
Por Thiago Moraes
Mãe de dois filhos, Maria* era constantemente agredida fisicamente pelo marido. Sem reação, peregrinava em sua vida familiar na luta contra os atos de violência do companheiro.
Testemunhando a tensão da violência doméstica de perto, Maria chocou-se ainda mais com a monstruosidade do marido quando descobriu que ele abusava sexualmente de sua filha.
Longe de ter sido a única mulher vitimada pela violência doméstica em inúmeros lares do país, Maria buscou ajuda psicológica e, sessão após sessão, encontrou a coragem necessária para priorizar a sua vida e a deu seus filhos. ?Pedi ajuda para uma irmã e uma amiga, denunciei-o à polícia, preparei meus filhos, fiquei afastada de casa por alguns dias e depois retornei à vida normal. Atualmente moro com meus dois filhos, estou separada, mas com vida?.
Mesmo com a criação da Lei Maria da Penha, em 2006, que criou mecanismos e punições para reprimir a violência doméstica, a psicóloga Viviane Giombelli, conta que existem muitas situações em que as mulheres não chegam nem a procurar seus direitos na Justiça devido ao medo da exposição e da revolta do marido, além do receio da solidão. ?Na maioria dos casos são dependentes afetivamente do marido e temem perdê-lo, além de terem receio do aumento da intensidade da violência, caso ele fique sabendo?, aborda Viviane.
Trabalhando com método psicodramático, que se utiliza de dramatizações criadas e improvisadas pelas pessoas participantes de um grupo ou em atendimentos individuais, para o tratamento psicoterapêutico e para possibilitar de vivenciar situações em espaço protegido, Viviane faz acompanhamento psicoterapêutico de mulheres e familiares vítimas de violência doméstica. ?Há inúmeros casos a serem relatados, contudo, o que impacta é a capacidade que as mulheres têm de reconhecerem a força que possuem quando se dão conta da situação em que estão e do prejuízo que estão causando aos filhos e a si próprias?, relata Viviane.
Desistência alta
Os papéis de vítima e algoz têm contornos menos definidos do que parece aparentar quando se trata de violência doméstica. Atuando em audiências mensais sobre o tema, a promotora Chimelly Louise de Resenes Marcon, do Ministério Público de Gaspar, sublinha que os motivos para as mulheres procurarem a Justiça variam, e que a maioria delas acaba desistindo na hora de dar sequência no inquérito.
?Os motivos para as desistências são os mais diversos, como o susto que a mulher deseja dar no marido, afinal, quando o assunto para em uma delegacia e na Justiça, ganha outra implicação. Situações que envolvem partilhas de imóveis também podem estar em jogo. Sempre é preciso cautela ao analisar os casos nas audiências. Temos casos em que há reconciliações, pois os maridos ou o familiar em questão procuram tratamentos e se recuperam, já que há grande incidência de uso de álcool e drogas na violência doméstica?, analisa.
O delegado de Polícia Civil André Santana Amarante, que atua em Gaspar também em casos de violência doméstica, não quis se manifestar sem um estudo de caso específico sobre o tema em Gaspar.
Desenvolvimento Social oferece alternativas
A secretária de Desenvolvimento Social, Maristela Cizeski, destaca que a pasta tem agido nesta área por meio Centro de Referência da Assistência Social, o Cras. De acordo com Maristela, o Cras conta, dentre as suas atribuições, com o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família, Paif, e o de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos, Paefi.
Até outubro deste ano, foram introduzidas no acompanhamento do Paefi aproximadamente 50 mulheres com idade entre 18 e 59 anos, vítimas de violência doméstica, seja ela física, psicológica e sexual. ?É um trabalho de caráter continuado que visa a fortalecer a função de proteção das famílias, prevenindo a ruptura de laços, promovendo o acesso e usufruto de direitos e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida?, ressalta.
Segundo a secretária, outro serviço ofertado é o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, SVFV. A ajuda previne a institucionalização e a segregação de crianças, adolescentes, jovens, mulheres e idosos e oportunizam o acesso às informações sobre direitos e participação cidadã. ?Os trabalhos ocorrem por meio de grupos que se organizam de modo a ampliar trocas culturais e de vivências, desenvolver o sentimento de pertença e de identidade, fortalecer vínculos familiares e incentivar a socialização e a convivência comunitária?, informa Maristela.
De acordo com a secretária, as famílias são acompanhadas por equipes técnicas especializadas, composta por assistentes sociais, psicólogos, pedagogos ou educadores sociais, objetivando contribuir para o rompimento das situações de violações de direito, além de reparação de danos, auxiliando o fortalecimento da família e prevenindo novas violações.
Benefícios dos programas do Desenvolvimento Social
- Fortalecimento da função protetiva da família
- Prevenção da ruptura dos vínculos familiares e comunitários
- Apoio a famílias que possuem, dentre seus membros, indivíduos que necessitam de cuidados, por meio da promoção de espaços coletivos de escuta e troca de vivências familiares
Como acessar os serviços do Desenvolvimento Social
- Por demanda espontânea ou encaminhamentos de denúncias do Conselho Tutelar, Ministério Público, Delegacia de Polícia Civil, entre outros
- Disque 100, Disque 180
- Central de Atendimento à Mulher (24 horas)
- O serviço preconiza o sigilo das situações familiares acompanhadas
Edição 1636
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