembra a mãe, que agora chora a perda da filha de 14 anos.
A felicidade estava estampada no sorriso do pequeno Luis Fernando Oeshler, de 10 anos, no momento em que saiu de perto dos pais para dormir na casa do padrinho Alcídio Oescher na noite de quinta-feira, 27 de novembro. O pai do menino, Pedro Luis Oescher, de 43 anos, estava alojado com a esposa e os outros dois filhos na casa de uma vizinha, na localidade do arraial, e a ida do filho para a casa do padrinho seria um alívio. “Imaginávamos que lá ele estaria seguro. Nós deixamos ele ir e depois fomos deitar, pois não tinha energia elétrica e todos estavam indo dormir cedo. Durante a noite ouvimos um estouro. Foi uma coisa terrível. Um barulho que não dá para descrever”.
O barulho acordou toda a vizinhança. Pedro ficou assustado e logo lembrou do filho que estava na casa do padrinho. No meio da escuridão, Pedro saiu vestindo apenas a cueca que usava para dormir. “quando olhei para fora, vi tudo destruído. As casas estavam desabadas. Não havia mais nada no local, só barro, lama e galhos. Fiquei desesperado. Corri para perto e gritei: ele se foi. Não havia como salvá-lo”, lembra o pai, que chora a perda do filho e do irmão, padrinhod o menino.
A família de Pedro nasceu e cresceu no Arraial. A localidade sempre foi vista com um lugar tranquilo e pacato, seguro para viver e criar as crianças. Apenas alguns irmãos de Pedro saíram do Arraial e moram em Blumenau.
Na casa onde estava o pequeno Luis Fernando também estava o padrinho Alcídio, o genro do padrinho, Oderlei Bachmann, de 28 anos, e um vizinho, que ninguém sabe o nome completo, mas era chamado de Yuri. Todos morreram.

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