
Sentimentos como amor, respeito e dedicação são essenciais para se manter firme na luta do dia a dia. É munida desses sentimentos e de muita perseverança e força que Maria Aparecida da Silva, moradora do bairro Bateiras, em Gaspar, enfrenta o preconceito da sociedade perante seus três filhos autistas. Porém, a mãe guerreira não se deixa abalar e garante o melhor para quem tanto ama: Nicoly, Lorenzo e Amanda, de 8, 6 e 5 anos, respectivamente. As crianças foram diagnosticadas com autismo ainda nos primeiros meses de vida e foi nesse momento que a mãe deu início às pesquisas na área e, consequentemente, começou a divulgar o autismo.
De acordo com Maria, as dificuldades para criar os filhos são grandes. “O pior é o preconceito, sem dúvidas. O autismo não está estampado na feição de quem tem. Muitos acham que eles são mal educados por não se comportarem como crianças da idade geralmente se comportam”. A mãe conta que no caso da filha mais velha, Nicoly, que sofre com o autismo mais severo, o julgamento dos outros é ainda maior. “Ela já foi impedida de brincar no parque. As pessoas olham feio e não medem as palavras para se dirigir a ela com preconceito. Isso dói muito para mim e também para ela”, revela.
Diante dos problemas, Maria diz que o dia a dia é complicado. As crianças têm níveis de autismo diferentes, ou seja, recebem tratamentos médicos distintos e possuem características próprias mais acentuadas. “A Amanda tem um grau menor. No caso dela, as vontades precisam ser atendidas o mais rápido possível. Ela é autoritária e quer tudo na hora dela. Trabalho essa questão, mas como é algo proveniente do autismo, fica difícil. O Lorenzo tem um grau médio. Ele vê e ouve coisas durante a noite e é muito agitado. Já Nicoly, que tem o grau mais alto, não possui coordenação motora e tem dificuldades para falar e comer”.
Pensando no melhor para as crianças, Maria se desdobra em várias. “Tenho ainda outra filha mais velha, com quem também tenho preocupações. Apesar de não ter autismo, ela precisa da minha atenção. Começo o dia levando a mais velha para a escola. Depois eu faço meu serviço na facção que tenho em casa mesmo. Nesse meio tempo já arrumei uma, dei comida pro outro e acordei a outra”, explica.
Quanto ao futuro, Maria Aparecida se depara com a incerteza. “O futuro dá medo, não vou negar. Eu quero que os meus filhos cresçam bem e possam ser mais independentes. É triste aguentar olhares tortos, comentários maldosos, situações humilhantes. Não é essa a realidade que uma mãe espera para os filhos, os nossos anjos. Por isso, eu luto por uma sociedade mais justa, respeitosa, que se informe, entenda e compreenda o autismo”, completa, emocionada.
O futuro dos filhos, temido por Maria Aparecida, já é vivenciado pelo casal Fabiano e Maria Claudia Rosa. Eles são pais de Arthur, de 19 anos, que também foi diagnosticado como autista. “Ele agora é um jovem adulto, já concluiu o Ensino Médio e começou a trabalhar. Eu e a minha esposa vivemos e focamos no dia de hoje, fazendo o que podemos para oferecer todo suporte para o nosso filho. Foi bem difícil no começo, mas agora estamos lidando melhor com a situação. O amor que temos nele nos dá forças para lutar”, diz o pai.
Ainda segundo Fabiano, o caminho até então foi bastante complicado, mas tende a melhorar. “Hoje o autismo está começando a ser entendido. Acredito que por ter aumentado o número de diagnósticos. Quem começa a sentir o autismo dentro de casa é que vai atrás e transporta essa informação para fora. Vivemos numa sociedade bem fechada, cheia de preconceitos. Isso de modo geral”.
Passadas algumas semanas da formação do Grupo de Pais de Autistas de Gaspar, os participantes agora dão encaminhamentos aos projetos pré-definidos em conjunto. Com o objetivo detrocar experiências, divulgar o autismo e buscar parcerias com o poder público, os pais têm sua programação repleta de eventos. No sábado, 1º de abril, o grupo estará na praça Getúlio Vargas, no Centro, para distribuir panfletos informativos e oferecer diversão para a criança e suas famílias. Na oportunidade, haverá ainda uma caminhada em prol da conscientização do autismo até a escadaria da Igreja Matriz.

No domingo, dia 2, a comunidade gasparense poderá participar de uma missa especial às famílias de autistas na Igreja Matriz, a partir das 8h. No pátio, haverá um espaço para as crianças brincarem enquanto os pais assistem a missa. Já na terça-feira, 4, os organizadores do grupo usarão a tribuna livre para um discurso na sessão da Câmara de Vereadores de Gaspar.
Para o dia 10 de abril, a casa de leis novamente vai palco para o assunto. Desta vez, quem será porta-voz é a fonoaudióloga Ana Paula Muller. A profissional discursará sobre terapia, família e escola no tratamento do autismo. O grupo de pais ainda projeta promover rodas de conversa, uma horta orgânica e outras palestras com temáticas em torno do autismo. Fora isso, ainda esse mês, a Igreja Matriz vai receber a iluminação azul, cor que simboliza a síndrome.
De acordo com Cinara Alves, mãe do pequeno Pedro Leonardo e integrante do grupo, o calendário de eventos está sendo positivo e o resultado é gratificante. “Eu me senti acolhida desde o primeiro encontro. É importante conversar com pessoas que estão na mesma situação que eu para tirar dúvidas. Isso me confortou e me deu mais força para batalhar. Queremos um mundo melhor e uma sociedade mais justa, um bom atendimento, uma escola que inclua os nossos filhos. Nos tornamos amigos, nos unimos. A força se faz ainda do apoio que o poder público e a escola dão à família”.
Há dez anos, a Organização das Nações Unidas, ONU, criou um dia para enfatizar a conscientização do autismo: 2 de abril. Desde então, o mundo tem aberto maior discussão acerca do assunto. Um importante dado a ser destacado é que, no Brasil, a cada 68 crianças nascidas, uma tem autismo, segundo relatório. Diante da estatística se faz ainda mais necessário o entendimento do que é o autismo.
O autismo é uma síndrome que aparece, geralmente, nos dois primeiros anos de vida. Conhecido como inabilidade desenvolvente complexa pelos especialistas, é resultado de uma desordem neurológica que afeta o funcionamento do cérebro. Consequentemente, o autismo prejudica o desenvolvimento da interação social e da habilidade de comunicação.

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